REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 17.1 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20130015

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Pesquisa

Avaliação da implementação de novo protocolo de higiene bucal em um centro de terapia intensiva para prevenção de pneumonia associada à ventilação mecânica

Evaluation of the implementation of new protocol of oral hygiene in an intensive care center for prevention of pneumonia associated with mechanical ventilation

Alessandra Figueiredo de Souza1; Aneliza Ceccon Guimarães2; Efigênia Ferreira e Ferreira3

1. Enfermeira. Cirurgiã-dentista. Especialista em Microbiologia. Residente Multiprofissional de Odontologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. Belo Horizonte, MG - Brasil.
2. Cirurgiã-dentista. Residente Multiprofissional de Odontologia do Hospital das Clínicas da UFMG. Belo Horizonte, MG - Brasil.
3. Cirurgiã-dentista. Professora Associada da Faculdade de Odontologia da UFMG. Belo Horizonte, MG - Brasil.

Endereço para correspondência

Alessandra Figueiredo de Souza
E-mail: alessandrafigs@yahoo.com.br

Submetido em: 16/02/2012
Aprovado em: 07/11/2012

Resumo

A pneumonia associada à ventilação mecânica (PAVM) é uma das infecções hospitalares mais prevalentes na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). Dentre os fatores de risco, destacam-se as microaspirações de microrganismos da orofaringe. A estratégia para prevenção da PAVM foi a criação do bundle da ventilação. Nem todas as estratégias, porém, estão incluídas no bundle - por exemplo, a higiene bucal. O objetivo com este trabalho foi avaliar os procedimentos de higiene bucal na prevenção da PAVM. Foram avaliados os dados secundários da comissão de controle de infecção hospitalar entre 2008 e 2011, apresentados por frequência de ocorrência, bem como a percepção dos profissionais de saúde na UTI sobre a implantação do protocolo de higiene bucal. Após assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), foi aplicado um questionário. A pneumonia foi a principal causa de infecção no CTI, de 2008 a 2010. Em 2011, após a implantação do bundle, a pneumonia deixou de liderar como a mais frequente. Em números percentuais, a redução de pneumonia após a implantação do bundle até a incorporação do protocolo de higiene bucal variou de 33,3% para 3,5%. Sobre a percepção dos profissionais sobre a inserção da odontologia na UTI, 56 profissionais responderam ao questionário, citando a higiene bucal como a segunda medida mais importante. Cem por cento dos profissionais responderam que eram favoráveis à inserção do dentista na UTI. A vasta literatura existente evidencia a eficiência do protocolo de higiene bucal na prevenção de PAVM. Recomenda-se, portanto, a inserção dessa medida no bundle.

Palavras-chave: Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica; Higiene Bucal; Clorexidina.

 

INTRODUÇÃO

O avanço das pesquisas científicas na área da saúde evidencia um novo paradigma, fortalecendo a inter-relação das doenças bucais, em especial a periodontal, com outras sistêmicas, disponibilizando formas de tratamento eficazes aos médicos e cirurgiões-dentistas. A medicina periodontal correlaciona essa enfermidade às condições sistêmicas, como: aterosclerose, infarto agudo do miocárdio, nascimento prematuro de bebês e com baixo peso ao nascimento e principalmente problemas respiratórios.1

A pneumonia associada à ventilação mecânica (PAVM) é uma das infecções hospitalares mais prevalentes nas unidades de terapia intensiva (UTI), com taxas que variam de 9% a 40% das infecções adquiridas nesta unidade, e está associada a um aumento no período de hospitalização e índices de morbimortalidade, repercutindo de maneira significativa nos custos hospitalares.2-10 A pneumonia permanece como uma das principais causas de morte em todo o mundo, estando entre as cinco mais frequentes em pessoas acima de 65 anos nos Estados Unidos (EUA).11 As taxas de mortalidade dessas infecções podem variar de 24% a 76% dos casos, especialmente quando a pneumonia está associada à Pseudomonas spp. ou Acinetobacter spp. Pacientes sob ventilação mecânica internados em Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) apresentam um risco 2-10 vezes maior de morte que pacientes sem ventilação12, gerando aumento no tempo de hospitalização, em média, de quatro a nove dias.13

A PAVM se desenvolve 48-72 horas a partir do início da ventilação mecânica (VM), sendo considerada até 48 horas após a extubação.2 A PAVM também é classificada em precoce (que ocorre até o quarto dia de intubação e início da VM) e tardia (que se inicia após o quinto dia da intubação e VM).12

Segundo o Center for Disease Control (CDC), a PAVM é uma infecção pulmonar hospitalar que incide em pacientes em ventilação mecânica, para os quais a infecção não é a razão do suporte ventilatório. O diagnóstico de PAVM baseia-se na combinação de critérios radiológicos, clínicos e laboratoriais. A pneumonia é considerada associada à ventilação no momento ou nas 48 horas antecedentes ao início do quadro infeccioso.14

Os principais fatores de risco para o desenvolvimento de pneumonias nosocomiais são: idade acima de 70 anos, desnutrição, doenças de base, depressão do nível de consciência, doenças pulmonares e cardiológicas, uso de sondas ou de cânula nasogástrica, suporte nutricional enteral, posição do paciente e a elevação insuficiente da cabeceira, ventilação mecânica, intubação (presença do tubo orotraqueal) ou reintubação orotraqueal, traqueostomia, macro ou microaspiração de secreção traqueobrônquica, uso prévio de antimicrobianos, broncoscopia e broncoaspiração de microorganismos da orofaringe.12 Pode-se mencionar, ainda, que os fatores de risco citados acima como o suporte nutricional enteral, a posição do paciente e a elevação insuficiente da cabeceira, o tubo orotraqueal e a ventilação mecânica aumentam o risco de pneumonia em 6-21 vezes.12

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos considera, além, da aspiração de patógenos que colonizam a orofaringe, a inalação de aerossóis que contêm bactérias, a transmissão hematogênica por partes distantes do corpo e a translocação bacteriana do trato gastrointestinal, sendo considerada a principal a microaspiração de microrganismos da orofaringe.14

A cavidade bucal sofre colonização contínua, e a placa bacteriana serve de reservatório permanente de microrganismos.12 Existem vários relatos e evidências que associam a colonização microbiana da orofaringe e da placa dental à PAVM.15-19

Estudos mostram que há alta colonização de patógenos respiratórios no biofilme bucal de pacientes institucionalizados em UTI, onde 70% dos microrganismos pesquisados foram encontrados no biofilme bucal e 63,33%, na língua.16

A precariedade da higiene bucal e diversos fatores adicionais, como a diminuição da limpeza natural da boca promovida pela mastigação de alimentos duros e fibrosos, a movimentação da língua e das bochechas durante a fala, a redução do fluxo salivar pelo uso de alguns medicamentos, contribuem para o aumento do biofilme, com o tempo de internação favorecendo a colonização bucal de patógenos respiratórios e com maior resistência aos antimicrobianos.18,12

Esses pacientes, na maioria das vezes, não possuem uma higienização bucal adequada, possivelmente pela ausência do relacionamento entre a odontologia/enfermagem e pelo desconhecimento de técnicas adequadas pelas equipes assistenciais da terapia intensiva, realidade esta que favorece a colonização da orofaringe.20 As razões apresentadas pela equipe atuante para o déficit de higiene bucal nos pacientes em unidade de terapia intensiva, geralmente, são a falta de profissional odontólogo no setor, a carência de conhecimento quanto às patologias odontológicas e quanto à realização do procedimento, a indisponibilidade de tempo para execução da prática e as limitações físicas apresentadas pelo paciente.21

A clorexidina foi usada pela primeira vez, na odontologia, em 1959. Os primeiros estudos sobre sua ação no controle da placa dental foram realizados em 1969 e 1970 por Löe e Schiott.22 A solução aquosa de clorexidina possui amplo espectro de ação, agindo sobre bactérias gram-positivas, gram-negativas, fungos, leveduras e vírus lipofílicos.23,24 Apresenta uma substantividade de 12 horas.23 É comumente utilizado como solução aquosa na concentração de 0,12% por duas vezes ao dia23-25 e autorizada pela Food and Drug Administration (FDA).26 A solução de clorexidina reduz, na saliva, 80%-90% de microrganismos, além de inibir o crescimento de leveduras e bactérias entéricas.26

Na aplicação da clorexidina em pacientes por um período de dois anos, não se detectou mudança ou redistribuição da população microbiana salivar.26 A clorexidina, até o momento, apresentou baixa evidência de toxicidade sistêmica em seres humanos, além de não produzir qualquer resistência apreciável dos microrganismos da boca; também não tem sido associada a quaisquer alterações teratogênicas.26 É eliminada quase totalmente pelas fezes, segundo testes toxicológicos realizados. A quantidade mínima absorvida pelo trato gastrointestinal é eliminada pelos rins e pelo fígado.26

A estratégia para a prevenção de pneumonia associada à ventilação mecânica foi a criação de um protocolo de medidas baseadas em evidências que, quando implementadas em conjunto para todos os pacientes em ventilação mecânica, resultam em reduções significativa na incidência de pneumonia associada à ventilação, denominada bundle da ventilação.27

O bundle de prevenção de pneumonia associado à ventilação mecânica possui quatro componentes principais: a elevação da cabeceira da cama entre 30 e 45 graus; a interrupção diária da sedação e a avaliação diária das condições de extubação; a profilaxia de úlcera péptica (úlcera de stress); e a profilaxia de trombose venosa profunda (TVP) (a menos que contra indicado).27

Nem todas as estratégias terapêuticas possíveis estão incluídas no bundle - por exemplo, a higiene bucal. Na escolha de quais intervenções adotar, deve-se considerar uma série de fatores, como custo, facilidade de implementação e comprovada aderência às medidas preventivas mais básicas em primeira instância.27

Em vários estudos já se avaliou a eficácia da higiene bucal e do controle do biofilme bucal na prevenção das pneumonias nosocomiais.1-7, 28-30 Por esse motivo, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomenda, em sua RDC nº 7, de 24 de fevereiro de 201031, que dispõe sobre os requisitos mínimos para funcionamento de Unidades de Terapia Intensiva, que todo paciente deve receber assistência integral e interdisciplinar. Dentre elas, as assistências farmacêutica, psicológica, fonoaudiológica, social, nutricional, de terapia nutricional enteral e parenteral, a terapia ocupacional e odontológica devem estar integradas às demais atividades assistenciais prestadas ao paciente, sendo discutidas pela equipe multiprofissional.

A prevenção da pneumonia associada à ventilação mecânica justifica-se pelo seu impacto, sendo considerada a principal causa de óbito entre as infecções hospitalares. Proporciona, também, o aumento do tempo de ventilação mecânica; o aumento do tempo de permanência na UTI, e consequentemente o tempo de permanência no hospital depois da alta da UTI, e pelo auto custo de internação hospitalar.3,4,6,7,8,27

O objetivo da investigação foi avaliar os procedimentos de higiene bucal associados a um agente químico na prevenção de pneumonia associada à ventilação mecânica, na unidade de terapia intensiva (UTI) de um hospital ligado ao sistema público de saúde em Belo Horizonte-MG.

 

METODOLOGIA

A instituição onde foi realizada a pesquisa caracteriza-se por ser um hospital público, com parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), evidenciando um campo privilegiado para a ampliação e a qualificação das atividades de ensino e pesquisa.32

A inserção da odontologia no Centro de Tratamento Intensivo (CTI) do referido hospital ocorreu em abril de 2010, por meio de um programa de Residência Multiprofissional, com área de concentração em saúde do idoso.

Dentre as primeiras atividades desenvolvidas pela odontologia no CTI, foi realizado um levantamento de lesão de mucosa e higiene bucal de todos os pacientes internados no setor. Isso deu origem à necessidade de adequação do protocolo de higiene bucal utilizado pela instituição. O novo protocolo foi baseado no protocolo desenvolvido por Souza et al.33 Além de acertos no método de higiene bucal, incluiu a substituição da solução utilizada (cloreto de cetilpiridino a 0,05%) pela solução aquosa de clorexidina a 0,12% para uso odontológico. Após a aprovação do hospital e da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) sobre a utilização da clorexidina a 0,12%, foi realizada a capacitação dos profissionais de enfermagem quanto ao novo protocolo de higiene bucal. Participaram do treinamento 89 profissionais, entre enfermeiros e técnicos de enfermagem. Simultaneamente, solicitou-se ao setor de compras do hospital a aquisição da solução determinada no protocolo. A farmácia definiu a forma de dispensação e o armazenamento do produto. O processo foi monitorado pelo profissional da odontologia desde a revisão do protocolo até sua implantação e as adequações finais necessárias.

O hospital atende a um perfil de pacientes adultos e possui três Centros de Tratamento Intensivo (CTIs) e o Poli 10, cujo, ambiente tem características de um CTI. Os pacientes internados nessa sala aguardam liberação de leitos no Centro de Terapia Intensiva da Instituição.32 Os três CTI's e o Poli 10 possuem 35 leitos. Todos os pacientes internados no CTI e no Poli 10 receberam a técnica de higiene bucal preconizada no novo protocolo de higiene bucal a partir de 12 de agosto de 2010.

Foi adotado como critério de inclusão ser paciente admitido em um dos três CTI's e Poli 10. Foram excluídos da pesquisa os pacientes internados nas enfermarias, na maternidade e no pronto atendimento do referido hospital.

Após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) sob o Parecer nº0471.0.203.000-11, conforme a Resolução nº 196, de 10 de outubro de 1996, e autorização do Comitê de Ética em Pesquisa da referida instituição hospitalar, o estudo foi realizado com o intuito de avaliar a inserção da equipe da odontologia de um programa de Residência, visando à influência da implantação do novo protocolo de higiene bucal com clorexidina a 0,12% no bundle de prevenção de pneumonia associada à ventilação mecânica implantado pela equipe médica e de enfermagem, no CTI e no Poli 10, desde maio de 2010.

O estudo constou de duas etapas: na primeira, realizou-se a avaliação de dados secundários coletados pela Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) do hospital (2008, 2009 e 2010); na segunda, avaliou-se a percepção dos profissionais de saúde em exercício no CTI, tais como médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e técnicos de enfermagem, bem como os profissionais interconsultores do CTI - como a fonoaudiologia, a farmácia, a nutrição, a terapia ocupacional e apsicologia - sobre a implantação do novo protocolo de higiene bucal.

Após assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), foi aplicado um questionário a esses profissionais. Os dados foram analisados e apresentados por frequência da ocorrência.

 

RESULTADOS

Entre janeiro de 2008 e outubro de 2011, 3.984 pacientes estiveram internados no CTI por pelo menos um dia de internação. Desses, 1.360 (34%) evoluíram com 1.795 infecções associadas à assistência. Pode-se constatar uma média de um novo caso de infecção por dia aproximadamente, um em cada três pacientes.34

O hospital apresenta uma taxa de mortalidade variável, provavelmente em decorrência da alta complexidade e do nível de gravidade dos pacientes que são admitidos e avaliados pelo APACHE II, cujo indicador avalia o índice de gravidade dos pacientes em CTI baseando-se em variáveis clínico-laboratoriais, idade e doença crônica nas primeiras 24 horas, transformando os pontos em probabilidade de óbito.35 Em 2010, a média do score APACHE II foi de 28 pontos e em 2011, 27 pontos, representando uma chance de mortalidade média de 55%. No Figura 1 mostra-se a variação da taxa de mortalidade.

 


Figura 1 - Taxa de mortalidade no CTI.
Fonte: CCIH - Hospital Risoleta Tolentino Neves, 2011.

 

O desfecho do tratamento do paciente pode influenciar nas taxas de permanência hospitalar, principalmente se o paciente evoluir ao óbito. Observa-se variação dessas taxas conforme a taxa de mortalidade também oscila. (Figura 2).

 


Figura 2 - Taxa de permanência no CTI.
Fonte: CCIH - Hospital Risoleta Tolentino Neves, 2011.

 

Na Tabela 1, mostra-se, de forma geral, as principais infecções que os pacientes internados nesse serviço desenvolveram no período de 2008 a 2011 (jan./out.), sendo a pneumonia a principal causa de infecção no CTI em 2008, 2009 e 2010. Por se tratar de uma infecção grave com alta taxa de morbimortalidade e altos custos hospitalares, surgiu a necessidade de criar medidas de intervenção para modificar essa tendência.

 

 

O paciente internado nesse hospital vinha apresentando uma taxa de 35% em relação ao risco de evoluir com uma infecção associada à assistência após a internação no CTI ao longo dos três últimos anos. A principal medida adotada pelo hospital foi a implantação do bundle de prevenção de pneumonia associada à ventilação mecânica, liderada pelo Institute for Healthcare Improvement (IHI)27, visando melhorar a qualidade da assistência à saúde.

O bundle de prevenção de pneumonia associada à ventilação mecânica foi implantado pela equipe médica e de enfermagem, no hospital, em maio de 2010, praticamente após a inserção da odontologia no CTI.

Em meio a esse processo, a odontologia realizou a adequação do protocolo de higiene bucal e o treinamento dos profissionais de enfermagem (enfermeiros e técnicos de enfermagem) quanto ao novo protocolo. A implantação do novo protocolo de higiene bucal ocorreu em agosto de 2010, como parte integrante do bundle de prevenção de pneumonia, contribuindo para a redução dos indicadores de pneumonia associada à ventilação mecânica.

A redução dos indicadores de pneumonia impactou de forma direta entre as infecções diagnosticadas no CTI. Em 2011, as infecções da corrente sanguínea assumiram a liderança como a principal infecção do CTI. (Tabela 1).

Em 12 de agosto, o protocolo de higiene bucal entrou em vigor, complementando as medidas contempladas no bundle, ocasionando mais uma redução significativa das taxas de pneumonia (Figura 3). Em números percentuais, essa redução de pneumonia, após a implantação do bundle até a incorporação do protocolo de higiene bucal, variou de 33,3% para 3,5%.

 


Figura 3 - Incidência de infecções de pneumonia no CTI de jan./nov. 2010.
Fonte: CCIH - Hospital Risoleta Tolentino Neves, 2011.

 

A eficácia das medidas implantadas nesse serviço só foi possível mediante a integração de toda a equipe assistencial responsável pelo cuidado do paciente gravemente enfermo.

As evidências da diminuição da incidência da pneumonia no último ano até os dias atuais estão registradas no Figura 4, que representa a densidade de incidência de pneumonia.

 


Figura 4 - Densidade de incidência de pneumonia no CTI (2008 a 2011): análise global, incluindo casos não associados a procedimentos invasivos.
Fonte: CCIH - Hospital Risoleta Tolentino Neves, 2011.

 

O questionário aplicado aos profissionais que atuam no CTI para a avaliação da inserção da odontologia no CTI em 2010 no referido hospital foi respondido por 56 profissionais após terem lido e assinado o TCLE. O resultado foi das categorias que responderam: 3% da medicina, 23% da enfermagem, 7% da fisioterapia, 2% da nutrição, 2% da psicologia, 4% da farmácia, 7% da fonoaudiologia, 9% da terapia ocupacional e 43% de técnicos de enfermagem.

Em relação ao conhecimento dos profissionais sobre o índice de infecção hospitalar, 82% dos entrevistados responderam que estavam informados, apenas 9% responderam que não sabiam e 9% não souberam responder. Quando questionados sobre o índice de pneumonia associada à ventilação mecânica, somente 59% responderam que estavam informados sobre os índices, 30% não sabiam dos índices e 11% não souberam responder; 52% relataram que os índices de pneumonia melhoraram, 14% responderam ter piorado e 34% não souberam responder.

Os entrevistados foram questionados sobre o que poderia ter contribuído para a melhoria dos índices de pneumonia, e a maioria não soube responder (29%). Dos que responderam, 27% citaram que o treinamento da equipe e a orientação dos profissionais poderiam ter contribuído para a melhoria dos indicadores, seguidos da higiene bucal (11%), uso de equipamentos de proteção individual (EPI's) e lavagem de mãos (6%), aspiração (5%), cabeceira elevada, dieta oral e vigilância da CCIH, cada um com 2%.

Dos 14% dos entrevistados que responderam que os índices de pneumonia associados à ventilação mecânica pioraram apontaram como principais responsáveis a falta de informação dos profissionais (11%), problemas relacionados com a aspiração (5%), dada a maior gravidade do paciente, maior tempo de ventilação mecânica; o uso de antimicrobianos (3%); e 2% responderam que havia falta de assistência da fisioterapia. Quanto à atuação da odontologia na implantação do protocolo de higiene bucal, 62% dos entrevistados responderam que ela contribuiu para a melhoria do índice de pneumonia, 27% dos entrevistados não souberam dizer, 9% responderam que a odontologia não contribuiu com a redução dos indicadores e 2% deixaram sem resposta.

Em relação à atuação do dentista na prevenção e tratamento de patologias bucais no paciente internado no CTI e sua inserção para completar a assistência integral à saúde do paciente, 100% dos profissionais responderam que eram favoráveis.

 

DISCUSSÃO

A cavidade bucal deve ser vista por todos os profissionais de saúde como parte integrante do corpo e que não deve ser deixada de lado no cuidado do paciente hospitalizado. Ela deve ser tão bem assistida quanto qualquer parte do corpo.

O microambiente oral e a colonização por microrganismos patogênicos são extremamente relevantes na fisiopatologia das pneumonias, principalmente quando o nível de consciência do paciente está rebaixado. Essa condição vai favorecer a microaspiração de secreções da orofaringe, podendo chegar até 70%.12

Em contrapartida, a deficiência da higiene bucal dos pacientes hospitalizados passa a ser um fator de risco para o desenvolvimento das pneumonias. Vários autores relatam que um programa efetivo de higiene bucal contribui sobremaneira na redução dos índices de pneumonia.3-10,33,36

A criação do bundle de prevenção de pneumonia é um grupo de medidas baseado em evidências capazes de, em conjunto, atuar em todos os pacientes em ventilação mecânica resultando em reduções significativas na incidência de pneumonia.27

Neste trabalho, demonstrou-se que a implantação do protocolo de higiene bucal, o bundle de prevenção de pneumonia, em momentos diferentes, pode potencializar a redução dos indicadores de pneumonia associada à ventilação mecânica, sendo, portanto, recomendado sua incorporação no bundle como uma das medidas preventivas e eficazes. Para que isso ocorra, é necessário que os hospitais incorporem em seu corpo clínico o cirurgião dentista, profissional habilitado no reconhecimento de patologias inerentes da cavidade bucal e capaz de avaliar, diagnosticar, tratar e prevenir agravos. A Anvisa recomenda, com grau forte de evidência, a higiene bucal com clorexidina como uma das medidas específicas na prevenção de pneumonia.37

A inserção da odontologia nesse novo cenário de prática já está sendo uma realidade em algumas instituições hospitalares, mesmo que na maioria seja em outras áreas de atuação que não seja o CTI, como na cirurgia bucomaxilofacial, no atendimento a pacientes com necessidades especiais e na oncologia. Com a ampliação da atuação do dentista na prevenção de pneumonia associada à ventilação mecânica, abre-se novo horizonte para o desenvolvimento de novas atividades na alta complexidade, um campo desconhecido para a atuação do cirurgião do dentista.

No questionário, houve diferença na porcentagem das respostas quando os entrevistados foram questionados sobre o que poderia ter contribuído para a melhoria dos índices de pneumonia: 11% citaram a higiene bucal e, na pergunta seguinte, 62% citaram a contribuição da odontologia na implantação do protocolo de higiene bucal para a melhoria do resultado. Isso pode ser justificado pelo viés memória do tempo transcorrido de aproximadamente um ano entre a inserção da odontologia no CTI e da realização do questionário e/ou pelos profissionais que saíram e pelos novos profissionais admitidos nesse serviço.

Na avaliação da inserção da odontologia, nota-se que todos os profissionais de saúde reconhecem a necessidade da presença do dentista nas equipes multidisciplinares como complementação da assistência integral da saúde do paciente.

 

CONCLUSÃO

Neste estudo, mostrou-se que a implantação de um novo protocolo de higiene bucal incorporado às medidas preconizadas pelo bundle de prevenção de pneumonia associada à ventilação mecânica teve um impacto importante e direto na redução dos índices de PAVM.

A incorporação do cirurgião-dentista nas equipes multidisciplinares nos CTI's, portanto, pode ser uma boa estratégia na prevenção de infecções relacionadas à saúde, bem como a complementação da assistência integral do paciente.

Mais estudos devem ser realizados, com tempo maior de acompanhamento, para que a atuação do cirurgião-dentista em uma CTI possa ser otimizada, mantendo-se o desenvolvimento de protocolos de ação sempre mais efetivos.

 

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