REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 17.3 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20130052

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Revisão Teórica

Eventos intensificadores e redutores do estresse em familias de pacientes com câncer: revisão integrativa

Events that intensify and reduce stress in families with cancer: na integrative review

William Tiago de Oliveira1; Gabriella Michel dos Santos Benedetti2; Joisy Aparecida Marchi3; Marissa da Silva Cassarotti4; Julia Wakiuchi5; Catarina Aparecida Sales6

1. Enfermeiro. Especialista em Gerência de Serviços de Enfermagem. Mestrando em Enfermagem pela Universidade Estadual de Maringá-UEM. Maringá, PR - Brasil
2. Enfermeira. Especialista em Saúde Pública e Saúde da Família. Mestranda em Enfermagem pela UEM. Maringá, PR -Brasil
3. Enfermeira. Mestranda em Enfermagem pela UEM. Maringá, PR - Brasil
4. Graduando em Enfermagem pela UEM, Bolsista do Programa Institucional de Iniciação Científica (PIBIC). Maringá, PR - Brasil
5. Enfermeira. Especialista em Enfermagem Médico-cirúrgica. Mestranda em Enfermagem pela Universidade Estadual de Maringá. Maringá, PR - Brasil
6. Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Docente do Mestrado em Enfermagem da UEM. Membro do Núcleo de Estudos, pesquisa, assistência, apoio à família (Nepaaf). Maringá, PR - Brasil

Endereço para correspondência

Joisy Aparecida Marchi
E-mail: joisymarchi@hotmail.com

Submetido em: 12/12/2012
Aprovado em: 12/09/2013

Resumo

O presente estudo teve por objetivo identificar os eventos intensificadores e redutores do estresse psicológico em familiares de doentes com câncer. Foi realizada revisão integrativa de literatura que incluiu artigos científicos indexados nas bases da Biblioteca Virtual de Saúde e da US National Library of Medicine. Entre os 1.108 trabalhos encontrados, foram selecionados 28 artigos. Os dados foram analisados e dispostos em duas categorias, de acordo com análise de conteúdo: intensificadores do estresse psicológico e eventos redutores do estresse psicológico. Os resultados demonstraram que identificar os problemas e necessidades das famílias que vivenciam o câncer em seus lares, bem como os eventos que facilitam seu enfrentamento, torna-se fundamental para a prestação de um cuidado mais sistematizado e efetivo a essas pessoas.

Palavras-chave: Câncer; Família; Estresse Psicológico; Enfermagem.

 

INTRODUÇÃO

O surgimento da doença em um membro da família acarreta inúmeras alterações na estrutura familiar. Quando essa enfermidade é o câncer, a situação agrava-se por ser uma moléstia estigmatizada e temida, em virtude do sofrimento que causa ao paciente e à família.1 Assim, o câncer provoca no seio familiar uma série de reveses relacionados ao medo da perda do ente querido. Nesse momento, a família vivencia situações que afetam profundamente os aspectos emocionais, talvez por ser a primeira vez que enfrentam uma ocorrência de morte em seu lar.2

A descoberta desse diagnóstico, portanto, desencadeia mudanças em todo o contexto familiar, de forma que todos os integrantes em maior ou menor grau são atingidos pela nova situação.3 Essas modificações ocorridas na vida dos familiares afetam seu dia-a-dia, pois o cuidado ao membro com câncer exige disponibilização de um tempo que antes poderia ser dispensado a outras atividades.4

Não obstante, assumir os cuidados com os pacientes oncológicos é referido pelos familiares como uma tarefa exaustiva e estressante, pelo envolvimento afetivo e por ocorrer a transformação de uma relação anterior de reciprocidade para uma relação de dependência.5

Há numerosos estudos que identificaram casos de depressão, distúrbios do sono, medo, significativo uso de psicotrópicos, ruptura de vínculos, isolamento, solidão, diminuição da participação social e menos satisfação pela vida.6 Tal fato reflete a importância e a necessidade de os familiares receberem adequado suporte psicossocial e para que se sintam preparados e fortalecidos para atuar nesse processo.7

Diante do impacto emocional ocasionado pelo câncer no seio familiar, torna-se extremamente importante identificar as circunstâncias que afetam a vida dos familiares e conhecer as medidas de suporte que protegem esses indivíduos, com vista a minimizar o estresse a que estes estão expostos.

Portanto, o objetivo deste estudo é identificar os eventos intensificadores e redutores de estresse psicológico em familiares de doentes com câncer, descritos nas publicações em periódicos científicos nacionais e internacionais.

Acredita-se que os conhecimentos adquiridos por meio desta pesquisa possam contribuir com os profissionais de saúde, ampliando-lhes a compreensão em relação às dificuldades enfrentadas pelas famílias que vivenciam o câncer e para que medidas preventivas sejam tomadas, a fim de amenizar o sofrimento desses familiares.

 

MÉTODO

Este estudo trata-se de uma revisão integrativa da literatura, que é um método de pesquisa que realiza a busca, a avaliação crítica e a síntese de estudos publicados sobre determinado tema de forma sistemática. As revisões integrativas também revelam lacunas do conhecimento que necessitam ser preenchidas com a realização de novos estudos.8

Foram utilizadas as seguintes etapas: seleção das questões temáticas; coleta de dados pela busca na literatura nas bases de dados eletrônicas, com o estabelecimento dos critérios de inclusão e exclusão para selecionar a amostra; elaboração de um instrumento de coleta com as informações de interesse a serem extraídas dos estudos; análise crítica da amostra; interpretação dos dados e apresentação dos resultados evidenciados.8

Estabeleceram-se as seguintes questões norteadoras: de acordo com os estudos, quais são os eventos intensificadores do estresse psicológico em familiares de doentes com câncer? De acordo com os estudos, quais são os eventos redutores do estresse psicológico em familiares de doentes com câncer?

A seleção do material ocorreu nos meses de março a maio de 2012 e compreendeu artigos publicados até dezembro de 2011. As buscas foram realizadas on-line na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e na US National Library of Medicine (PubMed), acessando as bases de dados Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Medical Literature Analysisand Retrieval Sistem On-Line (MEDLINE), por meio de método integrado de palavras a partir dos descritores padronizados pelos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): "Família", "Câncer" e "Estresse Psicológico"; e pelos Medical Subject Headings (MeSH Terms) correspondentes aos DeCS: 'Family", 'Neoplasms" e 'Stress, psychological".

Buscaram-se, nos critérios para seleção, textos disponíveis na íntegra nos idiomas português, inglês ou espanhol. Além disso, visando garantir a inclusão de artigos que concordassem com a temática investigada, foram selecionados primeiramente a partir da leitura do título ou resumo. Foi realizada a leitura do artigo na íntegra em caso de dúvidas.

A elaboração do instrumento de coleta de dados foi baseada em um instrumento validado para revisões integrativas,9 adaptados para a realidade deste estudo. Este conta com dados como a base de dados em que estava indexado, o título do artigo, o nome dos autores, o periódico em que foi publicado, o ano de publicação, o delineamento metodológico empregado pelos autores e os principais resultados. Cada artigo foi classificado em uma planilha do programa Microsoft® Excel 2010 para organização das informações identificadas.

O resultado da busca na BVS foi de 336 estudos e no Pub-med, de 772, mas no total apenas 180 artigos apresentavam texto completo. Para a seleção dessas publicações, primeiramente foi realizada leitura criteriosa dos títulos e resumos, confirmando se contemplavam a pergunta norteadora. Ao final, foram pré-selecionados 37 artigos, lidos na íntegra, sendo que 27 foram selecionados para este estudo (Figura 1). Após a definição da amostra final, cada estudo selecionado recebeu um código com uma sequência alfanumérica (A1, A2... A27), com o objetivo de facilitar a identificação dos estudos.

 


Figura 1 - Processo de seleção dos artigos que compuseram a análise. Fonte: dados do estudo.

 

O presente estudo utiliza informações de domínio público presentes em base de dados na internet, não se tratando, portanto, de documentos que requeiram sigilo ético.

 

RESULTADOS

Na análise das publicações, evidenciou-se que 23 (82,1%) artigos estavam indexados na base de dados MEDLINE e apenas cinco (17,9%) eram indexados na LILACS. Observou-se que as fontes das publicações foram diversificadas, abrangendo 22 periódicos diferentes. Entre os periódicos destacam-se os da área da Psicologia e Psiquiatria - representadas por oito (36,3%) revistas diferentes - e cinco periódicos da área de Enfermagem, o que representou 22,7% dos artigos publicados.

Em relação ao ano de publicação, ênfase para os anos de 2010 e 2011 com nove publicações cada, o que corresponde a 57,1%. Nos anos de 2005, 2006, 2008 e 2009 tiveram duas publicações cada (28,6%) e 2005 e 2007 com apenas uma publicação em cada ano (7,1%). A maioria dos artigos (9, 32,1%) foi publicada nos Estados Unidos (EUA); Brasil e Canadá aparecem com quatro (14,3%) publicações cada; Austrália com três (11,1%); e os demais países aparecem com oito (28,6%) publicações (Tabela 1).

 

 

O idioma inglês foi predominante (82,1%), correspondendo a 23 publicações; quatro artigos (14,3%) foram publicados na língua portuguesa e apenas um (3,6%) na língua espanhola (Tabela 2).

 

 

Os principais resultados descritos nas publicações analisadas foram agrupados em duas categorias: "eventos que intensificam o estresse psicológico em familiares de pacientes oncológicos" (Tabela 3) e "eventos redutores do estresse psicológico em familiares de pacientes oncológicos" (Tabela 4).

 

 

 

 

DISCUSSÃO

Eventos intensificadores do estresse psicológico em familiares de pacientes com câncer

É sabido que o câncer representa um evento negativo na vida das pessoas, principalmente pelo desgaste psicológico a que expõe o doente e sua família.38,39 Quando essa doença acomete um de seus membros, ocasiona-se uma gama de alterações na estrutura familiar.32 Tais circunstâncias intensificam o estresse emocional dos familiares envolvidos.

Na literatura analisada constatou-se que, num primeiro momento, os familiares são significativamente impactados frente à possibilidade de perder seu ente querido, pois a detecção do câncer em seus lares é compreendida como uma predestinação à morte.25,32 Esse temor de que o familiar doente morra é, possivelmente, a causa de maior estresse no seio familiar, pois faz com que os parentes fiquem apreensivos e emocionalmente desestruturados, uma vez que a morte representa não tê-lo mais em seu convívio.

Com o agravamento da doença, os familiares passam a presenciar os desconfortos físicos e emocionais vivenciados pelo doente e se enternecem diante do sofrimento de alguém tão querido, manifestando sua própria vulnerabilidade frente a esse momento difícil de ser enfrentado. Sentem-se angustiados ao testemunhar a aflição do outro, o que lhes suscita a sensação de impotência e sobrecarga emocional.26-29,35,38

Nesse contexto de consternação, surgem outros elementos estressores à medida que percebem que a rotina da família foi modificada. Essas transformações decorrentes da necessidade de adequar as ações do grupo familiar às exigências de cuidado ao doente constituem-se em fatores que comprometem a saúde emocional dos demais componentes familiares.16,25 Com isso, ansiedade e conflitos podem facilmente surgir28, somado à dificuldade que alguns encontram em desempenhar os cuidados13, e até mesmo pela condição econômica da família.25,34

Destarte, a falta de conhecimento técnico16,25 para assistir seu ente querido foi um dos aspectos encontrados, na atual pesquisa, que potencializam as manifestações de estresse. Pois, ao se darem conta de que para cuidar de um paciente oncológico faz-se necessário ter determinadas habilidades específicas e alguma noção no que se refere à doença, os familiares passam a manifestar sentimentos como ansiedade, temor, desesperança, falta de entusiasmo, entre outros aspectos desmotivadores.40

O câncer é também o responsável pelo declive financeiro de muitas famílias, pois além do tratamento ser imensamente dispendioso, muitas vezes essa doença acomete um membro que contribui com a renda familiar, levando-o ao afastamento do trabalho.4 Dessa forma, inferiu-se que, independentemente da condição financeira, essa doença acarreta alterações na renda da família, sendo esse um dos elementos que intensificam o estresse psicológico ao vivenciá-la.22,25,34 Além disso, estudo recente ressalta que mesmo os mais favorecidos financeiramente são afetados,29 uma vez que desenvolvem postura questionadora e busca incessante por cuidados, o que faz com que tenham dificuldades para aceitar a situação de doença, desencadeando mais estresse emocional.

Nos casos em que apenas um membro do grupo familiar assume os cuidados diretos do paciente, sem receber apoio dos demais familiares, a sobrecarga torna-se ainda maior. Por vezes a família se vê obrigada a descartar um membro que se responsabilize pelos cuidados ao ente com a saúde debilitada, podendo utilizar como critérios o grau de parentesco, relação empática, proximidade geográfica, falta de outras pessoas que possam realizar tal tarefa ou até mesmo por autodelegação.38 Nesse pensar, estudos analisados16,18,26 evidenciam que o papel de cuidador acarreta importante tensão física e emocional, fazendo com que se sintam esgotados ao assumir a responsabilidade com o doente.

Por fim, na literatura selecionada para o estudo, destacou-se ainda a questão de gênero como um elemento que pode influenciar na intensificação do estresse psicológico do familiar de paciente com câncer. Alguns dos artigos analisados mencionam que as mulheres cuidadoras manifestam mais sofrimento e níveis mais altos de depressão do que os homens que exercem o mesmo papel.14,16,21,31 A explicação para tal resultado é que quando surge a necessidade de cuidar do familiar doente, geralmente esta se soma a inúmeras outras atividades em que a mulher já atua, como ser mãe, esposa, profissional e dona de casa, quando muitas vezes se vê impossibilitada de abrir mão de uma dessas tarefas para se ocupar do cuidado, sendo indiscutivelmente soterrada por suas múltiplas obrigações.

Essa condição de acentuado sofrimento entre mulheres pode ainda estar relacionada ao fato de que estas manifestam seus sentimentos diferentemente dos homens, apresentando mais ligação emocional na execução de suas tarefas como cuidadoras. Por outro lado, os homens, geralmente, têm baixo grau de afetividade na prestação de cuidados.41 Esse comprometimento e ligação emocional por parte das mulheres podem explicar essa intensificação do estresse.

Eventos redutores do estresse psicológico em familiares de pacientes com câncer

Tendo em vista a sobrecarga emocional vivenciada no contexto familiar, em virtude das transformações inerentes ao câncer, apurou-se nos textos selecionados para o atual estudo que alguns eventos podem emergir como redutores do estresse psicológico de familiares. Não só o doente, mas também a família carece de apoio no enfrentamento de todo o processo, afinal seus membros podem adoecer, mesmo na constante tentativa de mostrarem-se fortalecidos.42

Dessa forma, estabelecer uma rede de suporte a cuidadores e familiares pode minimizar o sofrimento experenciado e facilitar nos cuidados ao paciente oncológico23,25, refletindo na saúde e qualidade de vida do binômio doente/cuidador.43 Tal suporte pode advir de outros integrantes da família, bem como das relações de amizade na comunidade24, e abranger os âmbitos social, econômico, funcional e/ou afetivo.

Portanto, foi encontrado na pesquisa que os grupos de apoio são um amparo para os cuidadores que vivenciam o câncer em seus lares, haja vista que participar dos encontros possibilita a criação de novos vínculos e proporciona aos integrantes momentos de distração.18 Nesse sentido, intervenções grupais podem diminuir a sobrecarga emocional de familiares e cuidadores, conferindo mais satisfação pela vida e aumento do bem-estar subjetivo.

O suporte dos serviços de saúde e psicossociais é reconhecido como uma importante ferramenta para parentes de pessoas em tratamento oncológico.12,17 Os profissionais que acompanham os cuidadores devem orientá-los de acordo com a realidade destes, capacitando-os para assistir o doente no domicílio, seja qual for a sua necessidade44, pois sentir-se seguro na prestação de cuidados é um evento que reduz o estresse psicológico da família.

Identificar os sinais e sintomas de piora do quadro clínico e manusear corretamente dispositivos e equipamentos, tranquiliza o cuidador e facilita suas atividades na promoção do cuidado.45 Dessa forma, é essencial informá-los sobre a doença e o tratamento, além de instruí-los sobre habilidades técnicas utilizadas na assistência ao ente e que auxiliam na tomada de decisão16, uma vez que essas orientações podem amenizar sentimentos de insegurança que levam à tensão devida ao papel de cuidador.32

Nesse ínterim, faz-se necessário que o profissional estabeleça comunicação efetiva com os familiares, pautada no diálogo e na escuta sensível, compreendendo os seus sentimentos, ações e reações suscitadas na convivência com o câncer.42 Estudo destacou que dedicar parte do atendimento médico a momentos de conversas com as famílias de pacientes oncológicos pode aliviar o estresse psicológico dos cuidadores.26 Assim, escutar os anseios não necessariamente resolverá situações concretas da doença, porém, poderá aliviar a sensação de medo e angústia.

Alguns artigos sugerem a espiritualidade como um recurso que reduz a sobrecarga emocional de familiares.9-11,25 A crença em algo superior torna-se uma fonte de apoio na luta contra o câncer. Ressalta-se que os cuidadores vislumbram na confiança em Deus uma das estratégias de enfrentamento da doença, ora responsabilizando-o, ora tendo fé, ou seja, entregando a situação à vontade Dele.25 Não obstante, o suporte espiritual parece estar relacionado aos significados atribuídos ao câncer, bem como à sua aceitação. A fé fornece subsídios para superar os obstáculos e manter as esperanças, além de auxiliar na promoção do bem-estar.46

Destaca-se, por fim como evento redutor do estresse psicológico, a identificação precoce de familiares com sobrecarga emocional, subsidiado por instrumentos de avaliação já validados na área e aplicáveis em diferentes contextos. Considera-se que a utilização sistemática dessas ferramentas pode favorecer intervenções das equipes de saúde25, antevendo futuras complicações e subsidiando encaminhamento psicossocial oportuno.14

Um dos instrumentos citados por alguns autores é o Distress Thermometer (DT), utilizado na triagem de aflição representada por sintomas de depressão e ansiedade em membros familiares de pacientes com câncer. O emprego desse questionário é uma maneira de atender às necessidades dessas famílias e incluí-las em programas de tratamento oncológico.10,14 Outra ferramenta encontrada foi o Psychosocial Assessment Tool (PAT), para avaliar o risco psicossocial de familiares de crianças recém-diagnosticadas com câncer. O PAT é autoaplicável, composto de 15 itens de respostas dicotômicas e categóricas (escala tipo Likert), preenchido em aproximadamente 10 minutos e eficaz na triagem dessas famílias.31

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As publicações analisadas mostram que experienciar o diagnóstico de câncer em um membro familiar é uma situação que causa desgaste emocional nos demais elementos desse grupo. Esse estresse é composto de múltiplos eventos que levam à sua intensificação.

Constatou-se que, apesar dos artigos versarem acerca de populações inseridas em diferentes contextos, são similares as circunstâncias que induzem ao aumento das tensões nervosas quando se tem um familiar com câncer. Assim, a categorização dos eventos que intensificam o estresse psicológico nesse grupo permitiu identificar alguns acontecimentos que prejudicam a qualidade de vida desses indivíduos.

Enfatizou-se que o medo de perder o ente querido em decorrência da doença é o principal evento intensificador do estresse para os familiares. Assistir o sofrimento físico e emocional do familiar doente; as modificações nas atividades cotidianas da família; a falta de conhecimento técnico para prestação dos cuidados; o comprometimento da renda familiar; a sobrecarga por ser o cuidador principal, e o gênero feminino são outros elementos que de acordo com os estudos estão relacionados à elevação do desgaste emocional dos familiares de paciente oncológico.

O estudo ainda sugeriu algumas medidas que reduzem o estresse vivenciado por essas famílias em seu cotidiano. Destacam-se os benefícios quando se tem a presença da rede de apoio oferecendo suporte na prestação dos cuidados; sentir-se seguro para o cuidado; a presença da espiritualidade; e a identificação precoce do estresse em familiares pela utilização de instrumentos de avaliação.

Os conhecimentos produzidos neste estudo reiteram a importância de desenvolver uma assistência voltada não somente para o doente com câncer, mas também para a sua família. Identificar os principais problemas e necessidades das famílias que vivenciam o câncer em seus lares, bem como os eventos que facilitam seu enfrentamento, torna-se fundamental para a prestação de um cuidado mais sistematizado e efetivo. Desse modo, faz-se imprescindível compreender as mudanças que ocorrem na vida desses indivíduos para que essas informações possam contribuir com as equipes, instituições e profissionais de saúde para a garantia de uma assistência de qualidade.

 

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