REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 16.3 DOI: http://www.dx.doi.org/S1415-27622012000300002

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Pesquisa

O cuidado pré-natal na atenção básica de saúde sob o olhar de gestantes e enfermeiros*

Prenatal care in primary care under the health of pregnant women and nurses

Eryjosy Marculino GuerreiroI; Dafne Paiva RodriguesII; Maria Adelaide Moura da SilveiraIII; Nájori Bárbara Ferreira de LucenaIV

IEnfermeira. Discente do Curso de Mestrado Acadêmico Cuidados Clínicos em Saúde (CMACCLIS) na Universidade Estadual do Ceará (UECE). Integrante do Grupo de Pesquisa Saúde da Mulher e Enfermagem (Grupesme)
IIEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Docente do Curso de Graduação em Enfermagem da UECE. Docente do CMACCLIS/UECE. Coordenadora do Grupesme
IIIEnfermeira do Programa de Saúde da Família de Caucaia-CE. Discente do Curso de Especialização em Enfermagem Pediátrica e Neonatal - Faculdade Metropolitana de Fortaleza (Fametro)
IVEnfermeira. Discente do Curso de Especialização em Enfermagem do Trabalho na UECE

Endereço para correspondência

Rua Jaú, 300, apto 302, bl 02, Vila União
Fortaleza-CE. CEP: 60410-791
E-mail: eryjosy@msn.com

Data de submissão: 29/9/2011
Data de aprovação: 17/7/2012

Resumo

O objetivo com este estudo foi conhecer as concepções de gestantes e enfermeiros sobre o cuidado pré-natal na atenção básica de saúde. Trata-se pesquisa exploratória e descritiva, realizada com 11 enfermeiros inseridos na Secretaria Executiva Regional IV de Fortaleza-CE e com 18 gestantes atendidas nesses serviços. Os enfermeiros consideram um pré-natal de qualidade aquele com acolhimento, educação em saúde, atenção integral à mulher gestante, número mínimo de seis consultas, referência e contrarreferência, além de trabalho em equipe. Os entraves encontrados pelos profissionais foram: demora nos resultados dos exames solicitados, ausência de referência e contrarreferência, carência de recursos materiais, limitação dos enfermeiros na solicitação de exames e falta de trabalho em equipe. Na concepção das gestantes, um prénatal de qualidade é caracterizado por recursos tecnológicos, cuidado integral, acolhimento e assiduidade do enfermeiro. Quanto à satisfação das mulheres com o cuidado de enfermagem na consulta pré-natal, existe insatisfação com a ausência de referência e contrarreferência e carência de informações. Os profissionais devem trabalhar, além dos aspectos tecnológicos, aspectos humanísticos mediante atenção integral à mulher gestante. A utilização da escuta é um excelente recurso para saber quais as necessidades dessas mulheres e, dessa forma, oferecer-lhes informações e cuidados pertinentes.

Palavras-chave: Atenção Primária à Saúde; Enfermagem; Gravidez; Cuidado Pré-Natal; Satisfação do Paciente

 

INTRODUÇÃO

O cuidado, que é a essência do trabalho do enfermeiro, há tempos vem sendo incorporado à prática na assistência à saúde da mulher no ciclo gravídicopuerperal, porém com diversas conotações que variam de uma abordagem tecnicista a uma visão mais humanística. Essa perspectiva de cuidado sofre influência dos antigos programas materno-infantis, quando a saúde da mulher foi incorporada às políticas nacionais de saúde nas primeiras décadas do século XX, sendo limitada, nesse período, às demandas relativas à gravidez e ao parto.

Os programas materno-infantis, elaborados nas décadas de 1930 a 1970, traduziam uma visão restrita sobre a mulher baseada em sua especificidade biológica e no seu papel social de mãe e doméstica, responsável pela criação, pela educação e pelo cuidado com a saúde dos filhos e demais familiares. Altamente criticados pelo movimento feminista de mulheres e pela maneira reducionista com que preconizam a assistência à mulher, urgiu que se criasse outro programa que contemplasse não somente a esfera biológica da mulher e o ciclo gravídico-puerperal, mas as outras necessidades de saúde ao longo de seu ciclo vital.

Em 1984, o Ministério daSaúde(MS)elaborou o Programa de Assistência Integral a Saúde da Mulher (PAISM), que incorporou como princípios e diretrizes as propostas de descentralização, hierarquização e regionalização dos serviços, bem como a integralidade e a equidade da atenção, num período em que, paralelamente, no âmbito do Movimento Sanitário, se concebia o arcabouço conceitual que embasaria a formulação do Sistema Único de Saúde (SUS).1

No âmbito da saúde da mulher, especificamente tratando-se da prática obstétrica, o enfermeiro exerce um papel importante no que concerne à humanização da assistência, tendo em vista que o processo gestatório e o período pós-parto sejam permeados por sentimentos de medo e insegurança. Na maioria das vezes, esses sentimentos, aliados à desinformação e assistência pré-natal inadequada, são responsáveis pela opção da mulher pela cesárea. Segundo a Secretaria de Saúde do Estado do Ceará, os partos cesáreos continuam em ascensão. Em 2009, a proporção de partos cesáreos do setor público, de acordo com o Sistema de Informações de Internações Hospitalares (SIH) foi de 36,2%.2

Fazendo uma análise retrospectiva da cobertura de pré-natal no SUS durante o período de 2003 a 2009, percebemos que houve avanços significativos na quantidade de consultas oferecidas às gestantes. O número de consultas de pré-natal atingiu 19,4 milhões em 2009 - aumento de 125% em relação a 2003, quando foram registradas 8,6 milhões. Apesar do aumento de consultas, ainda é questionável a qualidade dessa assistência, haja vista a alta incidência de sífilis congênita em menores de um ano, com 5.281 casos confirmados em 2008, o fato de a hipertensão arterial ser a causa mais frequente de morte materna no Brasil, os encaminhamentos inadequados ou tardios aos serviços de pré-natal de alto risco e o fato de a mortalidade materna brasileira ser ainda dez vezes maior que a de países desenvolvidos.3 Além disso, apenas 41,01% das gestantes inscritas no Programa de Humanização no Pré-Natal e Nascimento (PHPN) receberam a 2ª dose ou a dose de reforço ou a dose imunizante da vacina antitetânica.4

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2005, na América Latina e no Caribe, a estimativa de mortalidade materna correspondeu a 130 mortes para cada 100 mil nascimentos vivos. Apesar dos esforços recentes do Governo brasileiro em termos de leis e políticas voltadas para o exercício dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, a taxa de mortalidade materna no Brasil é ainda considerada alta, estimandose 110 mortes maternas por 100 mil nascidos vivos.5

No Ceará, observa-se redução da mortalidade materna desde 2006, mas, no período de 1997 a 2009, ocorreram 1.525 mortes maternas, sendo 1.425 por causas obstétricas, com predomínio das causas obstétricas diretas. Em 2009, ocorreram 68 óbitos obstétricos, dos quais 37 por doenças hipertensivas do estado de gravidez. Quanto às causas obstétricas indiretas, ocorreram 30 óbitos, sendo 7deles por doenças do aparelho circulatório e 7 por doenças infecciosas.2 Tendo por base os dados apresentados, questiona-se a qualidade do acompanhamento das gestantes.

Vale ressaltar que o cuidado de enfermagem na assistência pré-natal ainda não está bem consolidado nos serviços de atenção básica. Observam-se limitações para a ampliação e a cobertura da clientela. Essas dificuldades decorrem, principalmente, da falta de recursos humanos e materiais, dentre outros, acarretando sérios obstáculos à implantação de ações de enfermagem embasadas por princípios de qualidade, nos diversos serviços de atenção à mulher, ocasionando sobrecarga de atividades refletida em uma assistência à mulher que não corresponde às suas expectativas e necessidades.6

Tais considerações permitem refletir sobre o atendimento que está sendo oferecido à mulher no prénatal, para que se possa aproximar o máximo possível de uma prática humanizada e de qualidade, por meio de um processo de cuidar sistemático, individual e contextualizado, requerendo uma efetiva comunicação entre enfermeiro e cliente.

Diante da problemática exposta, surgem os seguintes questionamentos: Como se consolida o cuidado de enfermagem na atenção básica de saúde junto à mulher durante o pré-natal? Quais as concepções de enfermeiros e gestantes sobre esse cuidado? Como está a satisfação das gestantes em relação aos cuidados de enfermagem recebidos na consulta?

Dessa forma, o objetivo com este estudo foi conhecer as concepções de gestantes e enfermeiros sobre o cuidado pré-natal na atenção básica de saúde. O olhar dos enfermeiros e das gestantes sobre o cuidado pré-natal contribui sobremaneira para a assistência obstétrica, uma vez que pode servir como dispositivo importante a ser utilizado pelos serviços que prestam assistência obstétrica na atenção básica de saúde no Estado, de forma a realizarem uma atuação intensa, específica e articulada com os serviços de atenção secundária. Isso implicará melhor qualidade do acompanhamento pré-natal, com reflexos no período puerperal de modo a esperar um restabelecimento fisiológico e livre de complicações perinatais com um desempenho satisfatório da mulher e dos familiares à maternidade. Espera-se, ainda, avançar no melhor desempenho dos serviços que atendem mulheres no período gestacional e reforçar a referência e a contrarreferência como forma de organizar o atendimento no ciclo gravídicopuerperal.

 

METODOLOGIA

Estudo do tipo exploratório e descritivo de abordagem qualitativa, realizado nas Unidades Básicas de Saúde da Família (UBSFs) inseridas na Secretaria Executiva Regional IV (SER IV) do município de Fortaleza-CE, com 11 enfermeiros atuantes no serviço de pré-natal e no acompanhamento pós-parto e 18 gestantes que se encontravam no último trimestre gestacional e que aceitaram participar.

A coleta dos dados ocorreu no período de janeiro a dezembro de 2009 por meio de entrevistas semiestruturadas individuais e gravadas com ambas as amostras, após aceite e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) pelos participantes do estudo. O instrumento abrangeu tópicos relacionados às ações realizadas pelo enfermeiro durante o acompanhamento pré-natal, dificuldades de operacionalização desse acompanhamento, conceito de qualidade desse atendimento, satisfação/insatisfação com o atendimento recebido, dentre outros. Também foram realizadas observações durante as consultas de pré-natal, com a utilização do diário de campo. As UBSFs, foram eleitas como cenário de levantamento dos dados para facilitar a interação pesquisador-pesquisados e possibilitar maior fidedignidade dos dados.

As narrativas foram organizadas de acordo com o método de análise de conteúdo proposto por Bardin,7 iniciando-se com uma leitura flutuante, seguida da constituição do corpus, preparação, codificação, classificação e agregação do material a ser analisado em categorias. Para maior organização dos depoimentos, os sujeitos foram identificados com as letras "E" de enfermeiro e "G" de gestante, seguidas de algarismo arábico.

Os aspectos éticos que regem a pesquisa com seres humanos foram rigorosamente respeitados, conforme preconiza a Resolução nº 196/96, do Conselho Nacional de Saúde,8 em todo o percurso da pesquisa, desde o primeiro contato dos pesquisadores com os cenários do estudo até sua conclusão, atentando-se para necessidade de devolução dos resultados para as instituições e divulgação em eventos científicos e em publicações. Ressalte-se que o referido estudo somente foi realizado após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual do Ceará, sob protocolo nº 08351945-9.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Para melhor analisar os dados referentes ao objeto de estudo, foram criadas duas categorias com base nas convergências das falas dos enfermeiros e gestantes entrevistados. Na primeira categoria, abordou-se o "Pré-natal de qualidade" segundo a concepção de enfermeiros e gestantes. Nessa categoria foi avaliada, ainda, a satisfação das gestantes com os cuidados de enfermagem na consulta pré-natal. A segunda categoria, "Entraves para a realização de um pré-natal de qualidade", trata das dificuldades encontradas por profissionais e usuárias para o melhor atendimento no serviço.

Categoria 1: Pré-natal de qualidade

Na assistência à gestante no pré-natal, o enfermeiro obterá êxito se estiver respaldado pelo senso de responsabilidade e compromisso. Um resultado positivo de gravidez pode acarretar uma mudança radical na vida da gestante e de toda a sua família. Nesse momento, somente o conhecimento técnicocientífico não é suficiente para atender às necessidades expressas e latentes da mulher que está grávida. As atitudes de sensibilidade e afetividade demonstradas pela enfermeira desde o início do pré-natal, mediante a escuta dos problemas, observação das reações e o oferecimento de apoio, favorecerão a interação enfermeiro-gestante. O período de gestação e parto envolve grandes mudanças e requer uma adaptação à chegada do novo membro de uma família. É, assim, o momento de maior vulnerabilidade e, ao mesmo tempo, propício ao desenvolvimento de ações preventivas e de promoção à saúde a serem realizadas por profissionais de serviços de Atenção Primária à Saúde (APS). Um pré-natal qualificado exige a participação e o comprometimento de uma equipe integrada internamente e com os serviços que prestam cuidados na atenção secundária e terciária.9

Os enfermeiros que realizam consultas de enfermagem nas Unidades Básicas da SER IV dão a devida importância à empatia que o profissional deve ter com sua cliente para que essa se sinta acolhida. A humanização é traduzida por meio da escuta, da conversa, do olhar, do toque e, a partir de então, as dúvidas são esclarecidas.

Reciprocamente, as gestantes julgam necessário para um pré-natal de qualidade uma atenção integral à gestante por parte dos enfermeiros, de forma que ela se sinta segura com as informações fornecidas sobra a sua saúde e a de seu bebê.

 

QUADRO 1

 

A qualidade dos serviços de atenção à gestante não pode se efetivar sem considerar suas necessidades e/ou expectativas e sem ter sensibilidade e intuição para captar o que é necessário incluir no plano de cuidados da mulher, para que ela se sinta tranquila e confortada. Se algum elemento do cuidado provido se apresenta omisso, deve ser resgatado para tornar-lhe esse cuidado mais significativo.

Uma atenção pré-natal qualificada e humanizada se dá por meio da incorporação de condutas acolhedoras e sem intervenções desnecessárias: do fácil acesso a serviços de saúde de qualidade, com ações que integram todos os níveis de atenção - promoção, prevenção e assistência à saúde da gestante e do recémnascido, desde o atendimento ambulatorial básico ao atendimento hospitalar para alto risco.4

O acolhimento, desde a chegada à recepção até a saída do consultório, é importante para um pré-natal satisfatório. Além disso, a assiduidade e a pontualidade do enfermeiro devem ser um compromisso assumido pelo profissional.

Os enfermeiros entrevistados citavam, normalmente, como fator preponderante para um pré-natal de qualidade, o número mínimo de seis consultas de acompanhamento pré-natal de acordo com o preconizado pelo Ministério da Saúde.

O início precoce do pré-natal depende da disponibilidade da gestante em procurá-lo, da capacidade de oferta do serviço e, ainda, do acesso a ele. O número de consultas realizado, certamente, dependerá da idade gestacional de início do pré-natal (quanto mais precoce, mais consultas), mas também da capacidade do serviço de promover a adesão da gestante a ele.

Considera-se uma atenção pré-natal de qualidade aquela com início precoce, periódica, completa e com ampla cobertura.9,10 O início do acompanhamento no primeiro trimestre da gestação permite a realização oportuna de ações preventivas, de diagnósticos mais precoces e de ações de promoção à saúde. Além disso, possibilita a identificação, no momento oportuno, de situações de alto risco que envolvem encaminhamentos para outros pontos da atenção, para melhor planejamento do cuidado.11

O trabalho em equipe no acompanhamento pré-natal na atenção básica é de grande relevância, sendo citado pelos enfermeiros entrevistados. As consultas de prénatal são intercaladas entre médico e enfermeiro, além das consultas com o dentista e nutricionista, quando se faz necessário.

Além desses fatores, a educação em saúde é citada como necessária para um pré-natal de qualidade, principalmente, em gestantes primíparas. Supõe-se que essas não tenham experiência e careçam de muitas informações.

Ao observar as consultas de pré-natal realizadas por enfermeiros em todas as UBSFs da SER IV, presenciouse que as gestantes recebiam informações sobre a alimentação ideal durante a gravidez, os cuidados com os seios para o aleitamento materno, os sinais do parto, enfatizando em que momento ela deve recorrer à maternidade. No entanto, não foram veiculadas outras informações como: a sexualidade na gestação, a apreensão correta da mama no aleitamento materno, os cuidados com o recém-nascido e atividades físicas. Normalmente, as mulheres recebem essas informações de seus familiares, principalmente das mães, avós e sogras.

Outro aspecto que se vislumbrou refere-se a atitudes do profissional centradas no modelo de educação tradicional, em que não há espaço para perguntas e para um processo de comunicação efetivo entre profissional e cliente. A dimensão técnica do cuidar assume a prioridade nos atendimentos às gestantes, deixando uma lacuna nesse processo de cuidar, que faz uma diferença muito grande para a mulher ao término do processo gestacional, quando se depara com uma série de dúvidas e dificuldades para desempenhar o papel materno.

Com relação às ações educativas no pré-natal, estudos de Figueiredo e Rosssoni12 mostram uma tendência em restringir as ações educativas durante as consultas individuais com o simples repasse de algumas informações sobre gravidez, parto e cuidados com o bebê. É de extrema importância o despertar de alguns profissionais para a educação em saúde realizada individualmente, priorizando as necessidades de cada um, atentando para o fato de que educação em saúde pode e deve ser realizada em todos os âmbitos e oportunidades.

Uma vez situados diante da consulta de enfermagem prénatal, não se pode perder de vista os sujeitos envolvidos: o enfermeiro e a mulher. Na relação profissional, o enfermeiro, sujeito singular, com concepções e maneiras próprias de olhar o outro, depara-se com um cliente que tem necessidades de saúde e expectativas em relação à gravidez e à sua própria atuação profissional. São as vivências desse profissional, bem como os limites e possibilidades do serviço, que levam o enfermeiro a optar por uma ou outra forma de abordagem ao cliente.12

Cabe à equipe de saúde, ao entrar em contato com uma mulher gestante, buscar compreender os múltiplos significados da gestação para aquela mulher e sua família, notadamente se ela for adolescente. A escuta aberta, sem julgamento nem preconceitos, possibilita que a mulher compartilhe e faça reflexões sobre suas fantasias, medos, emoções, amores e desamores, estabelecendo um elo de confiança com o profissional que a está assistindo.4

 

QUADRO 2

 

Categoria 2: Entraves para a realização de um pré-natal de qualidade

A atenção qualificada depende da provisão de recursos e da organização de rotinas com ações comprovadamente benéficas, evitando intervenções desnecessárias e estabelecendo relações de confiança entre as famílias e a equipe e autonomia da gestante.4

A demora dos resultados dos exames solicitados nas consultas de pré-natal foi muito comentada pelos enfermeiros do estudo. Em muitas situações, esses resultados demoram até três meses para chegar às mãos das gestantes, estando, portanto, desatualizados. O principal problema é a detecção tardia de alguma complicação, que poderia já estar sendo tratada se houvesse agilidade nos resultados dos exames.

Outro entrave descrito pelos enfermeiros e pelas gestantes foi a ausência de referência e contrarreferência. As gestantes referem insatisfação por não terem uma maternidade vinculada ao serviço para que possam ser encaminhadas no momento do parto. Queixam-se por terem de sair de hospital em hospital atrás de vaga. Isso só aumenta a ansiedade, a preocupação e o medo das gestantes antes de um momento tão esperado - o nascimento do filho.

 

QUADRO 3

 

A falta de referência e de contrarreferência gera ansiedade e sensação de desamparo, pois o serviço perde o contato das gestantes, interrompendo a atenção durante o período gravídico-puerperal. Ao serem encaminhadas para um pré-natal de alto risco pela ocorrência de DHEG, pré-eclâmpsia, diabetes ou sofrimento fetal, por exemplo, os profissionais das UBSFs perdem a continuidade do cuidado a essas mulheres.

A desvinculação entre a assistência pré-natal e a do parto leva as mulheres em trabalho de parto a uma peregrinação à procura de vagas nos hospitais. Além disso, a maioria das mortes maternas ocorre perto do parto, demandando intervenções que garantam melhor assistência nesse período. Nesse panorama da situação obstétrica, a crença de que existe desumanização em um momento tão importante e, principalmente, o direito que toda mulher tem de garantia ao atendimento foram consideradas como questões emblemáticas a enfrentar.

Em seus discursos, os enfermeiros trataram, também, da sua limitação na solicitação de exames e sorologia, além da prescrição de alguns medicamentos, o que atrasa muito os resultados dos exames necessários para o acompanhamento do pré-natal. Diante disso, existe um "acordo", entre a maioria das equipes, de o enfermeiro solicitar exames e sorologia, além de prescrever algumas medicações para o médico só assinar e carimbar a receita. Na consulta seguinte com o médico, a gestante já está com os resultados dos exames para ele avaliar. Os enfermeiros têm a consciência de que esse não é o procedimento correto, mas referem estar pensando na agilidade de entrega dos resultados.

Observou-se, também, a carência de materiais nas UBSFs - por exemplo, Sonar Doppler ou estetoscópio de Pinard - para verificar batimentos cardíacos fetais. A maioria das unidades só possuía um único aparelho para todas as equipes. Além disso, uma grande queixa dos enfermeiros é a falta de recursos tecnológicos para a realização de ultrassom obstétrico. As gestantes, muitas vezes, precisam ir a clínicas particulares para receber o resultado imediato.

As mulheres entrevistadas retratam o incômodo causado pelo fato de não poderem fazer um ultrassom no serviço e serem encaminhadas para outros lugares ou, até mesmo, pagarem por um ultrassom com resultados imediatos.

Diante dos dados apresentados, percebe-se que há muito ainda que avançar no que diz respeito ao cuidado pré-natal na atenção básica de saúde. Comparando os resultados apresentados neste estudo com estudos realizados em outros municípios brasileiros, constata-se que as dificuldades na realização da consulta diferem nas diversas regiões do país. Por exemplo, em estudo13 realizado com 25 enfermeiras que acompanhavam o prénatal na rede básica de saúde do município de Rio Branco-AC, constatou-se que as enfermeiras não apresentaram dificuldades em uma série de atividades importantes na assistência pré-natal no início do exercício profissional. No entanto, relataram que enfrentaram dificuldades em atividades que exigem conhecimentos (saber), como também em atividades que necessitam de habilidades (saber-fazer). No estudo foram apontadas, ainda, falhas na graduação, com relação à atenção ao pré-natal, tanto para aspectos teóricos como para atividades exclusivamente práticas.

Em outro estudo14 realizado com 30 gestantes nos municípios de Axixá doTocantins, Praia Norte e Sítio Novo do Tocantins, revelou-se que 50% das entrevistadas não encontram dificuldades durante a consulta pré-natal, enquanto 26,67% citaram como dificuldade a realização de exames em outro município. Quanto às facilidades, o atendimento humanizado e o fácil acesso à consulta foram considerados pela maioria das usuárias como os elementos positivos do atendimento. Quando questionadas sobre quais as principais facilidades enfrentadas para fazer o pré-natal, 43,33% das entrevistadas afirmaram que o atendimento humanizado prestado pelos profissionais que realizavam as consultas é o principal fator motivador para a adesão ao pré-natal.

Essa humanização é entendida como um conjunto de conhecimentos, práticas e atitudes que visam à promoção do parto e nascimento saudáveis e também a prevenção da morbimortalidade materna e perinatal, utilizando elementos essenciais para o fortalecimento da relação profissionais-clientes. Podem ser citadas a troca de informações, a cumplicidade gerada pela continuidade do atendimento pelos profissionais, a coparticipação do paciente quanto ao seu tratamento, dentre outros. Uma parcela correspondente a 36,67% das entrevistadas afirmou que a facilidade de acesso ao atendimento (aqui entendido como proximidade da residência), número adequado de fichas para consultas, rapidez para o atendimento, falta de filas e disponibilidade de vacinas podiam ser considerados elementos positivos do serviço.14

 

QUADRO 4

 

Em estudo15 realizado com 152 gestantes cadastradas em uma USF do município de São Paulo-SP, 99% das usuárias demonstraram satisfação com o serviço oferecido. Verificaram-se aspectos positivos com relação à assistência pré-natal com ênfase no PSF, visto que 84% das gestantes conhecem o programa; 99% consideram o atendimento prestado como adequado; 97% conhecem a equipe que presta atendimento; 54% conhecem o hospital que será referência para o parto; e 93% receberam visitas mensais dos agentes comunitários de saúde.

Ressalte -se que elementos socioeconômicos e emocionais devem ser considerados no momento do atendimento à gestante e que esta deve ser instruída quanto aos cuidados necessários para o sucesso desse estágio. O profissional deve oferecer um suporte psicológico à cliente, estimulando o vínculo profissionalfamília, por meio de diálogos francos, visitas domiciliares e reuniões de grupo. Além disso, necessita dispor de conhecimentos técnico-científicos atualizados, recursos humanos e/ou de infraestrutura adequados - por exemplo, uma área física adequada, equipamentos disponíveis para o exame da gestante, medicamentos básicos suficientes à demanda, profissionais aptos e treinados para o bom atendimento à mulher.

Também necessita contar com um serviço eficaz de referência e contrarreferência e sistemas de avaliação das ações desenvolvidas, pois esses fatores contribuem sobremaneira para o sucesso do serviço de pré-natal e estimulam aqueles envolvidos no processo.

Redirecionar a prática profissional quanto ao atendimento prestado à gestante, enfocando elementos como o diálogo franco e a disposição a ouvir os medos e as ansiedades vivenciadas durante esse período pela mulher, é de grande importância para a adesão e a qualidade das consultas. Essa conduta deve ser fomentada com base no trabalho dos agentes comunitários de saúde, no momento da visita domiciliar, seja para a captação da gestante para o início do prénatal, seja na busca ativa de faltosas.14

A assistência pré-natal de qualidade deve feita por meio de um esforço contínuo de todos os envolvidos no processo, utilizando-se os meios existentes na comunidade e no ambiente de trabalho para a facilitação das ações e melhoria da satisfação das usuárias, mediante um atendimento rápido, eficaz, integral e igualitário.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por meio dos depoimentos de enfermeiros e gestantes, pôde-se conhecer as concepções delas sobre o cuidado pré-natal na atenção básica de saúde. Ambos consideram um pré-natal de qualidade aquele que tem um bom acolhimento, educação em saúde, atenção integral à mulher gestante, número mínimo de seis consultas, referência e contrarreferência, assiduidade do enfermeiro e trabalho em equipe.

Em relação à satisfação das mulheres com o cuidado de enfermagem na consulta pré-natal, existe insatisfação em relação à educação em saúde. Embora algumas gestantes tenham se mostrado satisfeitas, observou-se que elas ainda carecem de informações e instruções sobre como pegar corretamente o bebê para a amamentação, a sexualidade na gestação, a preparação para o parto e os cuidados com o recém-nascido.

Diante disso, enfatize-se a necessidade da criação de grupos de gestantes tendo o enfermeiro como facilitador, para que possam trocar experiências, tirar dúvidas e serem conduzidas de acordo com suas necessidades como mulheres e mães. Dessa forma, elas estariam mais munidas de conhecimentos sobre si mesmas, sobre a gravidez e a maternidade, bem como preparadas psicologicamente para viver os momentos tão esperados - o parto e o nascimento de um filho.

Alguns entraves para a realização de um pré-natal de qualidade descritos foram: demora nos resultados dos exames solicitados, ausência de referência e contrarreferência, carência de recursos materiais e tecnológicos, limitação dos enfermeiros na solicitação de exames e falta de trabalho em equipe.

Percebeu-se quanto esses fatores interferem na qualidade do pré-natal. Muitos só podem ser resolvidos em uma esfera mais ampla e não dependem apenas do desempenho do profissional, mas da articulação com gestores de saúde e demais setores envolvidos. Apesar dos avanços, o sistema de saúde atual está aquém das necessidades dos usuários e profissionais.

No atendimento à mulher, o enfermeiro deve ser um instrumento para que a cliente adquira autonomia no agir, aumentando-lhe a capacidade de enfrentar situações de estresse, de crise e decidir sobre sua vida e sua saúde.

Ansiedade e dúvidas com relação às modificações pelas quais vai passar, sobre como está se desenvolvendo a criança, medo do parto, de não poder amamentar, dentre outros, são também sentimentos comuns presentes nas grávidas. É no pré-natal que a mulher deve ser mais bem orientada para que possa viver o parto de forma positiva e feliz, ter menos riscos de complicações no puerpério e mais sucesso na amamentação.

Para a satisfação das mulheres com o cuidado de enfermagem, além de aspectos tecnológicos, devem ser trabalhados os aspectos humanísticos mediante uma atenção integral à mulher gestante. Dessa forma, a utilização da escuta é um excelente recurso para saber quais as necessidades de cada mulher e, a partir de então, doar-lhe as informações e os cuidados pertinentes.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos à Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap) pelo apoio financeiro para o desenvolvimento da pesquisa.

 

REFERÊNCIAS

1. Brasil. Ministério da Saúde. Política nacional de atenção integral à saúde da mulher: princípios e diretrizes. Brasília: Ministério da Saúde; 2007.

2. Brasil. Secretaria da Saúde do Estado do Ceará. Situação da saúde no Ceará. Fortaleza: Secretaria da Saúde do Estado do Ceará; 2011. 80p.

3. Brasil. Ministério da Saúde. Datasus. 2011. [Citado em 2011 jan. 13]. Disponível em: <http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/index.php>.

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5. World Health Organization. Maternal Mortality in 2005. Estimates developed by WHO, Unicef, NNFBA and the World Bank. Genebra: World Health Organization; 2007.

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7. Bardin L. Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições 70; 1977.

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11. Fescina RH, De Mucio B, Díaz Rossello JL, et al. Guías para el continuo de atención de la mujer y el recién nacido focalizadas en APS: guía para la práctica básica. Montevideo: CLAP/SMR; 2007.

12. Figueiredo PP, Rossoni E. O acesso à assistência pré-natal na atenção básica à saúde sob a ótica das gestantes. Rev Gaúcha Enferm. 2008;29(2):238-45.

13. Dotto LMG, Moulin NM, Mamede MV. Assistência pré-natal: dificuldades vivenciadas pelas enfermeiras. Rev Latinoam Enferm. 2006;14(5):682-8.

14. Forte EGS, Valencia OEJ, Machado EG, et al. Satisfação quanto à consulta pré-natal após a implantação do programa de interiorização do trabalho em saúde. Rev UFG. 2004; 6(Esp).

15. Alencar NG, Gomes LC. Avaliação da assistência pré-natal na percepção de gestantes atendidas em uma unidade com Programa de Saúde da Família. Saúde Coletiva 2008;4(19):13-7.

 

 

* Trabalho completo apresentado no I Congresso Internacional de Enfermagem Obstétrica e Neonatal e no VII Congresso Brasileiro de Enfermagem Obstétrica e Neonatal, Belo Horizonte-MG, 2011.

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