REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

Busca Avançada

Volume: 15.3

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Revisão Teórica

A pesquisa em história da enfermagem: revisão de publicações de 2000-2008

Nursing history research: review of publications 2000-2008

Virgínia Mascarenhas Nascimento TeixeiraI; Yanna Mara Mol CunhaII

IEnfermeira. Mestre em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da UFMG. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em História da FAFICH/UFMG. Professora da Faculdade Estácio de Sá de Belo Horizonte. Membro do Núcleo de Pesquisas e Estudos sobre Quotidiano em Saúde (NUPEQS)
IIAluna do Curso de Enfermagem da Faculdade Estácio de Sá de Belo Horizonte. Membro do Núcleo de Pesquisas e Estudos sobre Quotidiano em Saúde (NUPEQS). E-mail: yannamol@hotmail.com

Endereço para correspondência

Rua Deputado Joaquim Mariano, 141, apto. 206, Camargos
Belo Horizonte. CEP: 30525-420

Data de submissão: 27/4/2010
Data de aprovação: 16/5/2011

Resumo

No final do século XX, a pesquisa em história da enfermagem no Brasil começou a ganhar impulso, indicando a necessidade de repensar o contexto de formação e atuação do enfermeiro ao longo do desenvolvimento da profissão. Com este estudo, buscou-se analisar o conhecimento produzido sobre história da enfermagem e o espaço ocupado pelas publicações nessa área em periódicos nacionais, no período de 2000 a 2008. O trabalho foi realizado como uma forma de compreender o modo pelo qual as pesquisas têm evoluído nessa área e alertar os pesquisadores para possíveis necessidades de publicação e exploração de temas relacionados à história da enfermagem. Foi realizada uma pesquisa bibliográfica nas bases de dados Lilacs e BDENF, com a utilização do descritor "História da Enfermagem", sendo encontrados 212 artigos relacionados ao tema. Ao analisar os trabalhos, foi possível confirmar que estes podem ser divididos em três temáticas principais: assistencial, organizacional e profissional. Existe o predomínio de publicações na temática profissional, seguido da organizacional e assistencial, respectivamente. A revista de maior publicação de artigos sobre história da enfermagem é a Revista Brasileira de Enfermagem e grande parte dos autores envolvidos nas publicações possui apenas um artigo publicado. Apesar do número aparentemente expressivo de publicações em história da enfermagem, esse campo precisa ser mais bem desenvolvido, pois a maior parte das publicações ainda está concentrada em uma mesma área e produzida por um grupo pequeno de interessados no tema.

Palavras-chave: Enfermagem; História da Enfermagem; Pesquisa em Enfermagem

 

INTRODUÇÃO

A história da enfermagem é uma área interdisciplinar situada entre duas áreas de conhecimento: a enfermagem e a história. Seu estudo pode gerar confronto crítico com o passado, trazendo questões delicadas que evidenciam contradições e inconsistências e exigem de enfermeiros e historiadores capacidades cognitivas e afetivas especiais para produzirem conhecimento no domínio de ambas as áreas.1 A história da enfermagem contribui para a formação de profissionais com consciência crítica, reflexiva e com novas formas de percepção e apreciação da realidade social. Profissionais capazes de pensar a enfermagem inscrita em um campo de forças dinâmicas e contraditórias, composto por passado, presente e futuro.1

Ao longo dos séculos, as informações sobre a história da enfermagem foram, muitas vezes, fornecidas por outras disciplinas, como a medicina, a sociologia e a história, sendo exaltado o enfoque da enfermagem ora religioso e submisso, ora depravado e profano.2 Nesse sentido, a relação da sociedade com a profissão se fez, em muitos momentos, permeada por conceitos, preconceitos e estereótipos estabelecidos em ao longo da sua trajetória histórica e que, até hoje, influenciam na concepção do seu significado como profissão da saúde.3

Além disso, durante muito tempo, a história da enfermagem seguiu o modelo da própria disciplina História, que parece ter sido baseado em um modelo de rememoração, anamnese e memorização dos grandes historiadores.4 No passado, os historiadores percorriam da história à memória coletiva. Já a história atual se interessa por toda atividade humana, ou seja, tudo tem uma história, um passado que pode ser reconstruído e relacionado ao restante desse passado.4 De acordo com Padilha et al,2:576"a enfermagem é uma profissão que, ao longo do tempo, vem desconstruindo e construindo sua história". Portanto, pode-se dizer que é impossível compreender o contexto profissional da enfermagem sem conhecer sua história.

Produzir pesquisa histórica para construir memória da enfermagem e analisar criticamente a história das enfermeiras e da enfermagem é um desafio que vem crescendo no decorrer do tempo.2 Nesse sentido, os estudos sobre história da enfermagem têm possibilitado a tomada de consciência daquilo que somos, como produto histórico, o desenvolvimento de uma autoestima coletiva e a reconstrução da identidade profissional. Esses estudos permitem uma nova visão sobre a profissão,5 que a torna viva, buscando vestígios do passado e encontrando sua identidade no presente.3

Nesse sentido, a pesquisa em história da enfermagem, no Brasil, começou a ganhar impulso a partir do final do século XX, com o despertar da enfermagem para a necessidade de buscar equilíbrio entre capacidade de crítica social e autocrítica profissional e a competência técnico-científica.1

O reconhecimento da história da enfermagem como linha de pesquisa no Fórum Nacional de Coordenadores de Cursos de Pós-Graduação em Enfermagem, realizado em 2000 pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), evidenciou a ampliação dos estudos na área, possibilitando uma produção científica com ampla temática.1

Em estudo sobre o movimento de reconsideração do ensino e da pesquisa em história da enfermagem, Barreira e Baptista1 estabeleceram as temáticas abordadas na produção científica de história da enfermagem, que podem essas ser agrupadas em três temáticas: a profissional, a assistencial e a organizacional:

• Profissional: raízes da identidade profissional; o processo de cientificação do saber da enfermagem; a formação da comunidade de enfermagem; as entidades de classe no processo da institucionalização da enfermagem; historicidade das questões étnicas; o ensino e a pesquisa em História da Enfermagem;

• Assistencial: configurações da prática da enfermagem no tempo e no espaço; impacto das tecnologias na assistência de enfermagem; o ensino da assistência, conteúdo e estratégias; abordagem histórica nos modos de comunicação entre enfermeiros e clientes; história das doenças e práticas profissional;

• Organizacional: trajetória das escolas de enfermagem; a enfermagem nos hospitais modelares; atuação da enfermagem nos programas nacionais de saúde; a organização do trabalho de enfermagem nos serviços de saúde, a enfermeira na administração da assistência, do ensino e da pesquisa interdisciplinar.1:704

A importância dos estudos sobre história da enfermagem tem se evidenciado, nas últimas décadas, pelo crescente número de trabalhos na área e em razão, principalmente, da necessidade de repensar a profissão em relação com o contexto social no qual o enfermeiro atua.6

Tendo em vista a relevância do tema história da enfermagem para a enfermagem, surgiram as seguintes questões de pesquisa: Qual o espaço que o tema em questão, como objeto de investigação dos enfermeiros, ocupa nas publicações em periódicos brasileiros no período de 2000 a 2008? Em que subáreas da história da enfermagem incidem essas publicações?

Nesse sentido, buscou-se, com este estudo, analisar o conhecimento produzido em história da enfermagem e o espaço ocupado pelas publicações nessa área em periódicos de enfermagem nacionais, no período de 2000 a 2008.

Dada a importância de publicações sobre história da enfermagem, justificou-se a elaboração deste estudo, para compreender a forma pela qual pesquisas têm evoluído nessa área, e, possivelmente, com os resultados busca-se poder direcionar e atentar pesquisadores sobre possíveis necessidades de publicação e até mesmo da exploração de temas relacionados à história da profissão.

 

METODOLOGIA

O caminho metodológico utilizado para desenvolver este tema foi a pesquisa bibliográfica. Trata-se de "levantamento e análise crítica dos principais trabalhos publicados sobre determinado tema", tendo, portanto, como finalidade, atualização de conhecimentos e acompanhamento do desenvolvimento de um assunto.7:3

A finalidade com o estudo foi resgatar aspectos inerentes às produções científicas sobre história da enfermagem. Portanto, para a obtenção das informações desejadas, foi realizado um levantamento bibliográfico das publicações sobre história da enfermagem em periódicos brasileiros a partir de 2000, quando a história da enfermagem foi reconhecida como linha de pesquisa no Fórum Nacional de Coordenadores de Cursos de Pós-Graduação em Enfermagem, promovido pela CAPES em 2008, dada a necessidade de trabalhar com dados que permitam a visualização do desenvolvimento da pesquisa em história da enfermagem até o momento.

Inicialmente, a busca se deu por meio do site da Biblioteca Virtual em Saúde, nas bases de dados Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (Lilacs) e na Base de Dados de Enfermagem (BDENF), visto que fez parte dos objetivos do estudo encontrar artigos científicos nacionais. Essas bases eletrônicas de dados iniciaram suas atividades de indexação na década de 1980 e, assim, os artigos indexados nelas atendem ao recorte temporal deste trabalho.8 A indexação em um banco de dados nacional ou internacional exige critérios específicos de forma e conteúdo. Dessa forma, a indexação de periódicos científicos constitui um importante indicador de qualidade da pesquisa e da dimensão de sua abrangência.9

Na coleta de dados realizada nas bases de dados Lilacs e BDENF, utilizou-se como descritor a expressão "História da Enfermagem". Os limites da pesquisa basearam-se em: ano de publicação - de 2000 a 2008; idioma - português; e tipo de publicação - artigo de revista. Foram encontrados 212 artigos na base Lilacs e 162 na BDENF. Identificados os artigos, foi realizada a leitura minuciosa dos resumos encontrados para, posteriormente, os artigos serem adquiridos.

Nessa análise, verificou-se que dos 212 artigos encontrados no Lilacs todos estavam indexados na base BDENF. Assim, foram adquiridos e analisados os 212 artigos presentes naquela base.

Dentre todo material pesquisado, grande parte encontrava-se disponível integralmente na internet, por isso foram impressos. Os demais foram obtidos nas bibliotecas da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e feitas cópias xérox, ou, ainda, para aqueles não disponíveis, a aquisição do artigo foi realizada via biblioteca da Faculdade Estácio de Sá de Belo Horizonte.

Em seguida, foi realizada a leitura minuciosa do material e o registro das informações obtidas em um roteiro elaborado previamente, contendo itens referentes ao título da pesquisa, temática, objetivos e conclusões. Os dados levantados foram comparados e os artigos analisados foram agrupados, por similaridade e pertinência, em temáticas abordadas na produção científica de história da enfermagem citadas previamente em estudo de Barreira e Baptista, quais sejam: assistencial, organizacional e profissional.1 Sugeriu-se, ainda, o tópico "Outras produções históricas", composto por artigos que não se enquadraram nas temáticas citadas. Os resultados são apresentados a seguir.

 

A PRODUÇÃO EM HISTÓRIA DA ENFERMAGEM

A produção científica em história da enfermagem por periódicos, desde o ano de 2000 até 2008, é apresentada a seguir, na TAB. 1:

 

 

A produção científica por periódicos se distribui da seguinte maneira: 85 artigos foram publicados na Revista Brasileira de Enfermagem, o que corresponde a 39% da produção nessa área, no período estudado; 72 artigos foram publicados na Escola Anna Nery - Revista de Enfermagem, o que corresponde a 34%; 13 artigos, na Texto & Contexto Enfermagem, correspondendo a 6% do total; 10 artigos, na Revista de Enfermagem da UERJ, correspondendo a 5%; e 34 artigos estão distribuídos nas demais revistas, o que corresponde a 16%. É importante ressaltar que esses dados estão relacionados às publicações que tinham História da Enfermagem como descritor.

Ao analisar a produção em história da enfermagem em relação aos periódicos que publicam artigos referentes a esse tema, foi possível perceber que a Revista Brasileira de Enfermagem (REBEn) publicou o maior número de trabalhos, seguida da Escola Anna Nery - Revista de Enfermagem. Nesses casos, pode-se dizer que, em relação à REBEn, trata-se do periódico mais antigo da enfermagem, publicado desde 1932, com o nome Anais de Enfermagem, e que constitui um importante meio de divulgação de pesquisas até os dias de hoje.10 Além disso, a revista tem uma sessão dedicada à história, o que contribui para a divulgação frequente de trabalhos na área. No que diz respeito à Escola Anna Nery - Revista de Enfermagem, trata-se de uma publicação da Escola de Enfermagem Anna Nery, na qual foi criado o Núcleo de Pesquisas e Estudos sobre a História da Enfermagem Brasileira (NUPHEBRAS), primeiro núcleo de pesquisas cuja temática é a história da enfermagem e que já tem certa "tradição" em pesquisa nessa área.

Como a maioria dos outros periódicos brasileiros tem temáticas específicas para cada publicação, a história da enfermagem fica restrita aos números relacionados a essa temática, o que, de certo modo, é bom, por reunir diferentes assuntos e abordagens em um mesmo exemplar, facilitando a busca e leitura dos interessados, que podem fazer comparações e conhecer diferentes aspectos da história; mas, por outro lado, limita as publicações históricas a certos períodos, sem uma regularidade em relação ao tema, o que pode contribuir para menor interesse dos leitores e pesquisadores no desenvolvimento de pesquisas relacionadas à história da enfermagem.

Ficou evidenciado também, pela análise dos artigos, que alguns autores foram os responsáveis por grande parte das publicações em história da enfermagem, ou seja, um grupo pequeno e regular de autores publica muito, enquanto outros autores possuem apenas um artigo relacionado ao tema, como ilustrado a seguir, no FIG. 1.

 

 

Ao analisar esse dado, o resultado foi: 80% dos autores envolvidos nas publicações possuem apenas um artigo publicado, 16% possuem de dois a quatro artigos publicados, 2% possuem entre cinco a dez artigos publicados e 2% possuem acima de dez artigos.

Cabe evidenciar que, ao analisar os autores com cinco ou mais publicações, é possível perceber que a maioria deles está vinculada a grupos de pesquisa que possuem história da enfermagem como uma de suas linhas de pesquisa e, além disso, são líderes desses grupos.11

Os autores que publicaram entre cinco e dez artigos são: Antonio José Almeida, Estelina Souto do Nascimento, Gertrudes Teixeira Lopes, Maria Cristina Sanna, Maria da Luz Barbosa Gomes, Miriam Susskind Borenstein e Wellington Mendonça Amorim. Já aqueles que apresentaram mais de dez artigos publicados no período foram: Ieda de Alencar Barreira, Suely de Souza Baptista, Taka Oguisso, Maria Itayra Padilha e Tânia Cristina Franco Santos. É importante evidenciar que outros autores publicaram trabalhos relacionados à história da enfermagem, mas muitos artigos publicados pertencentes a pesquisas históricas no período delimitado do estudo não fizeram parte deste estudo dado o fato de não possuírem História da Enfermagem como um de seus descritores. Portanto, cabe aqui um alerta aos pesquisadores/orientadores quanto à necessidade de utilizar o descritor História da Enfermagem em suas produções, pois, com isso, possibilitarão maior socialização do conhecimento na área. Essa foi, aliás, uma das orientações dos pesquisadores salientada, em 2008, no Sexagésimo Congresso Brasileiro de Enfermagem, na reunião de pesquisadores de enfermagem.12

Buscando o estado de origem aos quais os grupos de pesquisa dos autores com maior índice de publicações pertencem, foi encontrado: sete são de grupos do Rio de Janeiro, dois de São Paulo, dois de Santa Catarina e um de Minas Gerais. Com exceção do grupo mineiro, que é vinculado à Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), todos os grupos dos quais esses autores fazem parte são vinculados a universidades federais.

Os grupos de pesquisa em enfermagem registrados no CNPq, segundo o último senso de 2006, totalizam 331, dos quais 37 (11%) possuem como uma de suas linhas de pesquisa a história da enfermagem, ao passo que 294 (89%) não trabalham com esse tema.11

De acordo com o ano de formação dos grupos que têm a história da enfermagem como linha de pesquisa, é possível perceber um considerável crescimento após o reconhecimento dessa linha pela CAPES em 2000. Até 2000, existiam 15 grupos formados; a partir desse período, os demais se formaram ou incluíram essa linha de pesquisa nos trabalhos do grupo. Esses grupos são os grandes responsáveis pela maioria das publicações na área. Mas, se considerarmos em relação ao total de grupos, o número ainda é pequeno, ou seja, a história da enfermagem não constitui um objeto de interesse da maior parte dos pesquisadores de enfermagem.

Com relação às publicações de artigos com descritor História da Enfermagem, por ano, a trajetória dessas publicações é ilustrada a seguir, no FIG. 2.

 

 

Analisando as publicações de artigos com descritor História da Enfermagem no período proposto, é possível verificar que, a partir de 2000, quando foi reconhecida como linha de pesquisa, houve crescimento das publicações. Em 2001, ocorreu um aumento considerável das publicações; de 2002 a 2004, continuou-se publicando, porém, ocorreu um declínio da quantidade de publicações. Em 2005, o número de publicações elevou-se novamente. De 2006 a 2007, ocorreu um declínio. Em 2008, novamente começou a elevar-se o número de publicações.

Com base nos dados apresentados, é possível perceber que ocorreu um aumento considerável das publicações em 2001 e 2005. Pode-se inferir que esse aumento deveu-se a duas revistas que lançaram edições referentes à história da enfermagem. Foram elas: Revista Brasileira de Enfermagem, que, em razão das comemorações dos 75 anos da Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn), em 2001, publicou um número cuja temática foi "História da ABEn"; e, em 2005, a Revista Texto & Contexto Enfermagem lançou"A história da enfermagem e saúde", em homenagem aos dez anos da criação do Grupo de Estudos de História do Conhecimento da Enfermagem (GEHCE), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina. Apesar de uma queda na produção histórica, é importante ressaltar que, em 2002, a REBEn também lançou um número específico sobre história, dando oportunidade para publicação na área nesse ano.

 

A PESQUISA HISTÓRICA EM ENFERMAGEM E SUAS TEMÁTICAS

Com base nos trabalhos de pesquisa referentes à história da enfermagem e publicados em periódicos nacionais no período deste estudo, foi possível tecer algumas considerações relacionadas ao desenvolvimento da pesquisa histórica em enfermagem e suas principais áreas de interesse, tendo como referência as temáticas propostas por Barreira e Baptista, relacionadas à produção histórica profissional, organizacional e assitencial.1

No que diz respeito às temáticas encontradas, foi possível perceber que existe predomínio na produção histórica profissional, seguida das temáticas organizacional e assistencial, além de alguns artigos que não se enquadram em nenhuma delas, como pode se rpercebido no gráfico FIG. 3.

 

 

Dos 212 artigos analisados, com maior proporção - 52%, que correspondem a 112 artigos -, está a temática profissional, composta, principalmente, por artigos que discorrem sobre as entidades de classe no processo da institucionalização da enfermagem, histórias de vida, raízes da identidade profissional, a formação da comunidade de enfermagem e o processo de cientifização do saber. Em seguida, com 31%, que correspondem a 65 artigos, está a temática organizacional, na qual aparecem com maior frequência publicações sobre a trajetória de escolas, a organização do trabalho de enfermagem nos serviços de saúde e a enfermeira na administração da assistência, do ensino e pesquisa interdisciplinar. A terceira temática, com 13% das publicações, que correspondem a 27 artigos, se relaciona à área assistencial. Nessa, há o predomínio de publicações sobre configurações da prática da enfermagem no tempo e no espaço. Existem, ainda, os artigos que não se enquadram em nenhuma das temáticas citadas, porém, dada a diversidade de assuntos abordados, não foi possível sugerir nova categoria, então, estes foram agrupados em "Outras produções históricas", composta por oito artigos, representando 4% do total de artigos encontrados.

Assistencial

Os estudos históricos produzidos na temática assistencial abordam, de diversas maneiras, a prática da enfermagem, dentre os quais são muito frequentes os que tratam da configuração da prática no tempo e no espaço, ou seja, analisam a atuação do enfermeiro em diversos espaços e diferentes momentos - por exemplo, em guerras, tais como Primeira e a Segunda Guerra Mundial, principalmente por meio da análise de conteúdo fotográfico e depoimentos de enfermeiras que participaram dessas guerras. Esses estudos correspondem a 37% da produção na temática assistencial e abordam, de algum modo, a comunicação e a atuação da enfermagem nos espaços de guerra, demonstrando a importância de sua intervenção social, que levou também à afirmação da enfermagem moderna.

Outra abordagem muito frequente nos artigos da temática assistencial presente em 33% das publicações é a prática da enfermagem psiquiátrica, extremamente vinculada à divulgação da história psiquiátrica brasileira na primeira metade do século XX, a qual foi fundamentada em um modelo asilar, de segregação e exclusão social, e a necessidade de adoção de nova prática baseada nos princípios da Reforma Psiquiátrica.

A história da prática também é um assunto ressaltado nas publicações da temática assistencial, correspondendo a 11%, nas quais se percebe o reforço dado à associação entre enfermagem e religião, principalmente no que diz respeito aos aspectos relacionados à submissão e à obediência das religiosas no desenvolvimento das atividades de enfermagem.

O fato de vários pesquisadores ter dedicado seus trabalhos à psiquiatria pode estar relacionado a um importante marco na história da enfermagem brasileira, que foi a criação da primeira escola de enfermagem no Brasil, a Escola Profissional de Enfermeiros e Enfermeiras, cuja finalidade era preparar profissionais para atuar em hospícios e hospitais civis e militares.13 A escola funcionava nas dependências do Hospício Nacional dos Alienados e, anteriormente à criação da escola, a assistência de enfermagem era realizada, principalmente, por religiosas, fato que contribui, também, para compreensão da expressiva associação da religião com a enfermagem nos artigos constituintes dessa temática.

Alguns autores realizaram outro tipo de abordagem na temática assistencial, referente aos impactos das tecnologias na prática da enfermagem, correspondendo a 11% das publicações na área. Desses 11%, é possível verificar que 67% analisam as práticas decorrentes dos novos modelos de prestação de serviços de saúde e discutem as implicações das mudanças trazidas pelas tecnologias na construção, organização e funcionamento dos hospitais; e 33%, seguindo basicamente a mesma linha, registraram suas considerações referentes à influência das tecnologias no trabalho da enfermagem.

O ensino da assistência, conteúdos e estratégias também estão presentes nesta temática assistencial, possibilitando reflexões para a aquisição de consciência crítica e realização de modificações que influenciarão na formação de futuros profissionais, representando 8% das publicações na temática.

Após a análise dos artigos que compõem estatemática, foi possível perceber que, ainda que esta seja representada pelo menor número de artigos publicados, existem diferentes vertentes abordadas, e o que predomina nas publicações são associações clássicas da história da enfermagem relacionadas à assistência, à psiquiatria, à religiosidade e às guerras.

Organizacional

As publicações em história da enfermagem encontradas pela delimitação desta pesquisa na temática organizacional são compostas por várias vertentes. São elas, seguidas de suas proporções: a organização do trabalho de enfermagem nos serviços de saúde - 10%; escolas de enfermagem - 39%; enfermeiro na administração da assistência, do ensino e da pesquisa - 16%; história das doenças e da prática - 25%; atuação da enfermagem nos programas nacionais de saúde - 8%; e a enfermagem nos hospitais modelares - 2%.

A organização do trabalho de enfermagem nos serviços de saúde é um assunto presente nas publicações, correspondendo a 10% das produções organizacionais. Nesta vertente, as publicações apresentam análise das diferentes formas de organização e gestão de serviços de saúde pela enfermagem, abordando diferentes espaços da prática.

Nesta temática, 39% das publicações estão relacionadas às escolas de enfermagem. Desses 39%, é possível inferir que 76% dos textos apresentam alguns eventos, acontecimentos e aspectos relativos à trajetória das escolas de enfermagem no Brasil. Além desses, ainda nos 39%, existem estudos que retratam trajetórias, porém, de cursos de Pós-Graduação em Enfermagem, que representam 8%. Ainda nesta mesma vertente, alguns autores realizaram publicações relacionadas a escolas, mas que não lhes retratam a trajetória, representando 16% das publicações sobre escolas de enfermagem. São os estudos que caracterizam o perfil dos alunos diplomados que descrevem a emergência do movimento estudantil a partir da criação de Diretórios Acadêmicos, que fazem levantamentos para verificar a expansão dos cursos superiores de enfermagem no País, e, ainda, que comparam o número de cursos vinculados a instituições públicas e privadas.

A atuação do enfermeiro nos programas nacionais de saúde em diferentes espaços também é significativa nas publicações da temática organizacional, representando 8%. Alguns autores direcionaram suas pesquisas para analisar a inserção dos serviços de enfermagem nos hospitais modelares, correspondendo a 2% das publicações. Outra vertente encontrada na temática organizacional, representando 25% das publicações nesse sentido, é a que discute sobre a história da doença e da prática.

Desse modo, é possível perceber que a quantidade de publicações que tratam da temática organizacional é ampla, permitindo vários campos de publicação na mesma área. Mas, mesmo com a diversidade de assuntos abordados nesta temática, um assunto de grande relevância e muito publicado, dada sua inseparabilidade da história, é a trajetória das escolas de enfermagem.

Profissional

A produção científica da temática profissional compreende uma variedade de vertentes, mas existem algumas que estão presentes com maior frequência nas publicações - por exemplo, história de vida. Vários autores, representantes de 26% da produção nesta temática, dedicaram sua escrita a dados biográficos e à análise da trajetória de vida de importantes personagens que contribuíram de alguma forma para o desenvolvimento da enfermagem brasileira, descrevendo ou analisando as lutas e conquistas de determinadas personagens da enfermagem brasileira e o significado de sua contribuição para enfermagem.

Outra vertente bastante frequente nas publicações relaciona-se às entidades de classe da enfermagem, correspondente a 33% do produzido nesta temática. Nos estudos publicados, busca-se compreender a trajetória e a contribuição das entidades para a formação da imagem cultural da profissão do enfermeiro. Os estudos sobre as entidades representativas da enfermagem são de cunho histórico-político-social, buscam reconstruir a trajetória dessas instituições, o contexto no qual foram criadas e seus principais marcos, tais como implantação e desenvolvimento. As publicações estão relacionadas a diferentes regiões brasileiras e a maior parte está relacionada à Associação Brasileira de Enfermagem, principalmente pelo fato de, em 2001, a ABEn ter completado 75 anos e ter publicado uma edição especial para abordar o tema, que acabou por englobar história da enfermagem.

Ainda nesta temática, outros autores publicaram artigos sobre ensino e pesquisa em história da enfermagem, o que corresponde a 11% dos artigos. Nessas publicações percebe-se uma grande tendência em demonstrar o significado da construção do saber em história da enfermagem para ampliação do espaço dos pesquisadores e fortalecimento da categoria.

Em outros estudos, 13% os autores preocuparam-se em difundir uma filosofia de preservação da memória da enfermagem, sendo essas publicações relacionadas a Centros de Memória. Para isso, em suas publicações apresentaram critérios de organização, preservação, composição e sistematização do acervo documental, processos de reorganização de Centros de Memória. A intenção com esses artigos é expor a necessidade de resgatar e preservar a história e a memória da categoria.

Na temática profissional, encontramos, também, publicações sobre a formação da comunidade de enfermagem e raízes da profissão, representando 10% dos artigos que compõem esta temática.

Existem, ainda, artigos relacionados à história do cuidado e das cuidadoras que trazem reflexões sobre a história da enfermagem em um contexto político, econômico, cultural, geográfico e social, totalizando 7% das publicações na temática. Alguns desses focalizam a questão do gênero na construção histórica da enfermagem, enfatizando a predominância feminina na profissão.

De uma forma menos expressiva, está presente na produção da temática profissional a vertente valorização do conhecimento científico, com 3% das publicações. Nos estudos que discorrem sobre esse assunto abordase a questão da valorização do conhecimento científico relacionada à história, portanto a análise inicia-se com a enfermagem empírica, desvinculada do saber científico, passa pelo período de atuação de Florence Nightingale, no qual se inicia a valorização do conhecimento científico, e chega até os dias atuais.

A produção histórica profissional é a temática verificada, neste estudo, como de maior frequência nas publicações no período pesquisado. Isso se deve, principalmente, ao fato da grande preocupação dos pesquisadores em história da enfermagem quanto ao reconhecimento e valorização da profissão. Disso surge a necessidade de divulgar como se deu a formação da comunidade de enfermagem, as raízes da profissão, a institucionalização das entidades de classe e o desenvolvimento do ensino e da pesquisa.

Outras produções históricas

Além das temáticas abordadas, foram encontradas algumas publicações que, apesar de possuírem como descritor História da Enfermagem, não se enquadraram em nenhuma das correntes existentes até então.

Essas publicações discorrem sobre produção científica de Enfermagem Hospitalar, espaço representativo de difusão nacional do saber da área, trajetória histórica das produções sobre administração, trajetória da produção científica dos enfermeiros sobre Educação em Enfermagem, compreensão dos pontos de convergência dos congressos brasileiros de enfermagem e a forma como se apresentam na produção do conhecimento em enfermagem. Em algumas publicações, ainda, analisou-se o contraponto entre algumas ideias dos personagens centrais dos congressos brasileiros de enfermagem e dos editoriais das revistas brasileiras de enfermagem, trabalhou-se o resgate histórico das primeiras Semanas de Enfermagem no Brasil e identificou-se, na interface entre filosofia e literatura, como o corpo aparece na trama contemporânea.

Dos assuntos abordados, alguns são "outras possibilidades de publicação em história da enfermagem", ainda pouco explorada. Apesar de serem relevantes para a história, é pouca a preocupação dos autores em realizar estudos que analisem a trajetória de produções científicas, congressos de enfermagem e Semana de Enfermagem.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante do exposto, ficou evidenciado que houve aumento das publicações com o reconhecimento da história da enfermagem como linha de pesquisa, porém as publicações ainda continuam concentradas em uma mesma temática - a profissional. E, apesar de ter-se elevado o número de publicações, a quantidade de autores que publicam sobre o tema continua reduzida, ou seja, continua pequeno o interesse pela história da enfermagem entre os pesquisadores enfermeiros. Nesse sentido, o desenvolvimento de pesquisas relacionadas à história da enfermagem ainda precisa ser mais incentivado e valorizado, permitindo que um número cada vez maior de pesquisadores realize trabalhos nessa área.

Em relação ao período analisado, ou seja, de 2000 a 2008, foi possível perceber a elevação das publicações, principalmente em 2001 e 2005. Mas, por que esses "altos e baixos"? O que falta à história da enfermagem para que ela se consolide como um campo de saber em enfermagem e possa ser discutida por um número cada vez maior de pesquisadores?

É preciso publicar e incentivar publicações relacionadas à história da enfermagem, principalmente por meio dos grupos de pesquisa e com a inserção de novos pesquisadores. Também é importante ressaltar a necessidade de utilização do descritor História da Enfermagem nas publicações, para melhor reconhecimento dos estudos sobre o tema e valorização dessa linha de pesquisa. Assim, acreditamos que o desenvolvimento da pesquisa nesta área pode evidenciar diferentes aspectos do passado e nos permitir refletir sobre o momento atual da profissão.

 

REFERÊNCIAS

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12. CBEn. Congresso Brasileiro de Enfermagem, 60. Belo Horizonte; 2008. (Reunião de pesquisadores de enfermagem).

13. Oguisso T. Trajetória histórica e legal da enfermagem. Barueri: Manole; 2005.

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