REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 15.3

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Pesquisa

O valor útil no ensino da enfermagem

Nursing education and scheler's utility values concept

Gilberto de Lima GuimarãesI; Ligia de Oliveira VianaII

IDoutor em Enfermagem. Professor adjunto do Departamento de Enfermagem Básica da Escola de Enfermagem. Universidade Federal de Minas Gerais (EEUFMG). Belo Horizonte-MG, Brasil. Membro do Núcleo de Pesquisa em Educação, Saúde e Enfermagem da Escola de Enfermagem Anna Nery (EEAN) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). E-mail: drgilberto.guimaraes@hotmail.com
IIDoutora em Enfermagem. Professora titular do Departamento de Metodologia da Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Brasil. Membro do Núcleo de Pesquisa em Educação, Saúde e Enfermagem. EEAN-UFRJ. E-mail: ligiaviana@bol.com.br

Endereço para correspondência

Rua Itajubá nº 2055, Apto. 302, Sagrada Família
Belo Horizonte-MG, Brasil. CEP:31035-540

Data de submissão: 28/2/2011
Data de aprovação: 2/5/2011

Resumo

Este artigo é balizado na Teoria de Valor. A enfermagem possui um conjunto de valores do qual se nutre para elaborar uma escala. O objetivo com esta pesquisa foi compreender o valor útil no ato de educar do enfermeiro-docente e discuti-lo à luz dos pressupostos de Max Scheler. A metodologia é qualitativa, centrada no enfoque fenomenológico. Participaram do estudo sete enfermeiros docentes de três instituições de ensino superior de enfermagem, localizadas na cidade do Rio de Janeiro. O período de realização foi de agosto de 2007 a junho de 2008. Os dados foram obtidos por meio de entrevista e o valor útil emergiu no discurso do enfermeiro docente no ato de educar. Foi por meio do ato de educar que o enfermeiro apresentou o valor útil ao educando, ratificando-o como instituinte para a práxis assistencial da enfermagem.

Palavras-chave: Enfermagem; Educação; Cultura

 

INTRODUÇÃO

A enfermagem é uma prática científica e social, portanto, dotada de um corpo de conhecimento teórico-prático que lhe confere destaque. Como prática científica, exerce sua ação na área da saúde, tendo o seu objeto de interesse radicado no cuidado de enfermagem1 e vale-se dele para prover, no encontro dialógico com o seu cliente/comunidade, as condições de promoção, prevenção e reparação da saúde. Como prática social, possui valores que lhe concedem sentido e significado. Esses valores formam um axiograma (escala hierarquizada) da profissão, que é a sua autodeclaração valorativa pela qual se pauta para nortear e justificar suas ações, expressando o que ela é e como age. Os valores que fundam esse axiograma foram identificados pelos pesquisadores nos escritos de Notas sobre a Enfermagem, de Florence Nightingale, formando uma amálgama, a saber: o valor social, o valor ético, o valor útil e o valor verdade.

Inserido na sociedade, o educando traz para o cenário de seu aprendizado os valores que foram ali adquiridos e que passam a fazer parte de sua personalidade. Esses valores formam o axiograma assumido por ele e revelam o que ele é, como age e expressa sua cosmovisão. Dessa maneira, ao buscar a qualificação profissional na enfermagem, o educando mediante a intermediação docente no ato pedagógico-assistencial, indubitavelmente, confrontará seu axiograma com o axiograma da enfermagem, discutindo-o e rehierarquizando-o, consoante o exercício de sua volição e, nesse confronto, poderá retificar ou ratificar sua atitude.1-3

De tal modo, com este estudo teve-se como objetivo compreender no ato de educar do enfermeiro docente o valor útil e discuti-lo à luz dos pressupostos de Max Scheler.4

Dado o desgaste obtido pela palavra "valor" ao longo do tempo, faz-se necessário, a fim de dirimir qualquer dúvida, conceituá-lo. Assume-se o conceito do valor como aquilo que vale para o homem, sendo capaz de suprir uma carência e promover seu crescimento e desenvolvimento como pessoa.3

A justificativa foi centrada na nossa reflexão, como docentes, sobre a prática pedogógica-assistencial com os discentes, que valores estamos apresentando aos discentes e se estes faziam parte do campo axiológico que fundava a profissão. Adotamos a perspectiva sheleriana para a busca da compreensão valorativa, pois compartilhamos a visão de que os valores são apreendidos pelo sentimento, e não pela razão.4

 

REFERENCIAL TEÓRICO

A fenomenologia de Max Scheler, tendo sua inspiração em Husserl, é, antes de tudo, uma filosofia dos valores. Sua pretensão foi construir uma ética em base de dados objetivos e rigorosos de em que surgisse uma axiologia de fundamentos absolutos opondo-se, de forma radical, ao racionalismo axiológico.5

Assim, a verdadeira filosofia deve admitir uma forma complementar de participação na essência das coisas com base na via emocional, que passa a constituir um elemento capaz de produzir o conhecimento do ser. Ao proceder à reflexão sobre o agir humano, ele percebeu que havia um tipo de conhecimento cujos objetos eram inteiramente inacessíveis à razão: o conhecimento dos valores.4

Os valores são revelados por meio da intuição emocional. Agindo assim, rejeita-se a distinção entre o conhecimento sensitivo e o racional, elevando o emocional ao nível do racional, bem como admite-se um mundo de experiências cujos objetos são inacessíveis ao entendimento e que só o emocional coloca o homem autenticamente diante desse mundo. Assim, o conhecimento do valor se dá a priori.4

Ao estabelecer a base de fundamentação de sua filosofia com base na intuição emocional, ele faz uma crítica à concepção ética advinda do formalismo kantiano e propõe uma nova fundamentação.4

Dessa maneira, o mundo dos valores passa a gozar de validade independentemente do sujeito, constituindo um mundo em si, cujos valores se escondem por trás do sentimento do valor, como dado objetivo e material.4

O valor útil

O valor útil é o que favorece a vida, não a vida em geral, mas a vida humana. A vida no homem não é independente da humanidade. O homem é espírito, ao mesmo tempo em que é vida.4

Pode-se visualizar nas mais diversas civilizações, desde aquelas que possuem forte apego tecnológico, como aquelas de menor conhecimento científico, que todas julgam, raciocinam, transformam, organizam e legislam, demonstrando que a utilidade e a espiritualidade são complementares.3

Assim, para o animal, o valor da utilidade equivale ao valor vital; para o homem, não. Embora nas primeiras etapas do desenvolvimento da vida, na criança, o natural se sobreponha ao artificial, no adulto e especialmente no aculturado, o artificial prevalece sobre o natural.3

O útil pode ser considerado um valor espiritual por não estar orientado apenas para a conservação da vida, mas para o desenvolvimento espiritual do indivíduo. Mostra não a submissão do espírito à vida, mas a afirmação de uma organização da vida pelo espírito.4

Postas tais considerações, faz-se necessário conhecermos a posição scheleriana diante da sociedade moderna quanto ao emprego do valor útil, a fim de compreendermos a organização da vida pelo espírito.

A crítica scheleriana à sociedade capitalista moderna é de que esta, com a influência burguesa, tem empreendido esforço em desenvolver com as pessoas uma escala hierárquica de valores, cujo valor útil tem sido colocado no topo. Ele realiza sua condenação a essa inversão dos valores do ethos burguês, que consiste colocar no topo da hierarquia axiológica precisamente os valores sensíveis e materiais, que deveriam ocupar o nível mais baixo. Basta-lhes reordenar devidamente essa hierarquia, atribuindo aos valores do espírito a primazia que lhes compete por direito, para eliminar qualquer sentido negativo do progresso tecnológico e da civilização moderna industrial.4

Assim, a técnica e a indústria devem ser recolocadas no seu justo lugar, pois é um suporte importante e até indispensável para o desenvolvimento do espírito e da cultura. Nesse sentido, a civilização moderna produzida pelo capitalismo encontra em seu pensamento sua justificativa e um sentido absolutamente positivo. O que ele critica e condena é a inversão de valores do ethos burguês, não o que este produziu concretamente em termos de progresso tecnológico e industrial. Tanto assim que coloca como princípio ético e inquestionável que tudo o que pode ser mecanizável deverá sê-lo.4

Assim, em outra perspectiva, o trabalho e o progresso tecnológico, como forma de expressão do valor útil, encontram uma fundamentação filosófica como criadores de mecanismos que liberam o homem para as tarefas específicas do espírito, como a filosofia, a arte, a religião, isto é, em ações produtoras da cultura.4

Dessa maneira, as vantagens e benefícios da civilização tecnológica dependem apenas da sua correta orientação e compreensão, à medida que a transformação, o domínio e o controle da natureza externa forem colocados a serviço da vida interior do espírito, e não apenas dos interesses da organização psicofísica do homem.4 Logo, é correto afirmar que a saúde é útil, porque facilita a obtenção do valor espiritual.

Outro aspecto importante na axiologia scheleriana e, portanto, inovador, é a aparição do valor útil na práxis humana com sentido ecológico. Seu pensamento parte do princípio de que é necessário expurgar da pessoa humana a ideia segundo a qual a atitude do homem em relação à natureza deveria ter por único móbil o desejo de dominá-la, controlá-la e guiá-la. Essa a ideia, de origem judaica, apesar de todos os movimentos de reação e de infenso representados pelo cristianismo primitivo, fazendo com que se erigisse no mundo ocidental do mecanicismo da natureza como verdade absoluta. Assim, Scheler defende a tese de que a formação do homem e da sua vida afetiva deve preceder qualquer atitude especializada em relação à natureza, favorecendo com que esta não seja vista como um adversário a ser dominado.6

Ademais, afirma o autor que se deve aplicar, em primeiro lugar, do ponto de vista pedagógico, o estímulo, para que seja novamente o desenvolvida a fusão cosmovital, despertando do estado de letargia em que se encontra o homem ocidental. Penetrado pelo espírito capitalista, este só aceita como única concepção possível do mundo aquela segundo a qual a natureza representaria apenas um conjunto de qualidades susceptíveis de serem colocadas em movimento.6

 

METODOLOGIA

Esta pesquisa é de natureza qualitativa, com enfoque fenomenológico.7 Os cenários foram três instituições de ensino superior de enfermagem localizadas na cidade do Rio de Janeiro. Participaram do estudo sete enfermeiros docentes. A seleção dos sujeitos obedeceu ao critério aleatório. O coordenador de curso/direção, no dia em que comparecíamos à instituição, apresentava-nos aos docentes ali presentes. Após esse primeiro contato e certificados de que estavam atuando em disciplinas na graduação, agendávamos a entrevista. Os enfermeiros docentes foram identificados no texto pela letra E, acrescida de números arábicos dispostos de 1 a 7. Possuíam idade média de 42 anos; seis eram do sexo feminino e um do sexo masculino. O tempo médio de atividade docente foi de sessenta meses. O estudo foi realizado no período de agosto de 2007 a junho de 2008.

A técnica empregada foi a entrevista fenomenológica que possui peculiaridades que precisaram ser consideradas, a fim de que houvesse o rigor necessário para sua utilização.8,9 Assim, exigiu-se do pesquisador a percepção no sentido de: ver e observar, desprovido dos preconceitos, mantendo-se em uma relação empática, caracterizada por um estado de aproximação, valorizando e respeitando cada um; interpretar compreensivamente a linguagem do entrevistado e sua significação, apoiando-se em uma escuta ativa, mantendo-se receptivo; evitar julgamentos que pudessem interferir na narrativa dos entrevistados. A questão norteadora elaborada foi: "Como você realiza o ato de educar diante do acadêmico de enfermagem?"As entrevistas foram gravadas em fitas magnéticas.

Os dados sofreram a análise compreensiva e, para tanto, inicialmente, realizamos a transcrição integral das entrevistas gravadas, a fim de construir o texto. Esta leitura foi repetida inúmeras vezes, até que fossem identificadas as unidades de significação, revelando o caráter definitivo das falas dos entrevistados.8,9 As entrevistas apresentaram quatro unidades de significação. Neste artigo, destacou-se a unidade de significação "o valor útil". A discussão seguiu-se por meio dos pressupostos da Teoria de Valor, segundo Max Scheler.4

O estudo foi submetido ao Comitê de Ética e Pesquisa da Escola de Enfermagem Anna Nery/UFRJ, registrado com o nº 026/07, sendo aprovado em 24 de julho de 2007. Os depoimentos foram obtidos e utilizados com o consentimento dos envolvidos, em observância ao disposto na Resolução nº 196/96, do Conselho Nacional de Saúde (CNS).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Para a pragmática da enfermagem, o valor útil reveste-se de importância, tendo em vista as variáveis que advêm de sua base, a saber: a técnica, a organização, a liderança, a racionalização do tempo ou de material, que trazem sobre o trabalho realizado com o cliente e a comunidade fortes implicações.

O enfermeiro docente capta o valor útil manifestado na prática social no ente que o encarna e o apresenta ao educando. Entretanto, o valor não se torna propriedade do ente. Sua aparição vincula-se diretamente à percepção pelo sujeito que o conhece, obtendo, com base em sua apreensão, o seu sentido e significado.4

Iniciamos a discussão da unidade de significação, o valor útil, reportando-nos ao recorte da fala do depoente ao dizer:

É importante o estimulo para que o educando adquira a habilidade do fazer [...], pois o enfermeiro necessita ter a competência técnica. (E1)

Para ele, esse valor é manifestado na pragmática da enfermagem. Quando no exercício de suas ações assistenciais, o profissional vale-se do domínio da técnica, expresso na execução manual dos procedimentos como forma de prover o cuidado de enfermagem.

Esta assertiva é compartilhada pelos depoentes ao dizerem:

Ainda hoje, muitos docentes veem como o mais importante o estímulo para que o educando adquira a habilidade do fazer. (E2).

O enfermeiro necessita ter a competência técnica. (E3)

Assim, a competência pela habilidade manual emerge como uma necessidade fundamental para o desenvolvimento do exercício profissional e passa a exigir do docente que promova o encaminhamento do educando ao campo do domínio das técnicas da enfermagem. Reforça essa assertiva o discurso do depoente ao dizer:

Eu quero ser cuidado por um enfermeiro. Quero que ele faça o meu medicamento. Que faça o meu curativo. Que cuide de mim. Por força de questões numéricas no passado foram criadas as outras categorias. (E4)

Para o depoente, o enfermeiro necessita desenvolver as competências técnicas para o exercício profissional, a fim de que possa prover o cuidado de enfermagem com qualidade. Dizemos qualidade, haja vista a colocação de beneficiário da ação em que o próprio depoente se coloca, tornando-se impensável que este desejasse receber uma ação que não fosse a que lhe proporcionasse resolutividade, segurança, conforto e bem-estar.

Assim, o docente revela o compromisso no ato de educar, pois, ao colocar-se como beneficiário da ação, passa a exigir de si o empenho para que o educando venha manifestar no agir profissional a competência requerida.

Seguindo na análise, o reconhecimento do valor útil como instituinte da enfermagem faz com que o depoente projete o pensamento para o futuro, permitindo-lhe contemplar as situações de ruptura de sua saúde. Neste momento, o docente procede a uma reflexão com o objetivo de reconhecer a característica valorativa presente no Ser-enfermeiro e expressa o desejo de receber o cuidado daquele a quem atribui a maior competência para a prestação do cuidado de enfermagem - o enfermeiro.

Assim, o docente move-se, por meio do ato de educar, no sentido encaminhar o educando para o crescimento e desenvolvimento no valor útil, permitindo-lhe aperfeiçoar-se como Ser-enfermeiro. Leva-o a proceder a uma reierarquização em sua escala valorativa, ratificando o pressuposto scheleriano, pois o confronto entre as escalas valorativas é fruto da comparação de nossos valores próprios em geral, ou qualquer uma de nossas características, com os valores que aos outros pertencem.4

Prosseguindo, trazemos o recorte do depoente para apresentarmos outra forma de aparição do valor útil na enfermagem, a saber:

Quando eu trabalhei em uma instituição em Santa Cruz, eles desenvolveram várias ações junto à clientela - censo, curativos, controle de materiais, medicamentos e confecção de escalas. (E5)

Podemos constatar que o valor útil é percebido pelo enfermeiro docente por meio do uso do conhecimento, advindo da administração para a gerência de enfermagem, exemplificado na pragmática assistencial com base na organização setorial, na elaboração de escala de serviço e no controle de artigos e medicamentos. O enfermeiro, ao instaurar o valor útil, com base na atividade gerencial, ratifica-o como instituinte para a pragmática da enfermagem e aspira vê-lo refletido no agir do educando.

Nesse sentido, o docente tem como fulcro, no ato de educar, diante do discente, levá-lo a desenvolver as diversas competências profissionais que emanam do valor útil para a pragmática da enfermagem.

Do posto até aqui, podemos constatar a importância do valor útil na enfermagem, tanto no que se refere à habilidade requerida para o "fazer", a competência técnica, quanto à ação gerencial. É inequívoca sua importância. Mas desejamos, a partir deste momento, alargar a compreensão desse valor para a enfermagem, valendo-nos do pressuposto scheleriano que diz que a vida esconde em si os valores próprios, que nunca se deixa reduzir aos valores de uso, quiçá aos valores técnicos. Assim, a vida mais forte não será aquela que se coloca em atividade com a máxima adequação, pois a vida mais forte é aquela que, com um mínimo de mecanismo, cresce e progride.4

Quanto ao significado atribuído à vida humana, o crescimento e o desenvolvimento axiológico não se restringem à provisão do valor útil centrado sob o prisma da ação técnica. Posto isso, afirmamos que o valor não se restringe ao atendimento de uma faceta que o compõe. É no valor da utilidade que as dimensões do ser-aí-nomundo apresentam significados para o ser humano.4

Dessa forma, ouvir, tocar, falar, estar-ao-lado e as expressões corporais, são formas de aparição do valor útil. É por meio desse valor que a linha de cuidado em enfermagem favorece a integralidade do cuidado humano. Assim, o enfermeiro docente, no ato de educar o institui, correlacionando o biológico, o social, o espiritual como processo do cuidado.

Assim, trazemos o recorte do discurso do depoente para ilustrarmos essa afirmativa e fundar a discussão que se segue:

É o contato de um indivíduo com o outro que está ali: um precisando de cuidado, e outro que se dispõe a fornecer o cuidado. Seja este cuidado qualquer coisa: uma palavra, uma presença. (E6)

O depoente, por meio do discurso, remete-nos à pragmática assistencial como se esta fosse oriunda de um encontro relacional. De um lado tem-se o profissional enfermeiro, do outro, o cliente. Seres dotados de sentimento, possuidores de valores que trazem, para aquele momento, suas respectivas escalas valorativas. Seres que aspiram por valer mais. Seres dotados de carências axiológicas. Seres que desejam ser reconhecidos como pessoa.4 Para esses seres, cada ação que seja capaz de suprir a carência axiológica, no campo da prática assistencial, é expressão do valor útil, pois o valor de utilidade é o que favorece a vida humana em sua dimensão biopsicossocial.10

Assim, a atitude do enfermeiro docente diante do cliente que coopera para o favorecimento da vida - entendida não apenas sob o prisma do biológico - reveste-se do valor de utilidade.

Esse é o entendimento manifestado pelo depoente, ao significar, como importante no campo assistencial, a atitude do enfermeiro de posicionar-se para"ouvi-lo", de ofertar-lhe uma"palavra", capaz de promover o conforto emocional. Também é significativo o simples ato de "estar-ao-lado", adquirindo uma atitude acolhedora, mormente possibilitando ao cliente vivenciar as fases da vida, quer sejam de alegria, quer sejam de tristeza, junto a alguém.

Assim, essa atitude perpassa pelo desenvolvimento do enfermeiro docente em ofertar o cuidado de enfermagem que se paute pela compreensão do cliente como pessoa, agindo com sensibilidade para prover a ação profissional, revelando ao discente a amplitude do valor.

Logo, o valor útil, para o ato de enfermagem, reveste-se de maior significação, pois não se prende exclusivamente à habilidade manual ou gerencial.11

Dessa maneira, o valor é útil à vida quando o enfermeiro ouve atentivamente o que o cliente tem a dizer; dedicando tempo àquele que deseja não apenas receber o medicamento ou precisa sofrer qualquer procedimento no corpo, mas que deseja ser reconhecido comoo pessoa. Esse é o entendimento do depoente ao dizer:

A mulher, quando esta neste período de maternidade, necessita muito de falar, de ser ouvida, e às vezes, dentro da enfermagem hospitalar que está fundada sobre o modelo tecnocrático e biomédico, isto não é valorizado. (E7)

Nesse sentido, o enfermeiro docente demonstra ao discente que a habilidade é exigida, mas o cuidado nela não se encerra, pois pôr-se para ouvir e manter-se em uma atitude de estar-ao-lado do cliente é expressão de cuidar.12

Assim, o docente apresenta ao educando outra forma de aparição do valor útil na pragmática assistencial da enfermagem, possibilitando-lhe construir um caminho alternativo à frieza e ao distanciamento do agir tecnocrático diante do cuidar, pautando-se pela atitude profissional no reconhecimento do cliente como pessoa,4 retificando o agir, se assim o desejar. Nesse sentido, o ato de educar exige que o docente assuma um papel ativo para a apresentação do valor ao educando.

Essa ação, desenvolvida pelo enfermeiro docente, assume um caráter de imperativo categórico.13 Logo, o docente não pode se omitir, pois, se assim o fizer, incorrerá na possibilidade de privar do educando o crescimento e o desenvolvimento axiológico, mantendo-o em estado de falta no campo dos valores que fundam a profissão, influenciando de forma negativa a construção profissional.14 Assim, o papel do docente é fundamental na gênese desse encaminhamento.

 

CONCLUSÃO

Ao término destas considerações, podemos afirmar que o enfermeiro docente, em sua prática pedagógico assistencial, apresentou, por meio de seu discurso, o valor útil ao educando. Para o docente, o valor útil não estava restrito à questão técnica ou gerencial, mas foi mais amplo, pois foi considerada útil qualquer ação de enfermagem que buscasse dar ao cliente condições que viabilizassem a promoção, a prevenção e a restauração da saúde. Notadamente, aspectos relativos a "ouvir", "estar-ao-lado" do cliente foram considerados por ele como útil.

Ao mesmo tempo, pode-se constatar que a relação pedagógica estabelecida entre o docente e o discente fundou-se no diálogo permanente, que possibilitou a reflexão sobre o cotidiano assistencial, movendo-os ao campo axiológico da profissão.

 

REFERÊNCIAS

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10. Scheler M. Da reviravolta dos valores. Petrópolis: Vozes; 1994.

11. Santos MDL, Galdeano LE. Traço e estado de ansiedade de estudantes de enfermagem na realização de uma prova prática. REME - Rev Min Enferm. 2009; jan/mar;13(1):76-83.

12. Miranda AM, Cunha DIB, Gomes SMF. A influência da tecnologia na sobrevivência do recém-nascido prematuro extremo de muito baixo peso: revisão integrativa. REME - Rev Min Enferm. 2010; jul/set; 14(3):435-22.

13. Aranha MLA. Filosofando: introdução à filosofia. 3ª ed. São Paulo: Moderna; 2003.

14. Mata LRF, Madeira ANF. Análise da produção científica sobre educação profissionalizante da enfermagem brasileira: uma revisão integrativa. REME - Rev Min Enferm. 2010; jul/set; 14(3):424-33.

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