REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 16.3

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Pesquisa

Pai-acompanhante e sua compreensão sobre o processo de nascimento do filho

Fathers attending labour and their understanding of the birth process

Danúbia Mariane Barbosa JardimI; Cláudia Maria de Mattos PennaII

IEnfermeira obstetra. Mestre em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (EE/UFMG). Enfermeira obstetra no Hospital Sofia Feldman e no Centro de Parto Normal Doutor David Capistrano da Costa Filho. Professora do Centro Universitário UNA
IIEnfermeira, Pós-Doutorado pela Université Rene Descartes-Sorbone. Doutorado em Enfermagem pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professora associada da UFMG

Endereço para correspondência

Rua Domingos Moutinho Teixeira, n. 98, apto. 303, Palmares
Belo Horizonte-MG. CEP: 31155-660
E-mail: danubiamariane@yahoo.com.br

Av. Alfredo Balena, n 190, 4º andar, sala 404, Santa Efigênia
Belo Horizonte-MG
E-mail: cmpenna@enf.ufmg.br

Data de submissão: 9/8/2011
Data de aprovação: 15/3/2012

Resumo

Trata-se de um estudo de caso de natureza qualitativa, fundamentado nos pressupostos da Sociologia Compreensiva, com o objetivo de compreender a vivência paterna do momento do parto e do nascimento. O cenário da pesquisa foi o Centro de Parto Normal Dr. David Capistrano (CPN), Unidade intra-hospitalar do Hospital Sofia Feldman (HSF). Os sujeitos da pesquisa constituíram-se de 14 pais, que acompanharam o trabalho de parto e o parto de suas mulheres, sendo o primeiro filho do casal e ambos sem filhos de relacionamentos anteriores. A coleta de dados foi realizada por meio de uma entrevista com roteiro semiestruturado. Para o tratamento dos dados, foi utilizada a técnica de análise de conteúdo. Neste artigo, foram apresentados os dados contemplados na primeira categoria: "Nasce um filho, nasce um pai", que trata de dois aspectos vividos pelo pai durante o trabalho de parto: o primeiro é sua percepção do processo da dor com significados como o sofrimento, enquanto algo necessário para o nascimento, valorizando-a em sua capacidade de superação; o segundo marca os sentimentos contraditórios vivenciados pelo pai diante do medo do desconhecido, do inesperado, das responsabilidades inerentes ao seu novo papel e as emoções que esse momento desencadeia. O estudo permitiu conhecer a compreensão do homem sobre o momento do parto, apontando novas discussões sobre o fenômeno no contexto atual e sobre a importância do acompanhante no momento do parto, no instante eterno do nascimento.

Palavras-chave: Paternidade; Parto Humanizado; Relações Pai-Filho

 

INTRODUÇÃO

A gravidez e o nascimento são eventos marcantes na vida de um casal, cercados de diferentes significados, de expectativas e sentimentos, como ansiedade, medo, angústia e alegria. Tornam-se um acontecimento único e marcante na vida, expressando um rito de passagem para uma condição adulta, repletos de significados emocionais e psíquicos, e, por isso mesmo, não se configurando como um evento biológico apenas.1

Historicamente, a assistência ao nascimento era de responsabilidade das parteiras tradicionais, conhecidas na sociedade por suas experiências, embora não dominassem o conhecimento científico.2 O nascimento acontecia num ambiente familiar, no conforto da casa. Os rituais de família e as tradições transmitiam à mulher confiança em sua capacidade de parir e o conforto necessário para superar esse momento. Quanto ao homem, apesar de não assistirem diretamente o nascimento, sempre estavam próximos, em contato com a mulher e o filho logo após o parto.3,4

A partir do século XX e especialmente na década de 1940, em nome da redução das elevadas taxas de mortalidade materna e infantil, ocorreu o fenômeno da institucionalização do parto e da consequente medicalização do corpo feminino.4-6 Assim, o nascer, que era um processo fisiológico, familiar e domiciliar, tornouse medicalizado e hospitalar, artificial e complexo, ao obedecer às normas e rotinas preestabelecidas, com intervenções diversas. O corpo feminino sofreu uma despersonalização, passando a ser cenário de atuação médica.7,8

Pais e mães passaram a se sentir cada vez mais incompetentes e despreparados para viver a experiência do parto, atribuindo essa tarefa totalmente aos médicos.6,9 A institucionalização do nascimento e suas evidentes consequências positivas sobre a melhoria da morbidade e mortalidade, tanto materna quanto perinatal, proporcionaram uma tendência negativa ao aumento exagerado da utilização de alguns procedimentos, como o parto por cesárea, o uso rotineiro da episiotomia, a monitorização fetal eletrônica e o uso de ocitocina, ausência de apoio emocional à parturiente, afastamento da família no momento do nascimento desfavorecendo a formação do vínculo precoce.6-8 Na contramão do movimento de institucionalização do parto e tendo em vista o resgate das práticas naturais de assistência ao nascimento, surgiu, no Brasil, na década de 1970, o movimento de Humanização da Assistência ao Parto e Nascimento. Entende-se por humanização da assistência ao parto o conjunto de conhecimentos, práticas e atitudes que visam à promoção do parto e do nascimento saudáveis, bem como a prevenção da morbimortalidade materna e perinatal.9

Entre as práticas recomendadas pelo movimento estão: o uso de técnicas não farmacológicas para o alívio da dor, tais como massagem e relaxamento, posturas variadas, música, métodos de respiração, que, juntas, favoreçam o bom desenvolvimento do trabalho de parto, proporcionando conforto e segurança à mulher e ao seu bebê.2,9

A reinserção do acompanhante no momento do nascimento ganha destaque entre as práticas humanizadas, bem como o encorajamento da participação do pai e o respeito à escolha da mulher com relação aos acompanhantes durante o parto e o nascimento.10 O conceito de acompanhante é utilizado para definir a pessoa que está ao lado da paciente oferecendo suporte físico e emocional; pode ser seu companheiro, um familiar, uma amiga ou pessoa querida escolhida pela parturiente.11 O momento crucial para a regulamentação do direito à presença do acompanhante é marcado pela criação da Lei nº 11.108, de 7 de abril de 2005,12 que obriga os serviços públicos ou conveniados permitir à mulher ter ao seu lado, durante o trabalho de parto, parto e puerpério, um acompanhante de sua escolha.

O apoio emocional oferecido pelo acompanhante ajuda a mulher a suportar melhor a dor e a tensão do trabalho de parto. Os estudos revelaram que a presença do acompanhante traz benefícios, tais como: trabalho de parto mais curto, menor número de analgesias e de medicações como a ocitocina, aumento dos índices de apgar no primeiro minuto, diminuição do número de partos com fórceps, redução da sensação dolorosa, bem como da ansiedade da mulher, maior satisfação da mulher com a experiência do nascimento, redução do número de partos cesáreos e do tempo de hospitalização dos recém-nascidos.2-5,13,14

Ao assistir as mulheres durante o parto, as escolhas são as mais variadas e incluem a mãe, a irmã, uma amiga e o companheiro. A participação do pai no momento do parto alia-se à percepção da nova paternidade, do novo pai. A mudança ocorrida nos papeis preconcebidos de pai e mãe atualmente exigem do homem uma postura mais ativa e afetiva nos cuidados com os filhos e com a família, bem como a divisão das tarefas do cotidiano com sua companheira, como o cuidado com filhos e as tarefas domésticas.6,15 Atualmente, o homem se envolve nas questões simples do cotidiano dos filhos, nos cuidados básicos que outrora eram atribuídos apenas à mulher. Ele deixou de ser apenas o provedor, macho inseminador, dominador, para se envolver afetivamente, revelando sentimentos como carinho, amor, apego e responsabilidade para com a prole, bem como compartilhar com sua mulher as preocupações do dia a dia.16-18

Dessa forma, a inserção do homem nos cuidados com a gestação, o parto e o puerpério é incentivada pelas políticas públicas de saúde em nosso país. O homem é convidado a participar das consultas de pré-natal, de cursos preparatórios para a gravidez e o nascimento, das visitas às maternidades e orientado quanto a seus direitos como homem, pai em formação.19 A presença do companheiro no cenário do parto marca o início de transformações na construção das relações de gênero, sendo um momento importante para a reflexão do papel do homem.15,18

Respaldados nessas concepções, os estudiosos defendem que o contato precoce entre pais e filhos favorece o estabelecimento de laços afetivos e efetivos entre eles, e para o homem é um momento importante de transição para a paternidade sempre cercada de medos e receios diante das novas responsabilidades.6,17,20 E também ajuda a preencher a lacuna existente no cuidado, pois a mulher, no trabalho de parto, requer apoio psicológico e afetivo, e essa demanda, muitas vezes, não é suprida pelos profissionais que lhe prestam assistência.7 O pai acompanhante pode assumir uma postura ativa no cuidado da parceira durante o trabalho de parto e nascimento, fortalecendo laços e participando de todo o processo pelo qual passa o corpo feminino.

Na prática da obstetrícia, é importante destacar que o homem é visto como um sujeito atípico no processo, com certo preconceito por parte dos profissionais que temem sua entrada na sala de parto. Essa postura revela uma compreensão preconceituosa sobre os homens como incapazes de ter sensibilidade profunda para acompanhar as mulheres no parto e, também, a falta de atenção a que os pais estão expostos ao longo desse processo.21 Além do aspecto exposto nas afirmativas anteriores, pontua-se que existem aspectos institucionais que também prejudicam a participação do homem no nascimento do filho como a estrutura física inadequada para sua acomodação.16

A presença do pai como acompanhante do parto é objeto de vários estudos que revelam sua importância, seu papel no momento do nascimento, diversas vantagens e benefícios, fatores positivos e negativos para a parturiente, para o recém-nascido e para sua família. No entanto, os estudos não revelam o que o pai pensa ao presenciar o processo de nascimento de um filho, seus sentimentos sobre o nascimento, tampouco enfocam como é para ele estar nesse momento como acompanhante. Diante disso, questionamos: Como os companheiros - acompanhantes - vivenciam o momento do parto e do nascimento de seus filhos?

O conhecimento da compreensão paterna sobre o parto pode servir de base para a estruturação de atividades assistenciais voltadas para as necessidades do homem como acompanhante, atividades que o ajudarão a ser um sujeito efetivo, ativo e participante, que apoie, acolha e ajude sua mulher durante o nascimento. A produção de conhecimentos sobre a compreensão paterna sobre o parto torna-se fundamental para a consolidação do modelo assistencial humanizado e para a reorganização dos serviços de saúde públicos e privados de assistência à saúde da mulher. Essa reorganização deve garantir a acolhida desse acompanhante e possibilitar uma atenção voltada para o ser pai. Pressupõe a conscientização dos profissionais de saúde quanto à importância dessa vivência para o casal e a busca de estratégias facilitadoras desse novo papel.

O objetivo com este artigo foi compreender a vivência paterna sobre o momento do parto e do nascimento.

 

PROCEDIMENTO METODOLÓGICO

Trata-se de um recorte da dissertação de mestrado intitulada "Pai acompanhante e a sua compreensão sobre o processo de nascimento do filho", apresentada à Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (EE/UFMG) em 2009. A opção metodológica utilizada foi o estudo de caso único de natureza qualitativa e fundamentado nos pressupostos da Sociologia Compreensiva, que visa "descrever o vivido naquilo que é/está, contentando-se, assim, em discernir visadas de distintos atores envolvidos".22:30 Trata-se de uma sociologia do lado de dentro que trabalha com as questões do cotidiano e busca compreendê-lo por meio dos sujeitos envolvidos, que são os atores responsáveis pelas ideias, representações, valorizações de determinados fatos sociais. Assim, ao se estudar os fenômenos sociais, devem ser valorizados o vivido, os sujeitos envolvidos e suas particularidades, bem como os elementos heterogêneos que coexistem num período de tempo e espaço. As afirmações do cotidiano estão pautadas pelo princípio de que não há uma verdade absoluta que consiga resistir à usura do tempo. A vida diária é significativa, tudo tem seu reconhecimento e sua importância;"esses 'pequenos nadas'que materializam a existência e que a inscrevem num lugar são, na verdade, fatores de socialidade, podendo-se mesmo dizer que, através de seu anódino, produzem sua intensidade".23

O cenário escolhido para a realização do estudo foi o Centro de Parto Normal Doutor David Capistrano da Costa Filho (CPN), unidade intra-hospitalar do Hospital Sofia Feldman (HSF), pertencente à Fundação de Assistencial Integral à Saúde/Hospital Sofia Feldman (FAIS/HSF), uma instituição não governamental, filantrópica voltada para a saúde da mulher e do recémnascido, cujo pilar de atendimento é a assistência humana e individualizada.

O CPN foi inaugurado em setembro de 2001, buscando uma proposta de mudança no modelo assistencial obstétrico do país. A população atendida é usuária do Sistema Único de Saúde (SUS) e, em sua maioria, de baixo poder aquisitivo. A equipe assistencial é composta de enfermeiros obstetras no atendimento ao parto normal, além de um técnico em enfermagem e um auxiliar administrativo. A instituição conta, também, com uma equipe de apoio composta por médicos obstetras, pediatras, psicólogos, assistentes sociais e nutricionistas. No primeiro semestre de 2009, foram realizados 523 partos normais, sendo 39,6% de mães primigestas, 20,7% de mães adolescentes e 8,8% do total foi realizado na água. A presença do acompanhante ocorreu em 88,9% dos casos. A taxa de transferência materna foi de 11,5%, sendo seus principais motivos o desejo de se beneficiar de analgesia, a presença de líquido meconial e o estado fetal não tranquilizador. A taxa de transferência neonatal foi de 2,1%, sendo seus principais motivos a taquipneia transitória do recém-nascido, a infecção e a icterícia.24

Participaram da pesquisa 14 homens, que acompanharam suas mulheres durante todo o trabalho de parto, sendo o primeiro filho do casal. Nenhum deles tinha filhos de relacionamentos anteriores. Destaque-se que a interrupção das entrevistas realizadas deu-se com o critério de saturação dos dados. A faixa etária fixou-se entre 20 e 40 anos. A gestação de suas companheiras não teve intercorrências clínicas diagnosticadas e evoluiu para um parto normal natural, sem distócia e sem analgesia peridural.

Foram respeitados todos os preceitos éticos e legais expostos na Resolução nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) foi assinado pelos participantes, sendo observados os aspectos de zelo éticoao manter sigilo das informações e anonimato dos informantes. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética da UFMG, sob o Parecer ETIC nº 609/08, em 3 de dezembro de 2008, e pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Sofia Feldman (CEP/HSF), Parecer nº 17, em 23 de janeiro de 2009.

A técnica utilizada para a coleta de dados foi a entrevista com roteiro semiestruturado constando das seguintes perguntas: Relate sobre sua experiência ao presenciar o nascimento de seu filho. O que você sentiu durante o trabalho de parto de sua mulher e no momento em que seu filho nasceu?

Para o tratamento dos dados, utilizou-se a técnica de Análise de Conteúdo Temática,25 que apresenta três fases distintas: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados. Na pré-análise, os dados foram ordenados mediante a transcrição das entrevistas de forma integral e a realização de leitura flutuante e exaustiva do material. Na fase de exploração do material, as entrevistas foram selecionadas e agrupadas, em um primeiro momento, de forma linear para que se alcançassem núcleos de compreensão do texto. Esses núcleos foram agrupados pelas semelhanças dos discursos, constituindo-se as categorias empíricas. Por fim, na última fase, os dados foram interpretados e discutidos à luz da literatura acessada. Neste artigo, os dados apresentados foram organizados na categoria "Nasce um filho, nasce um pai", tendo como subcategorias de análise: "Dor e superação: uma metamorfose", "Sentimentos paternos acerca do nascimento".

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados presentes na categoria intitulada "Nasce um filho, nasce um pai"revelam os sentimentos advindos da experiência de presenciar o nascimento do filho, pois é nesse momento que os sujeitos se descobrem pais, transformando-se com o nascimento. Em um primeiro momento, trabalhamos a vivência da dor na subcategoria "Dor e superação; uma metamorfose", revelando os diferentes significados atribuídos a ela sentida pela mulher e presenciada pelo companheiro, dor que revela tanto o sofrimento como sua superação, dor que pode ser instrumento de uma metamorfose tanto para a mulher que a vivencia quanto para o companheiro que experimenta e compreende a sensação da mulher.

Foram abordadas, também, em uma segunda subcategoria, intitulada "Sentimentos paternos acerca do nascimento", as emoções contraditórias desencadeadas pelo parto, como medo do desconhecido e do inesperado, a angústia e a aflição do incontrolável, a superação com o nascimento. Revelou-se a emoção do instante eterno, único, marcado por momentos inesquecíveis como a saída do bebê do corpo da mãe, o corte do cordão feito pelo pai. Por fim, foram pontuadas as responsabilidades impostas pela nova vida, pela nova família e as repercussões sobre a vida do homem, o novo pai, o que constitui a compreensão de que o homem nasce verdadeiramente como pai no mesmo instante em que presencia o nascer do filho.

Dor e superação: uma metamorfose

Viver o processo do trabalho de parto de seu filho expõe o homem à dor e a todas as faces dessa experiência. A dor do parto, apesar de ser um sinal no corpo físico da mulher, representa um momento de reflexão para o homem, que, ao presenciar a dor de sua companheira, consegue processar esse momento atribuindo-lhe diferentes significados. O primeiro significado atribuído remete à dor com um processo de intenso sofrimento. Inicialmente, nas falas analisadas, a dor parece algo simples, a mulher ia apenas sentir uma dorzinha, colocar pra fora e acabou, porém ao presenciar a dor, a primeira impressão adquiriu outro significado e as manifestações no corpo como o suor e o choro confirmam e reforçam o sofrimento.

Porque assim eu pensava, eu falava: 'Nada, a mulher deve chegar lá sentir uma dorzinha e colocar pra fora e acabou', depois do que eu vi o que ela passou [...] Suou, chorou, mordeu a camisa mesmo. Falei: 'Nossa a mulher sofre, tadinha!1 (E12)

Esse significado atribuído à dor é o responsável pela origem de medos, receios e angústias sobre o nascimento e se reflete negativamente na vivência do parto, tanto para a mulher quanto para o homem acompanhante. A vivência negativa da dor desperta sentimentos como ansiedade, angústia e impotência, sendo este último um dos mais difíceis para o homem acompanhante.9,26 Estar com a mulher num momento visto como exclusivamente do universo feminino permite o compartilhamento da dor, passando a ser algo real, próximo, possível, sentido, doloroso.

O outro significado externado para a dor contrapõe-se ao anterior e considera a dor como algo suportável, um meio necessário para que a mulher alcance a vitória do nascimento. É uma dor física fundamental para que o nascimento ocorra e, por isso, no discurso dos entrevistados é suportável, superável e saudável:

Trabalho de parto é um, é o que eu posso falar é uma dor com amor, sabe? É uma dor mais em compensação, é um amor tão grande assim um carinho uma coisa inexplicável; ou seja. é um sofrimento pra ter uma premiação, [...] Eu tô, trabalhando aqui, ou seja, eu tô sofrendo, mas em compensação, no final, tem aquela premiação, que vai vir agora mesmo pôr meus braços [...]. Até a dor do parto, pra mim, foi uma dor superável.

Se a minha mulher vê eu falando isso ela me mata (risos), mais é uma dor superável, desde que tenha um apoio. (E5)

Essa visão significa a dor de forma mais sutil e amena, pois é temporária, compensada pelo apoio e pela certeza de um prêmio, palpável, diferente de um sofrimento interminável, culturalmente temido. É até mesmo um "delírio", uma "viagem", um momento de perda da consciência do que é racional e de transcendência para um estágio que vai além da dor física, sendo comparado a um estado de êxtase, plenitude e orgasmo que somente a mulher tem o privilégio de vivenciar, sacrificar e entregar-se.27,28

Para Storti,9 mesmo ao fazer alusão à dor do parto como parte integrante e necessária para a evolução do processo, os homens não expressaram sentimentos positivos e associaram a dor apenas ao sofrimento de suas companheiras. Já Nakano27 e colaboradores reforçam essa ideia quando retratam que a dor é valorizada pelos acompanhantes como algo que possui uma recompensa, conceito construído com base nas concepções sociais e culturais de maternidade como um momento de abnegação, sacrifício e entrega.

O instante da dor de suas companheiras é um momento marcado pela solidariedade com elas:

Eu acho que doeu muito, porque ela apertou os meus dedos e faltou quebrar! (risos) (E8)

As contrações dela às vezes vinham em mim, o aperto de mão que ela me dava passava um pouco, a dor que ela gritava passava pra mim também, eu sentia parecia que era comigo também. (E9)

Vivenciar intensamente a dor de suas companheiras está intimamente associado ao instante em que sentiram um forte aperto de mão que faltou quebrar os dedos ou abraços apertados ou quando ouviram os gritos, gemidos e pedidos de ajuda. Nesse momento, o homem suporta a dor das suas companheiras como uma forma de apoiá-las, já que se sentem impotentes diante de um sentimento que é impossível de ser transferido plenamente. Assim, no dia a dia, os acompanhantes se esforçam ao máximo para conseguir minimizar a dor, transmitindo às parturientes palavras de apoio e força, gestos de carinho, como um afago, uma massagem, um toque, que se tornam necessários para que elas consigam superar esse momento.9

A impotência gerada pela dor provoca algumas reações que variam desde a passividade diante do que não pode mudar à postura ativa do acompanhante, que tenta, a qualquer custo, ajudar, confortar e amparar a mulher. Revela, também, as questões de gênero produzidas por um imaginário social no qual o homem, fonte de força e poder, sempre consegue superar a mulher, sexo frágil e desprotegido. Agora, no momento do parto, esses valores são desconstruídos diante da grandiosidade da dor, evento exclusivo do corpo feminino e da capacidade de superação que tem a mulher, guerreira e forte.6,17,26

Então, esse momento proporciona ao homem uma oportunidade para a mudança de condutas, conceitos e preconceitos sobre a vida e a relação com sua companheira. Ambos amadurecem:

Minha mulher tem... tinha um problema de persistência. O fato de ela ter conseguido chegar no final feliz desse parto eu acho que melhorou inclusive isso! Porque ela é uma pessoa diferente hoje; em função dela ter sido persistente, ela precisava disso! E a transformação foi de nos dois, acho que mais dela do que eu; a segurança mudou, eu acho que quando uma pessoa consegue atingir aquilo que ela quis durante nove meses eu acho que muda alguma coisa assim. (E13)

A mudança percebida no olhar do homem para a mulher após vivenciar o parto marca o momento de superação após o medo, a dor e o sofrimento e o reconhecimento da vitória feminina. A experiência relativiza os conceitos e preconceitos sobre a mulher, fazendo com que os homens se sintam surpreendidos diante da capacidade de suas companheiras em vencer o processo doloroso do nascimento, atribuindo-lhes qualidades como persistência, força, perseverança e exaltação da figura feminina. A valorização transforma a relação do casal, promove união e aproximação afetiva com o novo membro da família.9

A renovação, a transformação e a superação podem ser comparadas a uma metamorfose de sentimentos, pensamentos e reações, como relatado a seguir:

Uma amiga minha contou uma história que marcou, assim foi lembrada até no momento do nascimento. Eu acho que é o que deu força tanto pra mim quanto para ela era a história de um observador de borboletas que ele observava as borboletas o esforço que elas faziam pra sair do casulo. Ele observou três, quatro borboletas saindo do casulo naquele esforço e ele resolveu dar uma forcinha a ela, e aí com um estiletezinho no momento que ela ia sair ele fazia um corte no casulo, ela saia e caía, não conseguia bater as asas e voar. Ele fez isso umas três, quatro vezes e depois ele observou que a força que a borboleta fazia pra sair do casulo, pra quebrar o casulo, era o que irrigava as asas e o que dava a força pra ela voar. E então, se a mulher não se propor a ter um parto desse eu acho que alguma coisa tá perdendo. (E13)

Analogicamente, o esforço da mulher durante o parto é o mesmo desafio que enfrenta uma borboleta para vencer as dificuldades de sua saída do casulo e conseguir voar. A metamorfose, em seu conceito biológico, é um momento de transformação, de passagem do estado juvenil para o adulto, necessário para que a borboleta consiga sobreviver plenamente. É um momento único pelo qual é necessário ela passar para que consiga vencer. Quando tentamos ajudar a borboleta facilitando esse processo, ela sai do casulo imatura, incapaz de alçar voos.

O parto revela-se como uma intensa metamorfose. As modificações ocorridas no corpo da mulher-mãe lhe conferem maturidade e segurança, sendo fundamentais para que o "casulo" se rompa, o que dá o poder de voo da borboleta. É o nascer de uma nova mulher, um rito de passagem proporcionado pelo nascimento de um filho e reconhecido pelo homem que está presente nessa metamorfose.

Sentimentos paternos sobre o nascimento

Viver o nascimento de um filho cristaliza, no inconsciente, a marca profunda de um instante que se torna inesquecível. A vivência do nascimento permite ao homem experimentar sentimentos que são contraditórios e diretamente ligados aos diferentes instantes vivenciados, como no final da gestação e a incerteza de quando irá nascer, o medo e a impotência durante o trabalho de parto com a dor de sua companheira, alegria no período expulsivo ou no primeiro contato com o filho.

Os sentimentos proporcionados pelo bebê variam da surpresa, do medo, da excitação, do amor, da emoção e de um senso de grande responsabilidade, e revelam uma mudança de vida para o casal.3,9. Galastro29 pontua que a experiência do parto pode ser traumática para o homem, mas também pode contribuir para consolidar laços afetivos, de respeito e compartilhamento.

O primeiro sentimento revelado no parto é fruto do desconhecido e do imaginário vividos pelos homens:

Medo, primeiro de todos (referindo-se aos sentimentos), é o medo porque todo mundo tem medo do desconhecido [...]. Se você tem medo do escuro é porque o escuro te oculta algo, não é assim? Então o medo do desconhecido, o medo de algo que é vivido ali naquele momento que ninguém viveu pra você, ninguém pode viver pra você. (E4)

O nascimento é um mergulho nesse desconhecido,1 em algo ainda oculto, que é desvelado no momento de vivenciar. Não há como antever nada, a cada instante são novos desafios, novas descobertas e, portanto, não se consegue prever uma atitude, uma reação; não se tem controle.9

Relacionar o medo sentido no parto com o medo causado pelo escuro é transpor ao significado de algo cultuado desde a infância, talvez porque, no escuro, nada se vê, não se sabe o que se pode encontrar. Imagina-se que no escuro se escondem criaturas que transmitem pânico. É no escuro que tudo de errado pode acontecer, por isso devemos evitá-lo. Porém, o enfrentamento da escuridão é a única forma, se não de acabar com o medo, pelo menos de minimizá-lo. O mesmo deve acontecer com o momento do parto, em que os sentimentos diante do desconhecido são inevitáveis. Esse momento é pessoal e intransferível, ninguém pode viver pra você.

O medo de acontecer algo errado com suas mulheres e seus filhos é recorrente. Esse sentimento gera ansiedade durante todo o trabalho de parto, que, na maioria dos casos, só é superado após o nascimento da criança e a comprovação de que está tudo bem com os dois, mãe e filho. Somam-se a esse sentimento as histórias contadas por parentes, amigos, vizinhos nas quais mães e bebês sofrem complicações no parto com desfechos desfavoráveis, o que gera mais ansiedade nos pais, que ainda passarão por esse processo.

Nesse sentido, Carvalho3 afirma que o parto, como evento biológico, social e cultural, traz significados que apontam para riscos potenciais para mãe e bebê, o que pode culminar na morte de um dos dois. Isso gera medo e, portanto, imprevisibilidade, que pode nos fazer acreditar que o parto é um momento repleto de riscos e complicações potenciais para o binômio mãe/filho:

Eu não transmitia pra ela, mais eu tava com medo de acontecer alguma coisa no pós-parto, o meu sentimento maior foi isso, tava dominado tudo [...], porque eu tava com muito medo de acontecer alguma coisa. (E9)

Teve um momento que eu disse: 'Rapaiz', eu pensei não ia dar certo, mais eu não falei para ela, eu digo vai dar certo, vai dar certo você vai conseguir, vai conseguir, até que conseguiu! Mas eu tive em alguns momentos medo, de que desse alguma coisa de errado. (E13)

No entanto, o medo de dar algo errado e o medo da morte não são ditos, são silenciados. O que não é dito é sentido e, às vezes, repreendido para que não se torne real.30 A ansiedade para que tudo termine bem com mãe e bebê é um componente da vivência emocional do parto para cada pai, de forma individual, e depende da habilidade de cada um para lidar com as emoções e sentimentos.26 A tentativa de dominar os sentimentos também tem íntima relação com o papel atribuído ao pai de transmitir força, segurança e confiança para a mulher no momento do parto, não sendo isso possível se ele deixar transparecer o medo que está sentindo.3,31

Superado os momentos de tensão iniciais, emerge a emoção do nascimento:

Ah! Foi uma experiência única, mais emocionante, foi superemocionante (risos) [...]. Cara, é um momento único (risos), não tem explicação, não tem quem aguente, inexplicável. (E1)

Foi intensa, foi uma experiência única. Nossa! Uma coisa inesquecível. Na verdade, então, não tem nem como explicar. É uma experiência muito boa; as pessoas falam: 'Se você nunca presenciou, não vai entender'. (E14)

O nascer de um filho é qualificado pelos pais como um momento único na vida, singular e inesquecível, que deixa marcas emocionais nas pessoas e em suas relações na nova família. A emoção indizível é concretizada em expressões como momento único, experiência única. No entanto, a força com que as frases são ditas e a repetição de algumas palavras mostram a intensidade da emoção e expressam a experiência marcada pela alegria e pela felicidade do nascimento de um novo pai.

O parto, ao ser classificado como algo bonito, lindo e emocionante, revela a forma prazerosa de os pais vivenciarem o momento.3,6 A experiência da parturição é lembradapelospaiscomo algo emocionante e gratificante, gerador de grande satisfação.5,29 Para um dos entrevistados, a emoção de viver o nascimento é comparada a um acontecimento de grande significado para os homens: a final de uma Copa do Mundo de futebol.

Não tem explicação assim, é uma coisa que surpreende qualquer um; não sei, cara, a sensação assim você chegasse digamos numa final de Copa do Mundo do seu país e você participa ali aquela coisa assim aquela sensação, você chora, ri, fala assim: 'Nossa um pedaço de mim que tem dentro e que tá saindo, nó!' É emocionante! (E5)

Ao comparar o parto com a final de uma Copa do Mundo de futebol, esse pai tenta compartilhar os sentimentos vividos em relação ao nascimento, já que o futebol, uma paixão nacional, desperta nas pessoas expectativas, ansiedades, alegrias, tristezas comuns e que se manifestam com o grito, o riso da vitória ou o choro da derrota. Assim, ele traduz, baseando-se no seu universo masculino, aquilo que conhece e partilha com outros esse instante mágico de euforia que é efêmero, mas lembrado e valorizado por muitos o da conquista de um título, para significar o que o nascimento do filho lhe proporcionou, superadas as tensões iniciais.

Espírito Santo e Bonilha,6 Premberg e Lundgren31 destacam que toda a tensão acumulada antes do parto, a ansiedade e a preocupação de não saber o que iria acontecer deixam o pai eufórico quando o filho nasce e é convertida em emoção com o nascimento, momento em que ele pode expressar seus sentimentos até então guardados.

Cada pai elegeu para si um momento marcante durante a trajetória do nascimento de seus filhos, que representa o significado atribuído ao parto. Um dos momentos de profunda intensidade eleito pelos entrevistados é o da saída do bebê do corpo da mulher:

O nascimento dela quanto ela saiu, nó! Isso foi maravilhoso, isso me marcou muito, me marcou pro resto da vida, o nascimento dela quando ela saiu, isso foi muito bacana (pausa). (E3)

O mais impressionante é a cabeça sair quando eu vi aquilo eu não quis olhar mais não, eu fiquei impressionado. Quando saiu, aí eu virei o rosto, mais mesmo assim a curiosidade era mais, eu dava uma olhada e parava, dava uma olhadinha e parava. Aí, quando saiu todo, a médica falou pronto, acabou, ai eu levantei eu tava ajoelhado, levantei do chão olhei na cama, fiquei tipo uns minutinhos chorando. (E9)

A importância atribuída ao momento da saída do bebê revela a felicidade pelo término do processo do nascimento, pois é a concretização da vitória. Esse misto de alívio da dor materna e de superação da dificuldade, da angústia e do medo paternos é fruto da visualização da criança, que concretiza o sonho de uma gestação compartilhada e bem-sucedida.

Outro momento marcante destacado pelos pais é a oportunidade que lhes é oferecida pelos profissionais de saúde de cortar o cordão umbilical de seus filhos:

Hum... foi eu cortando o cordão umbilical (risos); foio mais tranquilo, mas, assim, sei lá, é uma coisa simples você olha lá a pessoa já separa, e você só corta. Mais essa pra mim foi o mais marcante (risos), sinceramente eu pensei que fosse bem mais fácil cortar, parece uma borracha, tipo silicone, bem, eu apertando o negócio, e nada do negócio cortar eu falei: 'O negócio é resistente'. (E7)

Para o pai, o corte do cordão umbilical é geralmente cercado de medo e apreensão por não saber como e onde cortar, medo de machucar o bebê. No entanto, o momento tem a aura de um rito de passagem, pois, após cortar o cordão, todas as dificuldades do trabalho de parto ficam para trás. O cordão umbilical é a ligação do binômio mãe-filho. É por meio dele que o filho recebe o que necessita para se desenvolver. É reconhecido culturalmente como símbolo da fonte de vida e, por isso, ao cortá-lo, o pai se torna o responsável pela separação do corpo do filho do corpo da mãe.

É um momento que simboliza, também, o "início" de uma responsabilidade compartilhada sobre o filho, que, antes, na gestação, cabia principalmente à mãe. Agora, homem e mulher se tornam companheiros no desenvolvimento e na afetuosa proteção da criança nascida. Simboliza, ainda, a passagem do velho para o novo homem, que passa a sentir-se como pai e a atribuir-se as responsabilidades que esse papel define. O profissional de saúde, ao permitir que o corte do cordão seja realizado pelo pai, favorece sua participação efetiva no nascimento6. Mesmo que seja um ato simples para o profissional que assiste o parto, para o pai é um momento único e também de superação, o que deve ser entendido pela equipe.

Outro momento importante revelado no estudo faz do nascimento a concretização do ser pai de todas as responsabilidades que um filho acarreta:

A gente passa a compreender até as nossas origens, sabe! De onde a gente veio, como é a vida, como é que as coisas fluem. Eu só fui cair na real quando eu vi aquele neném saindo de dentro d'água assim, foi que eu comecei a entender que eu tava fazendo parte. Até então, eu era uma pessoa qualquer que estava dentro d'água segurando minha mulher, depois veio o pai, um mestre, um educador assim, em segundos eu vi a minha vida mudar (emoção) [...]. Se eu tivesse já visto depois de nascido, limpinho, já vestido eu não teria notado essa transição. Antes eu era uma pessoa normal, marido e depois que a criança nasceu eu me senti outra... Mesmo no nascimento, eu pude presenciar essa sensação, enxergar essa mudança, sabe?! (E13)

Ao presenciar o nascimento do filho e ao tê-lo em seus braços, o homem se concretiza como pai e sente a responsabilidade que tem pela frente, mesmo embriagado pela emoção do momento - um misto de felicidade, amor e conscientização da responsabilidade gerada. O nascimento traz mudanças na vida do homem, que revela sentimentos, expectativas, responsabilidades de pai para com a criança nascida. Há uma renovação, uma reorganização de papéis que transforma a vida do casal e que o marca como um rito de passagem para uma condição adulta cercada pelas responsabilidades familiares e sociais. Há, também, o medo, ainda que velado, diante desses novos papéis.

O nascimento é o marco fundamental para a concretização do ser pai O homem se descobre diante de uma realidade da qual não tinha consciência, que não sentia, que não vivia até ter a concretude do filho. Nesse momento, o homem reprodutor, o marido, a pessoa normal, transforma-se no ser pai, um mestre, um educador. Percebe-se responsável pelo filho e reflete sobre as origens, sobre a vida.

A transição para a paternidade, concretizada com o nascimento, realça tensões individuais e as relações sociais e afetivas.9,3,15 É um momento de transição na vida de um pai que requer ajustes individuais e coletivos que perduram por muitos anos, o homem passa por um processo de adaptação e ajustes emocionais para a vivência da paternidade e essa mudança acarretará em crescimento emocional e afetivo.26 Essas adaptações emocionais e afetivas refletem-se na imagem social que se constrói, ao longo das décadas, sobre o ser pai, marcada pelo paradigma do macho provedor, o sustentador da família, e, para alguns homens, a crise do nascimento é gerada pelas obrigações sociais com a nova família.17,31

No entanto, a compreensão atual sobre a paternidade e os papéis sociais atribuídos a mães e pais têm sofrido mudanças profundas. Juntos, o homem e a mulher compartilham as funções de provedores e cuidadores. Nas relações familiares, os papeis não são bem definidos; a mãe assumiu o campo do trabalho formal, possuindo uma jornada dupla, e o pai assume, também, as responsabilidades dos cuidados com os filhos.17,20,26,29

Essas reflexões levam-no a repensar suas atitudes, seus comportamentos diante das situações do cotidiano que envolvem suas relações familiares e sociais:

Aí eu fiquei vendo aquela cena ali, ai por uns dois segundos passou tudo na minha cabeça, sabe, o tempo, a rotina da vida da gente, nossa! Uá! um giro de trezentos e sessenta graus [...]. Aí, nó! Bateu aquela coisa, sentido da vida, esse negócio todo entendeu? [...] Foi muito bom os minutos que eu vivi, mudei, mudei muito no meu modo de ser, depois de ontem, pra hoje, eu tava pensando mesmo eu era muito mais... Eu sou ainda muito imaturo, mesmo com as coisas, então eu parei pra pensar muita coisa, corrigir [...]. Então eu mudei, transformei, mudei muito a cabeça. (E9)

Os homens afirmam que, em um curto espaço de tempo, repensam seus valores, o sentido da vida, suas atitudes. Mudam seus sentimentos, suas relações familiares e sociais seus comportamentos. A responsabilidade assumida após o nascimento reflete na nova forma de viver e de pensar a vida, pois hoje há uma família pela qual é responsável, não cabendo mais atitudes impensadas ou irresponsáveis. As atitudes antes atribuídas às pessoas mais velhas, como a responsabilidade para com o outro, hoje já fazem sentido para ele. Deixa de ser imaturo e, em minutos, transforma-se em outro, para revelar-se ao filho como alguém responsável e capaz de assegurar o atendimento de suas necessidades.

O amadurecimento pessoal e as reflexões sobre o valor da vida, da relação conjugal estão presentes no momento do parto.8,9 Afinal, a paternidade é uma fase importante no desenvolvimento emocional masculino, e ter um filho representa passar a olhar a vida por um prisma diferente com novas tarefas, responsabilidades e sentimentos.1,3,9 Concretiza-se a metamorfose da vida masculina, momento em que nasce como pai diante do nascimento de um filho.

 

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

Ao nos propormos a estudar a compreensão paterna sobre o nascimento de um filho, mergulhamos no universo íntimo, particular e único dos homens. Ser pai marca a transição e a descoberta de um novo mundo cercadas por reflexões complexas que envolvem o novo homem, o novo pai e a nova família.

O homem atribui diferentes significados à dor do parto que vão do sofrimento à superação. Por meio de um abraço, de um aperto de mão, de um grito de dor ou de um pedido de ajuda de sua companheira ele vivencia sua dor. Consegue valorizar o esforço da mulher para conseguir superar esse momento, revelando com encantamento sua força e persistência para vencer. Descobre que esse momento é uma verdadeira metamorfose que o casal vivencia, é a transição para os papeis da maternidade e da paternidade que somente o nascimento é capaz de construir e consolidar.

Nesse momento, afloram sentimentos contraditórios, revelando o medo do desconhecido, do inesperado, do incontrolável, que suscita angústia, aflição e ansiedade de que tudo dê certo. Os sentimentos iniciais são superados pela emoção de instantes eternos, como a saída da cabeça do bebê ou o corte do cordão umbilical feito pelo pai, expressos por meio do indizível, traduzido em m palavras como inesquecível, inexplicável, surpreendente, maravilhoso. Marcado também pelas responsabilidades geradas com o nascimento do filho que permite o nascimento de um pai, que será educador, protetor e cuidador.

A vida renova-se e transforma-se, passando o homem a repensar seus valores, suas atitudes e pensamentos. É o nascimento do novo pai que rompe com os estereótipos preconcebidos do macho dominador, inseminador e insensível. Para as novas concepções de gênero nas quais o homem participa ativamente da criação dos filhos, demonstrando seu envolvimento emocional e afetivo, é a concretização da responsabilidade compartilhada com a mulher, marca dos novos tempos ditados pela nova sociedade.

Assim, compreender a experiência masculina do parto representa um marco na construção da assistência obstétrica. Passa-se a entender que o homem vive um momento singular de sua vida repleto de sentimentos, de profissionais da saúde, devemos buscar os princípios devendo ser respeitado e acolhido por todos. Sua da humanização da assistência, lembrando sempre presença não deve ser uma condição imposta, e sim que o pai é um ser em transformação que passa por livre, para que ele consiga experimentar, de maneira um momento exclusivo da vida e deve ser amparado, positiva, o nascimento, mesmo ficando de fora da sala assim como a parturiente, auxiliando na vivência da ou segurando a mão de sua companheira. Na formação metamorfose do ser pai.

 

REFERÊNCIAS

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