REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

Busca Avançada

Volume: 16.3

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Revisão Teórica

Fatores estressores para a equipe de enfermagem da Unidade de Terapia Intensiva

Stress factors in Intensive Care Unit nursing

Ticiana Daltri Felix Rodrigues

Discente do Curso de Graduação em Enfermagem, 8º semestre da Universidade Paulista (UNIP)

Endereço para correspondência

Rua Virgílio de Carvalho Neves Neto, 496, bairro Jardim Palmares
Ribeirão Preto-SP. CEP: 14092-440
E-mail: thici@globo.com

Data de submissão: 17/11/2011
Data de Aprovação: 15/3/2012

Resumo

A Unidade de Terapia Intensiva (UTI) é um local onde são atendidos pacientes gravemente acometidos. É conceituada como um ambiente tenso, traumatizante e agressivo, podendo gerar estresse na equipe de enfermagem. O estresse ocorre quando há uma modificação ameaçadora, lesiva ou tensa no ambiente, desencadeando um desequilíbrio no indivíduo. Esse estímulo causador de tal situação é o fator estressor. O objetivo com este estudo foi investigar, por meio de revisão de literatura, os fatores que geram estresse à equipe de enfermagem na UTI. É uma pesquisa exploratório descritiva, de revisão da literatura. A busca de artigos científicos foi realizada por meio do portal da Biblioteca Virtual em Saúde, nas bases de dados da Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (Lilacs) e da Scientific Electronic Library Online (SciELO). Foram investigados artigos científicos, na íntegra, em publicações online, que continham o tema descrito neste estudo, publicados em português do Brasil nos últimos onze anos, de 2001 a 2011. Foram descartados aqueles que não apresentavam o assunto relacionado ao tema, que não estavam publicados na língua portuguesa do Brasil e os que estavam fora do período estipulado. Revelou-se, neste estudo, a presença de estresse na equipe de enfermagem atuante na UTI, sendo identificados os principais agentes causadores de estresse. O estresse está presente no cotidiano dos trabalhadores de enfermagem que atuam na UTI, podendo desencadear problemas físicos e psíquicos. Os fatores estressores devem ser analisados e amenizados para que a equipe de enfermagem possa exercer seu trabalho com eficiência, prazer e dignidade.

Palavras-chave: Enfermagem; Estresse; UTI

 

INTRODUÇÃO

Unidade de Terapia Intensiva (UTI)

A UTI é um local específico dos hospitais, com a finalidade de atender pacientes gravemente acometidos. Os pacientes recebem monitoramento constante da equipe multiprofissional especializada, além de equipamentos específicos de alta tecnologia para atender pacientes críticos. Se houver mais de uma especialidade, passa a denominar-se de Centro de Terapia Intensiva (CTI).1

A UTI segue um padrão de qualidade assegurando ao paciente o direito a uma assistência humanizada, sinais vitais estabilizados, acompanhamento ininterrupto, benefícios de seu tratamento com a mínima exposição aos riscos decorrentes dos métodos utilizados e à sobrevida. Tais Unidades são divididas conforme a faixa etária do paciente: de 0 a 28 dias (Neonatal), 29 dias a 18 anos incompletos (Pediátrica) e acima de 14 anos (Adulto). Os pacientes entre 14 e 18 anos, podem ser internados na Unidade pediátrica ou adulta, ficando a critério da instituição.1

Em todo hospital com mais de 100 leitos, é obrigatória a instalação da UTI. O número de leitos deve ser entre 6% a 10% do número total de leitos do hospital.2

Ambiente da UTI

Entre os ambientes hospitalares, a UTI é conceituada como o mais tenso, traumatizante eagressivo, em decorrência da rotina de trabalho intensa; dos riscos constantes à equipe de enfermagem por contágio (pacientes em isolamento), exposição a Raios X, acidentes com perfurocortantes; das situações de crises frequentes; dos ruídos intermitentes de monitores, bombas de aspiração, respiradores, gemidos, gritos de dor, choro3, telefone, conversas paralelas da equipe, circulação de grande número de profissionais, fax e impressoras.4

É um lugar isolado, onde o tempo se torna incerto.5 O ambiente é insalubre, a falta de precaução e treinamento da equipe pode resultar em acidentes e transmissão de doenças infectocontagiosas.6

Para que o ambiente da UTI seja humanizado, ele deve proporcionar privacidade, conforto e segurança.4

Na UTI, dada a rotina de situações emergenciais, da concentração de pacientes críticos, com alterações súbitas no estado de saúde, o local de trabalho caracterizase como estressante e agressivo, gerador de um ambiente emocionalmente comprometido7 para a equipe multiprofissional e, principalmente, para a equipe de enfermagem, que tem uma rotina diária de pronto atendimento, pacientes graves, isolamento e morte.8

O cuidado ao paciente crítico

A UTI é um local de possibilidade de vida, mas, em contrapartida, o risco de vida é uma constante. Nesse ambiente de ambigüidades, os conflitos devem ser sempre resolvidos. O problema é lidar com os sentimentos da equipe que atua na unidade. Há necessidade de aptidão para se conviver entre morte, vida, fragilidade, onipotência e impotência. Diante dessas incertezas, a equipe precisa de preparo e cuidado para que não haja uma grande desestruturação.5

Outro fator inerente à equipe de enfermagem no cuidado ao paciente crítico é a administração de medicamentos, considerada uma das tarefas mais importantes, que requer alta responsabilidade e elevada capacidade técnica envolvendo responsabilidade ética e legal.9,10

Essa responsabilidade e essa complexidade do cuidado em um paciente da UTI requerem do enfermeiro um vasto conhecimento técnico-científico, principalmente em relação à manipulação dos variados tipos de drogas vasoativas, sedativas e antimicrobianas que são realizadas em alta escala, em infusões contínuas e que interferem diretamente no quadro dos pacientes.9

O trabalho da equipe de enfermagem na administração de medicamentos envolve a leitura da prescrição médica, o manuseio, o preparo, a administração e a avaliação da resposta do paciente. Na UTI, essa é uma prática constante, dado o grande número de medicamentos prescritos.10

A falta de atenção, acapacidade técnica e a responsabilidade da equipe podem desencadear ocorrências iatrogênicas.10

Em decorrência de tais complexidades, da estrutura física, do barulho constante, de equipamentos de alta tecnologia, da movimentação intensa de pessoas, do sofrimento dos pacientes, dentre outros inúmeros fatores, a UTI torna-se um local gerador de estresse.11

Isso pode ser demonstrado na TAB. 1, que contém dados de estudos realizados em uma UTI geral, medindo o nível total de estresse entre pacientes (G1), familiares (G2) e profissionais (G3). 11

 

 

Como se pode analisar na TAB. 1, não houve diferença significativa no ETE do G1 referente a: tipo de tratamento, sexo, nível educacional, internação prévia em UTI ou mortalidade estimada pelo Acute Physiology and Chronic Health Evaluation (APACHE II) - sistema de classificação de severidade de doença, expresso mediante índices prognósticos. 11

Nos grupos G2 e G3, a diferença estatística foi irrelevante no ETE referente ao sexo, nível educacional para G1 e atividade profissional para G2.11

A média do escore total de estresse (ETE), conforme a FIG. 1, foi de 62,63 (G1); 91,10 (G2) e 99.30 (G3). 11

 

 

Dessa forma, verificou-se que os familiares e profissionais de saúde apresentaram ETE mais elevados em relação ao dos pacientes, superestimando o estresse quando comparado aos pacientes e divergindo quanto aos estressores. É importante a identificação desses estressores para a atuação direta, com medidas que facilitarão a humanização no ambiente da UTI.11

Estresse

A palavra "estresse" é usada para explicar inúmeros acontecimentos que assolam a humanidade nos dias atuais.12

O trabalho é a capacidade do homem de produzir o meio em que vive. Nessa interação com a natureza, o indivíduo modifica a natureza, ao mesmo tempo em que é modificado por ela. Nesse contexto de modificações, estão aquelas que têm consequências no aparelho psíquico.12

O estresse ocorre quando há uma modificação ameaçadora, lesiva ou tensa no ambiente, desencadeando um desequilíbrio no indivíduo. O indivíduo sente ou torna-se incapaz de realizar tarefas sob essa situação. Esse estímulo causador de tal situação é o fator estressor, sendo variável: o fator estressor que gera estresse em um indivíduo pode não gerar em outro.13

Os estressores podem ser distinguidos como físicos (agentes químicos, frio e calor), fisiológicos (fadiga, dor) ou psicossociais (medo de perder, falhar ou errar).13

O processo de enfrentamento do estresse envolve a adaptação do indivíduo às novas situações geradoras de estresse Deve haver um equilíbrio das funções fisiológicas e psicológicas que resultarão na capacidade para a realização de novas demandas.13

A resposta fisiológica a um estressor é um processo de proteção e adaptação ao organismo, para manter a homeostasia. O estressor altera ahomeostasia, resultando em doença, dada uma falha na adaptação ao estresse.13 A resposta psicológica consiste na reação do individuo para controlar a situação de estresse, denominado de "processo de mediação".13 Quandooestresseresultaem consequências ao aparelho psíquico dos trabalhadores, denomina-se "síndrome de Burnout.12 Burnout é um termo usado para caracterizar o estresse ocupacional, causado por falta de energia. Ocorre um sentimento de fracasso e exaustão, dado o desgaste excessivo de energia, acometendo principalmente profissionais que trabalham em contato direto com pessoas.12

A síndrome de Burnout é um dos maiores problemas psicossociais nos dias atuais.12 O alto estresse gera sofrimento, que traz consequências na saúde e no seu desempenho profissional da pessoa acometida.12

Seus sinais e sintomas são: exaustão física, psíquica e emocional, diminuição da realização pessoal no trabalho e despersonalização. Ocorre quando há exigência de alta qualificação intelectual, envolvendo tomadas de decisões importantes, com alto peso emocional ocorrendo principalmente em pessoas que exercem profissões desgastantes durante muitos anos, com carga horária excessiva e em ambiente altamente estressante.12

 

OBJETIVO

Investigar, por meio de revisão de literatura, os fatores que geram estresse à equipe de enfermagem na unidade de terapia intensiva.

 

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo exploratório-descritivo, de revisão da literatura científica, no qual foi realizado um levantamento bibliográfico referente aos fatores que geram estresse na equipe de enfermagem que atua na UTI.

As pesquisas exploratórias têm como objetivo proporcionar uma visão geral sobre determinado assunto, quando há pouco conhecimento sobre o tema a ser estudado. Seu planejamento é flexível, de modo que possibilite a consideração dos mais variados aspectos relativos ao fato estudado.14

Nas pesquisas descritivas são descritas as características de determinada população ou fenômeno ou, então, são estabelecidas as relações entre as variáveis. A preocupação é em observar, analisar, registrar, classificar e interpretar os fatos sem que o pesquisador interfira neles.14

A pesquisa bibliográfica consiste no levantamento da bibliografia de fontes secundárias que já foram publicadas em revistas, livros, artigos, imprensa escrita e publicações avulsas. Coloca o pesquisador diante de tudo o que já foi escrito sobre determinado assunto. Permite-lhe não somente definir e resolver problemas já conhecidos, como também explorar novos caminhos e novas áreas sobre o assunto.15

Para a realização deste estudo, foram efetuadas buscas de artigos científicos no portal da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), nas bases de dados Literatura Latino-Americana em Ciências da Saúde (Lilacs) e Scientific Electronic Library Online (SciELO), efetuando o cruzamento das palavraschave: enfermagem x estresse x UTI.

Foram investigados artigos científicos na íntegra em publicações online, que continham o tema descrito neste estudo, publicados em português do Brasil nos últimos onze anos, de 2001 a 2011. A busca realizou-se nos meses de julho e agosto de 2011 e foram selecionados os artigos que continham o assunto referente aos fatores estressores à equipe de enfermagem na UTI, nos períodos estipulados acima, que estavam disponíveis online na íntegra e publicados na língua portuguesa do Brasil. Foram descartados aqueles que não apresentavam o assunto relacionado ao tema, que não estavam publicados na língua portuguesa do Brasil e os que estavam fora do período estipulado.

Após a leitura na íntegra dos artigos científicos selecionados, estes foram analisados sistematicamente, com a elaboração de fichas, transcritos de forma exata, contendo elementos essenciais que permitiram a identificação das publicações e categorização por meio de tabelas para a discussão do assunto em questão.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Após o cruzamento das palavras-chave, foram selecionados 13 artigos científicos relacionados aos fatores estressores para a equipe de enfermagem na UTI, demonstrados na TAB. 2.

Conforme observado na TAB. 2, dos 13 artigos científicos selecionados (100%), 12 foram obtidos na base de dados Lilacs, 9 por meio do cruzamento das palavras-chave estresse x UTI, correspondente a 69,23% do total; um artigo, pelo cruzamento estresse x enfermagem (7,69%); dois artigos, pelo cruzamento estresse x enfermagem x UTI (15,38%). Na base de dados SciELO, um artigo foi selecionado pelo cruzamento das palavra-chave estresse x UTI, correspondendo a 7,69% do total, nenhum artigo foi selecionado pelo cruzamento estresse x enfermagem e estresse x enfermagem x UTI, pois os artigos encontrados já haviam sido coletados na base de dados Lilacs ou não correspondiam aos critérios de seleção.

Conforme se pode analisar no QUADRO. 1, os fatores estressores foram subdivididos em oito categorias de acordo com sua semelhança: gerenciamento da unidade crítica; relacionamento interpessoal; sofrimento e morte de pacientes; procedimento de risco; ambiente; insatisfação com o trabalho; tecnologia; e outros.

As revistas científicas das quais mais artigos foram selecionados foram a Revista da Escola de Enfermagem USP e a Revista Latino-Americana de Enfermagem, ambas com três artigos científicos cada. As demais revistas, apenas um artigo por revista.

O ano de publicação dos artigos científicos selecionados variou entre 2002 e 2011, com a prevalência de 2008, com cinco artigos selecionados.

Categorias de fatores estressores para a equipe de enfermagem

O GRÁF.1 demonstra o percentual das categorias dos fatores estressores em unidades de terapia intensiva, citadas no QUADRO 1, de acordo com os artigos científicos pesquisados.

 

 

Dos 13 artigos analisados, 100% citam o gerenciamento da unidade crítica como a categoria mais estressante para a equipe de enfermagem; a categoria relacionamento interpessoal foi mencionada em 76,9% dos artigos científicos analisados; sofrimento e morte do paciente obtiveram uma média de 69,23%; procedimento de risco é considerado fator estressante em 61,5% dos artigos científicos; insatisfação com o trabalho, em 38,4% dos artigos; ambiente, 38,4%; tecnologia, 15,38%; e a categoria Outros, com apenas um artigo (7,69%).

Gerenciamento da unidade crítica

Conforme se pode analisar no GRÁF. 1, o gerenciamento da unidade crítica é tido como a principal categoria geradora de estresse para a equipe de enfermagem. Nessa categoria, identifica-se a sobrecarga de trabalho como fator altamente estressante. O trabalho realizado na UTI exige da equipe de enfermagem um ritmo acelerado e intenso de atividades. A jornada diária de seis horas e o piso salarial da categoria facilita o acúmulo de empregos, sobrecarregando os profissionais de saúde. O número reduzido de funcionários e de material, a sobrecarga de tarefas, a pouca experiência profissional, os muitos dias de trabalho sem folga e a falta de assiduidade e pontualidade dos profissionais exigem que realizem inúmeras tarefas que deveriam ser divididas com outros membros da equipe. Isso implica o aumento das exigências físicas e emocionais, o que pode gerar o estresse físico e/ou mental e influenciar na qualidade do cuidado.16-27

O profissional que realiza o plantão noturno dificilmente repõe o sono, pois não consegue dormir bem durante o dia, causando-lhe problemas de saúde.16

A falta de tempo para pausas faz com que o profissional realize sua refeição rapidamente, e o trabalho de doze horas seguidas e sem pausa é desgastante. Seriam necessárias pausas mais frequentes para diminuir o desgaste físico e emocional, pois eles trabalham em pé, em ritmo acelerado e sob tensão constante.16

Os profissionais de enfermagem informam que não há espaço para participar do planejamento das atividades da unidade, pois este é realizado pelos enfermeiros e pela chefia. Com isso, eles perdem a "visão do todo" da unidade. 16

A falta de recursos materiais e de equipamentos impede que as atividades sejam realizadas com eficiência, tornando as condições de trabalho precárias. Os profissionais necessitam improvisar, e o processo de cuidar torna-se frustrante dadas as dificuldades encontradas nas condições de trabalho. Diante desse problema, os profissionais tentam fazer o melhor que podem, porém isso implica a perda de tempo, que poderia ser destinado à assistência, resultando em prejuízo para a qualidade do cuidar. Surge, então, irritação e cansaço do profissional.16-18,21,28

A elaboração da escala mensal é citada pelos profissionais enfermeiros como gerador de estresse, pois é bastante complicada no que diz respeito à sua distribuição, principalmente em meses que possuem feriados ou datas comemorativas. Além disso, há a preocupação em conciliar a escala com a de outras instituições, uma vez que alguns profissionais de enfermagem possuem mais de um emprego.18

A UTI necessita de serviços de apoio para seu pleno funcionamento, ou seja, laboratório clínico, radiologia, farmácia, manutenção de equipamentos, dentre outros. Tais serviços devem funcionar adequadamente para que o setor produza sua operação com rapidez e segurança. A não eficácia em qualquer um desses serviços pode gerar sentimentos de irritação, angústia, frustração e desânimo para a equipe. 28

O trabalho na UTI é complexo, e para que a assistência seja adequada e qualificada torna-se necessária a base em alguns critérios, tais como: características da instituição, quantidade e qualidade dos equipamentos, planta física, número de leitos e qualificação pessoal.

Boas condições de trabalho devem ser oferecidas para que a equipe possa desempenhar suas atividades sem sobrecarga ou falta de materiais, evitando a exaustão e o estresse.28

Relacionamento interpessoal

Na categoria relacionamento interpessoal, o relacionamento com familiares do paciente é fator altamente estressante, pois os profissionais de enfermagem também são responsáveispelo cuidado aos familiaresdos pacientes. Alguns familiares demonstram sentimentos de gratidão e respeito pelos profissionais por causa dos cuidados prestados ao paciente, gerando sentimentos de satisfação.16-28 Muitas vezes, porém, os familiares projetam os sentimentos de tristeza e angústia nos trabalhadores de enfermagem, ocorrendo aproximação e envolvimento entre eles. O enfermeiro se identifica com os familiares, tendo um sentimento de compaixão, e sente - se incapaz por sua limitação pessoal, ou pelo fato de nada mais poder fazer pela situação, vivenciando sentimentos de sofrimento.25 São questionados sobre o quadro clínico dos parentes, o que costuma causar ansiedade, pois a equipe não sabe ao certo o diagnóstico e o prognóstico dos pacientes nem está autorizada a falar sobre tal questão. Dessa forma, fica evidenteque atarefa de cuidar dos familiares se torna uma sobrecarga psíquica.16-18,20-23,25,27,28

O enfermeiro, em seu dia a dia, tem de respeitar e entender as diversasformas de sentimentos e comportamentos humanos. Portanto, é necessário aprender a lidar com tais situações, para prestar os cuidados necessários aos pacientes e familiares de forma eficiente, evitando o desgaste emocional.18

O relacionamento entre os membros da equipe também é ressaltado, interferindo na assistência e na satisfação do trabalho. A falta de comunicação, a utilização de mecanismos de defesas inadequados, a falta de paciência e de cooperação em equipe geram estresse nos profissionais. A qualidade dos cuidados não está somente relacionada às técnicas, mas também ao bem-estar psicológico da equipe. 16-18,20-23,25,27,28

O difícil trabalho em equipe interfere na qualidade da assistência ao paciente e sobrecarrega os demais profissionais. 16-18,20-23,25,27,28

É necessário motivar a equipe para que ela seja unida, harmoniosa e comprometida com a assistência, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida do paciente, da família e da própria equipe.17

Sofrimento e morte do paciente

A morte de pacientes é uma das situações mais difíceis de ser vivenciada pela equipe de enfermagem. Os profissionais de enfermagem, geralmente, ao vivenciarem o processo de morte dos pacientes, sentemse como de estivessem prevendo a própria morte. Ela provoca o medo de que a mesma situação possa acontecer com seus familiares, ou revivem a lembrança de perdas de entes queridos na vida.16

Vivenciar o sofrimento dos pacientes aflora sentimentos de compaixão, e esse vínculo com o paciente causa imenso desgaste, pois assimilam o sofrimento deles. Esses profissionais dificilmente deixam de pensar nos pacientes, mesmo fora do trabalho, acarretando problemas em sua vida pessoal.16,17

A morte representa a impotência, o sofrimento e a perda. Quando algum paciente morre, a equipe se sente impotente e fracassada. Não há tempo para a vivência desse luto, dada a demanda de cuidados ser intensa. Assim, para suportarem a dor, o sofrimento, a morte e o luto não elaborado, os profissionais utilizam vários mecanismos de defesa. Embora esses mecanismos ajudem, não são totalmente eficazes e, consequentemente, eles levam para casa grande carga de sofrimento, visto que não há tempo nem espaço na instituição para a assimilá-los.16,17,20-25,27

Dessa forma, torna-se necessário que haja um espaço para falar sobre a morte, pois esse processo é inerente aos profissionais de saúde.17

Procedimento de risco

Os enfermeiros executam atividades complexas que envolvem riscos aos pacientes, além de serem responsáveis por toda a equipe de enfermagem. Nesse contexto, existe alto nível de responsabilidade, o que os leva a ter o controle absoluto sobre o trabalho, exigindo de si mesmos atitudes sobre-humanas. Em decorrência do medo de causar erro, tendem a obter excessivamente o controle sobre o trabalho. Para evitarem a perda do controle, os sentimentos de culpa e a punição afloram, e experimentam o temor como consequência de uma atitude negligente.19

A maior parte dos profissionais da equipe deenfermagem sente prazer em cuidar de pacientes graves, mas vivencia angústias por ter de realizar procedimentos complexos. Além disso, eles manipulam equipamentos, medicamentos e procuram realizar todas as tarefas com iniciativa, agilidade e livre de qualquer erro, para não resultar na morte do paciente.16,17,19,20-26

A manipulação de medicamentos expõe a equipe de enfermagem ao risco de absorção das drogas pela pele e mucosas, por respingos acidentais na pele; nos olhos, inalação através de aerossol e ingestão acidental. São as principais vítimas da exposição a riscos biológicos, pelo fato de estarem em contato direto e constante com ocupações de alto risco e pela falta de prevenção e controle desses riscos.24

Insatisfação com o trabalho

Uma das causas de estresse está relacionada à insatisfação com o trabalho, levando à despersonalização e à exaustão emocional, em razão de fatores do trabalho, do ambiente, do relacionamento com a equipe, da pressão da coordenação, dos conflitos com a vida pessoal e profissional. Assim, o local de trabalho é tido como ameaça ao profissional, repercutindo na sua vida pessoal e profissional, provocando demandas emocionais maiores do que pode suportar.20-23,25

Se o enfermeiro, preparado com diversos cursos, não obtiver o reconhecimento esperado e as atividades desempenhadas estiverem abaixo de seu preparo educacional, pode ocorrer uma insatisfação com o trabalho executado.21

O fato de não ser reconhecido pelo esforço realizado também é visto como incompreensão pelo profissional. O reconhecimento é a valorização do seu esforço, possibilitando-lhe a vivência do prazer e da realização pessoal.25

A insatisfação com o trabalho constitui um quadro favorável ao estresse, uma vez que ocasiona esgotamento e prostração, acarretando índices elevados de absenteísmo em razão da doença física e emocional. 20

A discussão sobre as condições de vida e do aspecto profissional deve ser realizada, pois esses dois aspectos devem caminhar concomitantemente para que o ser humano se sinta realizado e possa executar suas tarefas com satisfação e tranquilidade.18

Ambiente

Os fatores ambientais da UTI podem contribuir para a evolução dos sintomas deestresse e influenciar o trabalho dos profissionais de forma negativa. A iluminação artificial, o ruído, a temperatura, o ambiente fechado e a planta física são alguns desses fatores.18,20,22,24,27,28

A iluminação deve seguir alguns requisitos, de modo a evitar a fadiga ocular, e para isso é necessário que ela seja bem distribuída, suficiente e sua intensidade constante.18

Os ruídos provenientes dos monitores, respiradores e bombas de infusão são importantes e necessários para chamar a atenção dos profissionais, pois, quando os alarmes disparam, algum problema pode estar ocorrendo com o paciente. Contudo, geram irritação e dificuldade de entendimento entre os profissionais, que muitas vezes necessitam aumentar o tom da voz para que haja melhor comunicação entre eles. A incompreensão das palavras pronunciadas pode influenciar na ocorrência de erros humanos, acarretando riscos ou mesmo danos à saúde dos pacientes.24 Esses ruídos podem também acometer o sono e o descanso dos profissionais, pois alegam ter a sensação de ouvir os alarmes durante a noite, apresentando episódios de insônia e sonhos relacionados ao ambiente de trabalho.18,24 Os ruídos não diminuem o desempenho profissional, porém a exposição a níveis elevados e por longos períodos pode acarretar em comprometimentos auditivos, mentais e sociais no indivíduo. 18,24

Outro fator relacionado ao ambiente é a temperatura, que, se for inadequada, interfere na produtividade do profissional, podendo até mesmo gerar irritação.18

Tecnologia

O avanço tecnológico e científico torna frequente a introdução de variados tipos de equipamentos sofisticados e complexos nas UTIs. Faz com que os profissionais de enfermagem enfrentem as mudanças impostas pela inovação, o que exige atualização constante da equipe para lidar com os equipamentos.22

Não há como prever situações comuns no cotidiano ocasionadas por problemas inesperados, como panes, incidentes, mau funcionamento, imprevistos provenientes de materiais, de instrumentos, das máquinas, e os enfermeiros sofrem e sentem medo de que os equipamentos existentes não supram as necessidades dos pacientes.25

Outros fatores

Nos dias atuais, os profissionais de saúde possuem muitas obrigações e menos tempo para o cuidado próprio, pois a remuneração inadequada faz com que busquem outros empregos para que obtenham um salário satisfatório. Com essa falta de tempo, a qualidade de vida fica comprometida. Ingerem o alimento muito rapidamente, dormem pouco, relacionam-se menos com outras pessoas, o que acarreta desgaste físico e emocional, gerando insatisfação pessoal e despersonalização.18,22

Dada a atual condição de globalização, a competitividade de mercado desencadeia o desemprego, a rotatividade da força de trabalho, o aumento da terceirização e do trabalho informal. Nessas condições, o profissional tem receio de perder o emprego, o que lhe gera alto nível de estresse pela falta de estabilidade no trabalho.20,24

Em relação à falta de experiência profissional, podese afirmar que os profissionais com maior tempo de formação são mais seguros de suas ações e controlam situações críticas com mais facilidade e desenvoltura. Já a pouca experiência gera nos profissionais, com maior frequência, insegurança e dificuldade de desenvoltura nas ações praticadas.26

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O trabalho na UTI é complexo, e para que a assistência seja eficiente precisa-se de um gerenciamento eficaz. A fim de que o trabalho possa ser realizado com eficiência e qualidade, alguns recursos se tornam necessários: planta física adequada, recursos materiais e humanos, profissionais qualificados, dentre outros. Porém, inúmeros problemas são detectados pela falta desses recursos essenciais, pois geralmente não respondem com eficiência à necessidade real da assistência ao paciente ou a instituição não viabiliza os recursos necessários.

Nesse cenário, cabe ao enfermeiro encontrar maneiras de driblar os problemas e tentar prestar a assistência da melhor forma possível, porém esses contratempos ocorridos geram imenso estresse para a equipe de enfermagem.

Dentre os fatores geradores de estresse para o profissional da UTI, osprincipais detectadosforam:sofrimento e morte de pacientes; sobrecarga de trabalho; falta de recursos humanos e materiais; procedimentos de alto risco; falta de assiduidade e pontualidade dos funcionários; acúmulo de empregos; relacionamento interpessoal; ruído excessivo; complexidade das ações; Insatisfação com o trabalho e remuneração inadequada.

Como exposto neste estudo, pôde-se analisar que o estresse está presente no cotidiano dos trabalhadores de enfermagem que atuam na UTI, podendo desencadear problemas físicos e psíquicos. Os fatores estressores descritos neste estudo foram evidenciados e devem ser analisados e amenizados para que a equipe de enfermagem possa exercer seu trabalho com eficiência, prazer e dignidade, contribuindo, dessa forma, para a diminuição de doenças provenientes do estresse. A síndrome de Burnout é um exemplo do mal causado pelo estresse constante vivido pelos profissionais de saúde.

O desenvolvimento de futuros estudos para a enfermagem utilizando esses agentes estressores como fonte e a elaboração de maneiras para diminuir o estresse para os profissionais atuantes em unidades de terapia intensiva podem contribuir para a diminuição do sofrimento da equipe de enfermagem e colaborar para um atendimento mais seguro e confortável ao paciente.

 

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