REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 17.2 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20130075

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Editorial

A Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais: 80 anos vivenciando a construção de currículos de Enfermagem*

Greetings to the vice-directors of the Federal University of Minas Gerais College of Nursing in its 80 years*

Tânia Couto Machado Chianca

Professora Titular do Departamento de Enfermagem Básica da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais EEUFMG

 

Os 80 anos da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (EEU-FMG) nos leva a refletir sobre sua história, perspectivas, desafios, limites e possibilidades e nos fazem pensar sobre o quanto foi renovada e o quanto precisa trabalhar para formar pessoal capaz de enfrentar a realidade mundial com a qual nos deparamos, com o incrível progresso da ciência e na tecnologia vivenciada desde os idos anos de 1933 às atuais necessidades de adaptação e transformação para atender às demandas de cuidado, de saúde, sociais, ecológicas, econômicas e de valores presentes em nossa sociedade.

Ao fazermos uma viagem na história, temos a sensação de que, apesar de tudo o que foi passado, aprendemos muito, servimos à sociedade e continuamos a contribuir para a formação de pessoal qualificado, em todos os níveis, e para o atendimento de pessoas, famílias e, enfim, comunidades nesse nosso Brasil. No meu entender, nosso grande desafio atual é colaborar com a sociedade e outros profissionais de saúde na garantia de qualidade de vida e de morte dessas comunidades. Precisamos trabalhar para desenvolver capacidades de julgamento e de ações apropriadas para aumentar a qualidade na assistência e na saúde.

Vou centrar na Enfermagem, pois esta tem feito a história, assim como o nome desta Escola de Enfermagem, historicamente construído. Nutrição e Gestão de Serviços de Saúde irão precisar construir a história no cenário da UFMG, até agora no berço que preparamos para eles, mas que eles, certamente, irão galgar seus próprios voos, denominando também suas futuras sedes. Esta Escola e o currículo de Enfermagem tem acompanhado os momentos históricos vividos pela Educação de Enfermagem no Brasil. Esses fatos históricos importantes para a Enfermagem e o trabalho foram divididos por Angerami e Steagall-Gomes1 em quatro. O primeiro mostra as raízes da Enfermagem brasileira quando resgata a influência da Enfermagem norte-americana na implantação da primeira Escola de Enfermagem no Brasil, em 1923. Exigia-se preparo para atendimento à comunidade, privilegiando o cuidado ao indivíduo e à pessoa hospitalizada.1

No segundo, de 1923 a 1970, o país estava se transformando e o nosso currículo lembra o desenvolvimento da Enfermagem em Saúde Pública, com ênfase em programas de Enfermagem nas universidades, de transformações curriculares e de drásticas mudanças no Sistema de Saúde. Nossa Escola foi criada na época desse modelo e o nosso primeiro currículo sofreu forte influência deste, salientando a integração de diversas disciplinas, incluindo fundamentação clínica e aspectos de saúde pública.1

No terceiro (1970-1990), o espaço da Enfermagem começava a se firmar e, sob influência da Reforma Universitária, revisões curriculares foram demandadas. Passamos a ter tronco pré-profissional, profissional e as habilitações. A licenciatura era prevista. Esse currículo foi muito criticado, por oferecer especialização precoce e apenas noções introdutórias de Saúde Pública no curso pré-profissional. Entretanto, vale assinalar que a criação dos primeiros cursos de pós-graduação em Enfermagem nesse período (mestrado e doutorado) acelerou a produção de conhecimento na área.1

No quarto período, a partir de 1996, as escolas se prepararam para implantar estrutura curricular que redefinia práticas sanitárias de forma a adequá-las às necessidades da população. O quadro de saúde da população sofria uma transição epidemiológica e demográfica caracterizada por aumento de casos de algumas doenças transmissíveis, ressurgimento de outras, aumento nas taxas de doenças crônico-degenerativas e manutenção de carências nutricionais de crianças e adultos. A prática sanitária no país passou a ter de ser redefinida, pois o modelo existentente não respondia à demanda da população. Existia um hiato entre hospital, domicílio e serviços, o que implicava a reorganização nos currículos. Era um espaço importante a ser ocupado pelo enfermeiro.1

Naquele momento, vivemos um quinto período em que mudanças curriculares foram propostas desde 2006 e sua implantação continua em andamento. Temos revisitado nosso currículo desde então, de forma a que este possa colaborar na formação de pessoas que tenham competência para ajudar na implantação de estratégias de assistência às pessoas, famílias e comunidades de forma efetiva e eficiente. O cuidado domiciliar passa a ocupar lugar importante e desafiante no sentido do cuidado, com ênfase no ensino da higiene e de competências e habilidades do profissional nessa área. Assim, novos desafios são estabelecidos.

Neste momento, várias lembranças me veem à mente, especialmente que esta escola foi o berço para, após o ano de 1997, quando me doutorei em Enfermagem, adquirir experiência acadêmica. Existe aqui um ambiente acadêmico com diversidade de temáticas de pesquisas em andamento, de vivências, de oportunidade de trocas de experiências com outros pesquisadores, de estudo de uma multiplicidade de metodologias empregadas nas publicações, dissertações e teses e que são fonte contínua de conhecimentos novos.

A informação também é muito valorizada nesta escola e tem grande relevância para o nosso desenvolvimento, fazendo parte das exigências da carreira acadêmica. Nessa oportunidade conclamo todos a se envolverem nos processos de aprimoramento e adequação da REME, visando à qualidade necessária ao desenvolvimento do conhecimento em Enfermagem e também o cumprimento das exigências para sua indexação em bases de dados internacionais.

Um vice-diretor tem papel essencial na gestão desta escola, compartilha desafios, projetos, responsabilidades. Permitam-me a lembrança de importantes atividades administrativas como vice-diretora no período entre 2002 e 2004. Tive muita satisfação com os sucessos que alcançamos na obtenção de recursos para a execução dos vários projetos - como a construção do anexo ao prédio da EEUFMG, criação e implantação do curso de Nutrição, criação e implementação do curso de Doutorado na EEUFMG; proposição e obtenção de recursos e implementação do projeto de reestruturação da REME; elaboração e encaminhamento de projeto curricular para o curso de Enfermagem; participação na elaboração do Projeto Pró-Saúde, no qual fomos uma das contempladas juntamente com a Faculdade de Medicina e a Faculdade de Odontologia, com financiamento pelos Ministérios da Saúde e Educação.

Em nossa gestão foi proposta a coordenação do projeto de incremento da Biblioteca Virtual de Saúde-Enfermagem (BVS) em parceria com a Bireme/OPS/OMS e Associação Brasileira de Enfermagem. A escola detém até esses dias esta coordenação. A BVS é uma base distribuída do conhecimento científico e técnico em saúde registrado, organizado e armazenado em formato eletrônico nos países da região.

Alguns anos se passaram e os desafios aumentaram, curso novo foi criado, houve aumento no número de alunos de graduação e pós-graduação, incremento no número de projetos de pesquisa, especialmente aqueles financiados. É inegável que o papel de um vice-diretor nesta escola engloba lidar com instrumentos de gestão a serem estabelecidos e implementados. Assim, princípios norteadores devem ser estabelecidos desde o início e perseguidos para as várias áreas de atuação como graduação, pós-graduação, pesquisa e extensão. Os objetivos e metas devem envolver estratégias e ações para o fortalecimento do ensino de graduação; fortalecimento e ampliação do Programa de Pós-graduação; ampliação, estímulo, busca de financiamentos e redefinição de política de pesquisa e extensão universitária; capacitação do corpo docente; valorização do trabalho técnico-administrativo; discussão, análise dos processos e de instrumentos administrativos relativos ao processo de trabalho na EEUFMG; viabilização de estratégias para a continuidade do processo de reforma e ampliação da infraestrutura da escola nos diferentes níveis: área física e mobilário, equipamentos, acesso à rede, transporte e serviços gerais e fortalecimento das parcerias com entidades representativas da Enfermagem mineira e brasileira, de parcerias com instituições de ensino e serviço no âmbito da UFMG, Secretaria do Estado da Saúde, Secretarias Municipais de Saúde, Hospital das Clínicas, Hospital Risoleta Tolentino Neves e outros. Enfim, essas relações institucionais devem ser sempre revistas, apoiados os movimentos de trabalhadores da escola e as iniciativas dos diretórios acadêmicos. Assim, participar da equipe que trabalha nesta escola de tamanha importância no cenário nacional exige muito trabalho e requer compartilhar a gestão, aspirações, sonhos, deveres e responsabilidades e, na minha vida profissional em particular, foi culminada com muitas realizações.

 

Tânia Couto Machado Chianca
Professora Titular do Departamento de Enfermagem Básica da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais EEUFMG.

 

REFERÊNCIA

1. Angerami, ES; Steagell-Gomes. Análise da formação do enfermeiro para a assistência de enfermagem no domicílio; Rev.Lat-Am. Enf. 1996;4(2), p.5-22.

 

 

* Discurso proferido na Solenidade de Encerramento das Atividades comemorativas aos 80 anos da Escola de Enfermagem em saudação aos vice-diretores.

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