REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 9.1

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Pesquisa

O abandono da consulta de enfermagem por mães adolescentes em um Centro de Saúde de Belo Horizonte-MG

Lack of compliance to nursing care by adolescent mothers in a Health Center in Belo Horizonte, State of Minas Gerais

Kenia Ribeiro GabrielI; Cíntia Alves AraújoII; Anézia Moreira Faria MadeiraIII

IAluna do curso de graduação em enfermagem da EEUFMG, Bolsista do CENEX
IIAluna do curso de graduação em enfermagem da EEUFMG, Bolsista do PAD
IIIEnfermeira. Doutora. Profª Adjunta da EEUFMG

Endereço para correspondência

Rua Munhoz, 125, B. Jaraguá
CEP: 31255-610. Belo Horizonte/MG
E-mail: aneziamfm@enf.ufmg.br

Resumo

Trata-se de um estudo exploratório, retrospectivo, realizado no Centro de Saúde São Paulo, Belo Horizonte/MG, que teve como objetivo identificar os motivos que levaram as mães adolescentes a abandonar a consulta de enfermagem direcionada ao acompanhamento do crescimento e desenvolvimento (CD) de seu filho. Participaram do estudo 13 adolescentes. Os dados foram coletados por meio de questionário contendo perguntas abertas e fechadas. Ausência de problemas de saúde na criança (15,38%); dificuldade de remarcação de consultas (23,8%); transferência do controle do CD para o pediatra (15,38%); não remarcação dos retornos (53,84%) e falta de estímulo às mães por parte dos profissionais para dar continuidade ao acompanhamento do CD (23,08%) foram os principais motivos do abandono da consulta de enfermagem pelas mães adolescentes.

Palavras-chave: Recém-Nascido/Crescimento & Desenvolvimento; Cuidados de Enfermagem; Adolescente; Gravidez na Adolescência; Atenção Integral de Saúde.

 

INTRODUÇÃO

A consulta de enfermagem é uma atividade implícita nas funções do enfermeiro que, usando de sua autonomia profissional, assume a responsabilidade quanto às ações e intervenções de enfermagem a serem determinadas em face dos problemas detectados, com a finalidade de prestar os cuidados que se fizerem necessários; ministrar orientações indicadas no momento; encaminhar para outros profissionais quando a competência de resolução do problema fugir do seu âmbito de ação. (1)

A consulta de enfermagem à criança é uma das atividades realizadas pelo enfermeiro dentro do sistema de saúde, com a finalidade de produzir serviços destinados a alcançar os objetivos do Programa de Atenção Integral à Saúde da Criança-PAISC. Esse programa foi instituído pelo Ministério da Saúde, em 1984, com o propósito de desenvolver um acompanhamento sistemático do crescimento e desenvolvimento, bem como resolver, a partir das unidades básicas de saúde, a maioria dos agravos à saúde da criança menor de cinco anos de idade.(2)

O acompanhamento e a avaliação contínua do crescimento e desenvolvimento da criança evidenciam, precocemente, os transtornos que afetam a sua saúde e, fundamentalmente, sua nutrição, sua capacidade mental e social. Permitem, ainda, a visão global da criança, inserida no contexto em que ela vive, individualizada na sua situação pregressa e evolutiva, possibilitando o atendimento humanizado na medida em que se conhecem melhor as suas relações no ambiente familiar.(3)

Com a implantação e implementação das ações do PAISC, através da consulta de enfermagem nos serviços básicos de saúde, reacende-se uma nova esperança para a criança em termos da melhoria da assistência prestada, e, para o enfermeiro, um melhor posicionamento profissional.

As ações governamentais do PAISC voltadas para a prevenção de doenças e promoção à saúde da criança contribuíram para o aumento crescente do contingente das crianças que vêm sobrevivendo em nosso país tendo como indicador desse processo a queda na taxa de mortalidade infantil de 70,9 óbitos por 1000 nascidos vivos em 1984, para 28,6 óbitos por 1000 nascidos vivos em 2001 (4)

Em 1997 implantou-se a consulta de enfermagem em um Centro de Saúde de Belo Horizonte/MG, como forma de acompanhar o crescimento e desenvolvimento dos filhos de mães adolescentes. Esta atividade passou a fazer parte de um Projeto de Extensão da Escola de Enfermagem da UFMG, intitulado "Assistência sistematizada à adolescente e seu filho no Centro de Saúde São Paulo", o qual integra docentes e alunos/bolsistas da graduação.

Inicialmente, com o decorrer do projeto, fomos percebendo que aumentava a cada dia o número de mães adolescentes freqüentes à consulta de enfermagem, sendo necessário ampliarmos o número de consultas diárias. Mas, para nossa surpresa, observávamos que algumas adolescentes, consideradas assíduas, não vinham mais às consultas. Preocupadas com essa situação, sentimos necessidade de desenvolver um estudo que indicasse os motivos que as levaram a abandonar a consulta de enfermagem.

Apesar de todo empenho dispensado pelas enfermeiras e alunas bolsistas na sensibilização das adolescentes para a continuidade do acompanhamento do crescimento e desenvolvimento do filho através da consulta de enfermagem, elas estavam se afastando desta atividade.

Começamos então a questionar: O que levaria as mães adolescentes a abandonar a consulta de enfermagem direcionada para o acompanhamento do crescimento e desenvolvimento de seus filhos? Os motivos do abandono estariam relacionados à forma como são atendidas na consulta? Os seus filhos, atingindo determinada idade, não precisariam mais do acompanhamento do crescimento e desenvolvimento? Deixariam a consulta por não acreditarem nesta atividade? Ou ainda por questões socioeconômicas e culturais?

Esses questionamentos nos impulsionaram à realização do presente estudo, que tem por objetivo identificar os motivos que levaram as mães adolescentes a abandonar a consulta de enfermagem direcionada ao acompanhamento do crescimento e desenvolvimento de seu filho, na faixa etária de 0 a 5 anos.

Acreditamos que este estudo poderá indicar formas de melhorar a assistência prestada às mães adolescentes e seus filhos no Centro de Saúde, assim como contribuir para a produção científica na enfermagem e na saúde, uma vez que, ao fazermos o levantamento bibliográfico nas várias fontes de informação do conhecimento, constatamos a carência de assuntos relacionados com a temática abordada.

 

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo exploratório, retrospectivo, realizado no Centro de Saúde São Paulo, unidade da Prefeitura de Belo Horizonte-MG.

Os sujeitos que participaram do estudo foram as adolescentes atendidas pelo projeto, que abandonaram a consulta de enfermagem para o acompanhamento do crescimento e desenvolvimento de seus filhos. Foi considerada mãe adolescente, aquela que tinha até 20 anos de idade na data de nascimento de seu filho. Caracterizou-se abandono como a ausência a três consultas de enfermagem, consecutivas.

A coleta de dados, inicialmente, foi feita por meio do levantamento de todos os prontuários das crianças agendadas no período de fevereiro a dezembro de 2002, em busca de mães adolescentes que abandonaram a consulta de enfermagem. Foram identificados 17 abandonos. Desse total, 13 participaram do estudo, já que 4 mães não residiam mais na área de abrangência do centro de saúde.

Após o levantamento do número total de abandonos, foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com as mães adolescentes em seus domicílios, utilizando-se para isto um questionário contendo questões fechadas visando a coleta de dados pessoais e residenciais, além da seguinte questão aberta: "O que levou você a abandonar o acompanhamento do crescimento e desenvolvimento de seu filho(a)?" (ANEXO).

Antes de responder ao questionário, todas as mães adolescentes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, que informava sobre os objetivos da pesquisa, a preservação do anonimato e a importância da participação delas na pesquisa, obedecendo assim, à Resolução nº 196/96, do Conselho Nacional de Saúde (5), que trata de pesquisas envolvendo seres humanos. Os dados foram analisados à luz da literatura e de acordo com a experiência das autoras com o objeto de estudo.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

De posse dos prontuários das crianças, identificamos um total de 56 mães adolescentes que freqüentaram a consulta de enfermagem direcionada ao crescimento e desenvolvimento do filho, em 2002. Dessas, 17 mães abandonaram a consulta e 13 participaram do estudo.

A análise dos dados foi dividida em dois momentos: inicialmente, caracterizamos a população estudada e, posteriormente, levantamos os motivos que levaram ao abandono da consulta de enfermagem, de acordo com os relatos das mães adolescentes.

Das 13 mães adolescentes que participaram do estudo, 38,46% tinham de 17 a 19 anos e 61,54% de 20 a 22 anos, como é mostrado no Gráfico 1.

A adolescência é definida, cronologicamente, pela OMS, como a faixa etária compreendida entre 10 e 20 anos. No estudo, a idade de 22 anos, apesar de não se caracterizar como adolescência, foi considerada porque as adolescentes que abandonaram a consulta de enfermagem iniciaram a puericultura do filho com 20 anos. Observa-se um percentual maior de mães adolescentes acima de 19 anos, que abandonaram a consulta de enfermagem.

Em relação ao estado civil das adolescentes, o gráfico 2 evidencia que 69,23% são solteiras; 30,77% amasiadas e nenhuma é casada.

Podemos inferir, pelos achados da pesquisa, que a presença do companheiro como co-participante nos cuidados dos filhos, é fator facilitador para que a mãe continue freqüentando a consulta de enfermagem. Na nossa prática é comum a vinda do casal ao "controle" da criança.

Além disso, por sabermos que grande parte delas vive com seus familiares, consideramos também haver alguma influência nos cuidados assumidos pelas adolescentes com o filho, por exemplo, o acompanhamento do seu crescimento e desenvolvimento.

Conforme Machado et al. (6), em estudo realizado acerca das percepções da família sobre a forma como a adolescente cuida do filho, muitas condutas assumidas pelas adolescentes, contrárias ao que é recomendado pelo serviço de saúde, são decorrentes da dependência financeira à família para sobreviverem, ficando muitas vezes indecisas sobre qual conduta tomar.

Apresentamos no gráfico 3 o abandono da consulta de enfermagem conforme o grau de escolaridade das mães adolescentes. Como podemos observar, 46,15% possuem o 1º grau incompleto; 15,38% apenas o 1º grau; 23,08% o 2º grau incompleto e 15,39% o 2º grau completo.

Sabemos que o fator educação é ponto positivo para assimilação e aplicação das orientações recebidas durante a consulta de enfermagem. Quanto maior o grau de escolaridade, mais possibilidade a adolescente terá de cuidar melhor do filho. O cuidar bem implica, inclusive, dar continuidade ao acompanhamento do crescimento e desenvolvimento até a alta da criança.

O grau de escolaridade das mães é um fator influenciador do estado de saúde da criança. Segundo Almeida et al.(7), em um estudo avaliando a influência do grau de escolaridade dos pais sobre o estado nutricional dos filhos, houve associação entre a subnutrição das crianças e a baixa escolaridade dos pais, que interfere na escolha dos alimentos no que diz respeito à sua qualidade e adequação.

A análise do gráfico 4 nos mostra que 53,85% das adolescentes que abandonaram a consulta de enfermagem não exercem nenhuma atividade fora do lar, e 46,15% trabalham fora.

Pressupomos que a mãe adolescente tendo mais tempo para se dedicar ao filho, naturalmente, preocupa se mais com a saúde dele e dá continuidade ao acompanhamento do seu crescimento e desenvolvimento. No entanto, os achados do estudo retratam o contrário, já que as mães que mais abandonaram a consulta, foram as que exercem atividades no lar.

A nosso ver, a cotidianidade dos cuidados maternos, atrelada à ausência de intercorrências de saúde, faz com que as mães adolescentes percebam o filho como "saudável", culminando assim no abandono do acompanhamento do crescimento e desenvolvimento.

Conforme observamos no gráfico 5, o fato de a mãe adolescente residir em bairro ou favela não influenciou significativamente no abandono da consulta de enfermagem, pois 53,85% moram em bairro e 46,15% em favela, havendo assim uma aproximação relativa nesta variável. Vale ressaltar que as moradias, em sua grande maioria, estão localizadas próximo ao Centro de Saúde, o que não justifica o abandono da consulta de enfermagem.

No tocante às condições da moradia, 98% das adolescentes possuem saneamento básico adequado, ou seja, água tratada, rede de esgoto e lixo coletado; 85% moram em casa própria; variando de 2 a 7 cômodos; 100% das casas são de alvenaria.

Ao questionarmos as adolescentes sobre os motivos que as levaram a abandonar a consulta de enfermagem, alegaram: a ausência de problemas de saúde na criança (15,38%); transferência do acompanhamento do crescimento e desenvolvimento para o pediatra (15,38%); transferência da responsabilidade em levar o filho à consulta de enfermagem para os familiares (7,69%); dificuldade de remarcação de consultas (23,08%) falta de estímulo às mães por parte dos profissionais para dar continuidade ao acompanhamento do crescimento e desenvolvimento de seu filho (23,08%); e a não remarcação dos retornos (53,84%).

Evidencia-se a não remarcação dos retornos como o motivo principal que levou as adolescentes a abandonar a consulta. Na sistematização da consulta de enfermagem, o retorno faz parte das condutas do enfermeiro; cabe, portanto, garantir o retorno da adolescente, para que ela dê continuidade ao acompanhamento do crescimento e desenvolvimento do filho.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Entre os fatores que levaram as mães adolescentes a abandonar a consulta de enfermagem, apresentados pela pesquisa, verificamos que em muitos deles é possível a intervenção do profissional enfermeiro.

As deficiências de informações por parte das mães adolescentes, tanto sobre a necessidade de dar continuidade ao acompanhamento do crescimento e desenvolvimento do filho, quanto sobre a importância desse programa na prevenção de doenças e na promoção da saúde, são exemplos de falhas ocorridas na consulta de enfermagem, que contribuíram para o abandono da mãe à consulta da criança.

A pediatria trata de pessoas essencialmente dependentes de fatores familiares e ambientais, de modo que é necessária uma intensa ação educativa com a família e a comunidade, a fim de garantir que orientações sejam dadas para facilitar o suprimento das necessidades da criança, necessidades biológicas e psicossociais específicas, que são inerentes ao processo de crescimento e desenvolvimento humano, predominantemente nos primeiros anos de vida.(8)

Diante do desafio de se trabalhar com a consulta de enfermagem direcionada para o acompanhamento do crescimento e desenvolvimento da criança, ao lidarmos com as mães adolescentes, devemos utilizar uma linguagem simples e acessível e dispormos de mais tempo para orientá-las, facilitando o entendimento das informações repassadas. Além disso, é importante procurarmos conhecer seus recursos socioeconômicos e suas particularidades culturais, para transformarmos nossas orientações em medidas acessíveis à realidade de cada uma.

Dentro do contexto da pesquisa, as visitas domiciliares surgem como proposta para os profissionais de saúde, como forma de resgatar essas mães adolescentes que abandonaram a consulta de enfermagem, na tentativa de que dêem continuidade ao acompanhamento do crescimento e desenvolvimento dos seus filhos.

Faz-se necessária, também, a sensibilização dos demais profissionais que atuam no Centro de Saúde, no sentido de divulgarem melhor o projeto de assistência à mãe adolescente e ao seu filho, a fim de estimulá-la a continuar freqüentando a consulta de enfermagem.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1- Campedelli MC, Friedlanter MR. Cuidados com recém-nascidos e puérperas executados por enfermeira durante a consulta de enfermagem. Rev Gaúcha Enf, Porto Alegre, 1988 dez.;9(2):82-9

2- Brasil. Ministério da Saúde. Programa de Assistência Integral à Saúde da Criança. Ações básicas. Brasília: Centro de Documentação do Ministério da Saúde; 1984 . Textos Básicos, 7.

3- Brasil. Ministério da Saúde. Crescimento e desenvolvimento. Brasília; 1994. [ Citado em 10-10-2004]. Disponível em: <http://www.saude.gov.br/sps> .

4- Brasil. Ministério da Saúde. Atenção integrada às doenças prevalentes na infância (AIDPI). Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde; 2003.

5-Brasil. Conselho Nacional de Saúde. Diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Resolução 196/96. Inf Epidemiol SUS, Brasília, 1996 abr./jun.;(6):12-41.

6- Machado FN. Percepções da família sobre a forma como a adolescente cuida do filho. Rev Esc Enf USP, São Paulo, 2003;37(1):11-8.

7- Almeida CAN. Determinação da influência da escolaridade dos pais no estado nutricional de crianças. Rev Pediatr Mod, São Paulo, 1999;35(9):707-12.

8- Dupas G. Considerações sobre o estado de saúde da criança. Rev Esc Enf USP, São Paulo, 1993;27(3):362-71.

 

 

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