REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 9.1

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Relato de experiência

Oficinas de sensibilidade e criatividade com um grupo de adolescentes institucionalizados

Sensitivity and creativity workshops with a group of institutionalized adolescents

Leila Memória Paiva MoraesI; Violante Augusta Batista BragaII

IEnfermeira. Mestra em Enfermagem. Docente do Curso de Enfermagem do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Membro do Grupo de Pesquisa "Políticas e Práticas de Saúde"
IIEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Docente da Graduação e Pós-Graduação do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Líder do Grupo de Pesquisa "Políticas e Práticas de Saúde"

Endereço para correspondência

Rua Estado do Rio de Janeiro 50 B-713, Bela vista
Fortaleza - Ce, Cep. 60441-150
e-mail: leilammp@bol.com.br

Resumo

Objetivamos descrever a coordenação de oficinas realizadas com um grupo de adolescentes institucionalizados, buscando apreender os sentimentos dos adolescentes, quanto à sua relação com as drogas. Usamos o referencial teórico-metodológico da sociopoética. Realizamos oito oficinas de sensibilidade e criatividade - uma de planejamento e tomada de decisões com o grupo-pesquisador, quatro de produção de dados, duas de análise de indicadores e uma de restituição destes. Consideramos que o grupo propiciou aprendizado entre co-pesquisadores, com oportunidade de aprenderem uns com os outros, resgatarem a auto-estima, fazerem a autodescoberta, falarem de suas vidas e sentimentos quanto às drogas e um espaço terapêutico.

Palavras-chave: Adolescente institucionalizado; Prática de grupo; Dependência de drogas; Pesquisa em enfermagem; Coordenação de grupos.

 

INTRODUÇÃO

O trabalho com grupos é um dos recursos utilizados por vários profissionais na área da saúde para atender clientelas especificas. A partir da busca de trabalhos desenvolvidos sobre grupos, observamos que há poucos registros na literatura de grupos que desenvolvam assistência à saúde com adolescentes . Esse tema é contemplado por considerarmos que, ao vivenciarem uma fase de transição, esta se traduz em um momento de crise caracterizada pela metamorfose à qual os sujeitos são submetidos na passagem entre a infância e a vida - adulta / a adolescência. Nesse período, é percebida a busca por experiências novas, uma das quais, observamos, é o uso das drogas psicoativas, iniciado cada vez mais precocemente. Estudos apontam para o aumento do uso abusivo e indevido de drogas entre os adolescentes dar-se cada vez mais cedo, por volta dos dez anos de idade, em ambos os sexos.(1)

Foi sobre a relação do adolescente com as drogas psicoativas que realizamos esta pesquisa, tendo como foco central a apreensão dos sentimentos de um grupo de adolescentes institucionalizados . Para isso, trabalhamos com um grupo deles, utilizando como recurso oficinas de sensibilidade e criatividade como uma das formas encontradas para favorecer a expressão de sentimentos relativos ao uso de drogas, por meio de dispositivos criativos, e identificar o modo como os adolescentes vivenciam o uso de drogas em seu cotidiano; procuramos, então, extrair da realidade examinada elementos importantes para uma aproximação maior da problemática e fornecer subsídios para a reflexão de uma realidade que precisa ser transformada.(2)

As oficinas são vivências grupais que permitem aos seus participantes sentirem-se sujeitos construtores e agentes transformadores, possibilitando uma ação educativa, de modo que os trabalhos grupais sejam mais afetivos, participativos e de espaço para construção coletiva do conhecimento. Toda essa construção acontece a partir do saber-vida que começa despertando os sentidos e visualizando, o máximo possível, o cotidiano dos participantes.(3)

Temos como objetivo, neste estudo, descrever a coordenação das atividades realizadas durante oficinas de sensibilidade e criatividade com adolescentes institucionalizados.

 

CONSTRUÇÃO DO PROCESSO TEÓRICO - METODOLÓGICO

Considerando o fato de pretendermos apreender os sentimentos dos adolescentes com relação ao uso de drogas, além de desejarmos utilizar algo inovador, que proporcionasse a oportunidade de trabalhar a sensibilidade, a criatividade e a relação com o outro, desenvolvemos uma pesquisa qualitativa inspirada no referencial teórico-metodológico da sociopoética, através do método do grupo-pesquisador, utilizando subsídios da teoria da análise institucional.

O método do grupo-pesquisador é dividido em seis momentos: a entrada no grupo sujeito da pesquisa (a formação do grupo-pesquisador), em que o facilitador da pesquisa negocia a sua entrada e sua aceitação pelos sujeitos da pesquisa ou co-pesquisadores; a escolha do tema a ser pesquisado; a produção de dados; a análise-experimentação dos dados; a contra-análise dos dados e, por último, a socialização da pesquisa.(4)

A seqüência descrita faz parte do método do grupo-pesquisador. Foram esses seis momentos de construção que procuramos desenvolver ao longo desta pesquisa, cuidadosamente respeitando o rigor do método e preservando a privacidade e o sigilo dos dados produzidos, juntamente com o anonimato dos integrantes do grupo, conforme determina a Resolução 196/96, sobre as normas de pesquisa envolvendo seres humanos. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisas com Seres Humanos sob o protocolo número 19/02.

O local escolhido para o cenário do estudo foi um abrigo público destinado ao atendimento de adolescentes em situação de risco, unidade oriunda do desmembramento da antiga FEBEMCE (Fundação de Bem- Estar do Menor - Ceará), que faz parte de uma rede de assistência à criança e ao adolescente. Atualmente, encontra-se vinculado à SETAS/CE - Secretaria do Trabalho e Ação Social do Estado do Ceará. O abrigo é uma unidade mista que é um recurso de internação total viabilizado como medida de proteção, em caráter provisório e excepcional, para aqueles em situação de risco pessoal e social, porém, os adolescentes não são privados de liberdade. Considera-se adolescente, para os efeitos de lei, a pessoa entre doze e dezoito anos de idade.(5)

Os sujeitos que constituíram o estudo eram de ambos os sexos, vinculados ao abrigo. Um dos critérios de inclusão na pesquisa foi o de que cada um dos sujeitos aceitasse participar do grupo-pesquisador e já tivesse feito uso de drogas. O número de participantes foi definido de acordo com a disponibilidade e interesse em participar da investigação. Formamos um grupo com 15 adolescentes institucionalizados. Além de uma sala que foi disponibilizada para reuniões do grupo, dispúnhamos de outros recursos, como aparelho de som, quadro de escrever, máquina fotográfica e os diversos materiais utilizados em cada oficina (balões, canetas, tesouras, cola, tintas, vários tipos de papéis, lápis de cera, revistas, jornais, faixas de tecidos, barbantes, fita adesiva, entre outros).

Quanto ao planejamento dessas oficinas de sensibilidade e criatividade, tudo foi planejado após decisões tomadas com o grupo-pesquisador, o qual denominamos de "Meninos do Abrigo". Foram oito encontros, assim distribuídos: uma oficina de aproximação e tomada de decisões com o grupo-pesquisador, quatro de produção de dados, duas de análise de dados e uma de restituição dos dados.

As oficinas de produção e análise ocorreram em espaço do abrigo, já que o grupo só poderia sair autorizado pela direção do serviço, por estar sob guarda judicial.

Cada oficina de sensibilidade e criatividade teve duas horas de duração e uma periodicidade programada de acordo com a disponibilidade do grupo-pesquisador. Como categorias temáticas nas oficinas, utilizamos as cores primárias (azul, amarelo e vermelho), secundárias (verde) e o tom luz, que é o branco. Não utilizamos o preto por não ser considerado uma cor, mas reunião de todas as cores. Ao iniciarmos nossos trabalhos nas oficinas, sentimos que o grupo se relacionava de forma harmoniosa com as diversas cores e, a cada encontro, constatávamos que, por meio delas, havia melhor fluidez de pensamentos.

 

O CAMINHO PERCORRIDO DURANTE AS OFICINAS

As oficinas de sensibilidade e criatividade o com grupo-pesquisador "Meninos do Abrigo"

As oficinas desenvolveram-se com a utilização de uma estrutura própria, obedecendo a uma seqüência que se repetiu em todos os encontros. Cada encontro teve quatro momentos: o momento inicial ou acolhida, que chamamos de conversa franca; em seguida o relaxamento; o terceiro, de produção ou de análise de dados, de acordo com o objetivo do encontro; e, por último, a avaliação.

Na acolhida ou conversa franca, como denominamos, falávamos e comentávamos as dúvidas dos co-pesquisadores e da própria facilitadora da pesquisa, acertando pontos pendentes, retomando as oficinas anteriores. Esse momento servia como aquecimento que antecedia o relaxamento, o qual foi ocorrendo da forma mais natural possível, à medida que sentíamos a dinâmica grupal. O terceiro momento era de produção ou análise dos dados, sendo realizado por intermédio de dispositivos diversos. Por último, tínhamos o espaço para a motivação, tendo como dispositivos técnicas grupais, com o objetivo de avaliar o encontro e motivar a participação dos adolescentes nas próximas oficinas.

1ª. Oficina de sensibilidade e criatividade: planejamento e tomadas de decisões com o grupo pesquisador

Nessa oficina, tivemos os primeiros contatos com os adolescentes que formaram o grupo-pesquisador. Sentimentos como medo e angústia invadiam-nos, mas não nos imobilizavam. Talvez esses sentimentos estivessem presentes pelo fato de a fase de planejamento e tomadas de decisões com o grupo-pesquisador ser uma etapa que exige perspicácia do pesquisador, ocasionando ansiedade. Nesse instante, veio a reflexão de como seria corajoso trabalhar esse método de pesquisa com adolescentes. Não porque eles não se enquadrassem, pelo contrário, mas pela necessidade que teríamos, mais do que nunca, de sermos perspicazes, realizando um trabalho dinâmico, criativo e motivador, e que, principalmente, produzisse dados.

Do planejamento das oficinas e tomadas de decisões participaram vinte e três adolescentes. Todos expressavam curiosidade com aquele momento, em relação ao que iríamos fazer e por que estávamos ali. Sentimos, em alguns, resistência em participar do encontro, como se estivessem naquele local forçados pela direção do abrigo; afinal tinham sido liberados de suas atividades rotineiras.

Nesse primeiro encontro, iniciamos com uma explanação rápida de quem éramos e para que estávamos ali. Começamos a responder os questionamentos que foram surgindo em relação à pesquisa, principalmente sobre as oficinas. Enfatizamos que a participação deles seria livre, explicando um pouco sobre a ética na busca científica, que era um trabalho de pesquisa e não de intervenção. Em seguida realizamos uma técnica de relaxamento, Técnica do contato com o movimento de caminhar. Nela, todos deveriam andar livremente pela sala, de pés descalços, compassadamente, ao som de uma música tranqüila, tentando ficar bem à vontade. Em seguida, solicitamos que, ainda andando lentamente, eles imaginassem que estivessem em uma galeria de artes e voltassem suas visões para essa galeria e apreciassem cada peça artística fixada na parede, escolhendo em seguida aquela que tivesse alguma coisa relacionada consigo, que lembrasse algo, ou simplesmente que mais lhes chamasse a atenção. Essa galeria de artes foi criada e apresentada a eles. Eram figuras fixadas nas paredes da sala de oficinas. Estas atividades tiveram como objetivos fazer com que os adolescentes percebessem o ritmo do caminhar em sua vida, e a escolha das gravuras da galeria seria uma forma de entrarem em contato com seu agora, como se fossem um espelho refletindo como se viam no mundo.

Ao final do encontro, indagamos quem do grupo gostaria de participar da pesquisa. Dos vinte e três participantes, quinze concordaram em fazer parte do grupo (quatro meninas e onze meninos). Fechamos a data e o horário da primeira oficina de produção de dados, ou seja, a primeira aproximação com os que viriam a ser o grupo-pesquisador.

2ª Oficina de sensibilidade e criatividade: produção de dados pela escolha do tema gerador

Na conversa franca, fizemos a apresentação dos objetivos do trabalho e explanação da proposta metodológica e temática da forma mais completa, pois, no encontro anterior, havíamos comentado sobre essas questões de uma forma geral. Reforçamos a idéia de que formávamos um grupo-pesquisador, no qual eles seriam os co-pesquisadores e nós os facilitadores da pesquisa; falamos da necessidade de se preservarem os aspectos éticos na pesquisa, como o anonimato do grupo. Por fim, eles permitiram o registro das produções e análises com fotos e gravações.

No segundo momento, realizamos a técnica Descontração(6), cujo intuito era proporcionar a liberação de energia e ansiedade que o grupo demonstrava. Lançamos um desafio: "queremos ver quem acompanha o ritmo". Eles deveriam dançar ao som de vários ritmos musicais (forró, rap, valsa, pagode, instrumental, rock e axé). A participação foi quase geral. Apenas dois co-pesquisadores não se envolveram por inteiro nessa técnica, pois ficaram meio tímidos, encostados à parede, ou tentando mudar de posição pela sala, como quem não quisesse ser observado pela sua inércia, ou, ainda, tentando quebrar aquela timidez que os impedia de entrar na desordem dos outros. Dançando, envolvidos pelo embalo das músicas, outros participantes empurravam-se, xingavam-se, sorriam facilmente. O inédito do momento era expresso em seus comportamentos e reações. O momento foi de empolgação, movimento liberador de energias físicas e emocionais.

Na produção de dados, eles permaneciam mais descontraídos e menos ansiosos. Pedimos que o grupo pensasse a partir da seguinte frase: o que pinta para mim quando penso na palavra droga? Para a exposição do pensamento dos participantes foi utilizada a técnica atividade com materiais de sucatas, havendo sido orientados a utilizar os diversos materiais (linhas, tintas guache, pincéis, lápis de cera e de cores, revistas, jornais, grãos, cola, tesoura, algodão, pedaços de madeira, fitas coloridas e outros), dispostos no centro da sala, expressando livremente sua imaginação através de produção plástica. O objetivo dessa técnica foi a escolha do tema gerador.

Com base nas produções plásticas do grupo e exposições orais a estas referentes, observamos a presença marcante de aspectos como violência, morte, prazer, exclusão, relações sociais, familiares e fé, associados ao uso de drogas. Mesmo assim, saímos sem fechar o tema gerador em virtude da diversidade de idéias e opiniões sobre a temática, permeadas de subjetividade. Na oficina seguinte de produção, elaboramos o tema gerador.

3ª. Oficina de sensibilidade e criatividade: produção de dados através do tema gerador drogas - uma relação de prazer e violência

Iniciamos a "conversa franca" ou acolhida antecipando ao grupo a intenção de que retomaríamos as produções da atividade com materiais de sucatas realizadas na oficina imediatamente passada, cujo objetivo era fechar o tema gerador.

Por mais que a oficina passada tivesse revelado situações relacionadas à percepção dos adolescentes sobre as drogas, na condição de facilitadores da pesquisa, ainda não tínhamos certeza da real definição do tema gerador. Talvez isso acontecesse por se tratar de algo tão democrático e de tamanha importância para a pesquisa que utiliza a sociopoética através do método do grupo-pesquisador como forma de produzir dados, pois a fase de negociação (planejamento e tomadas de decisões) exige muito do pesquisador-facilitador. Entendemos que, certamente, esse é um dos maiores desafios da pesquisa que utiliza ou se inspira no referencial teórico-metodológico da sociopoética, pois nem sempre os pesquisadores estão dispostos a mudar seus problemas de pesquisa, uma vez que o nosso desejo em pesquisar uma problemática qualquer está ligado também às nossas implicações políticas, libidinais, materiais, emocionais e outras de ordem técnica e burocrática.

Muitas vezes temos que retomar com a mesma técnica do encontro anterior, trazendo novamente para discussão os resultados produzidos e até fazendo uma avaliação do impacto que ele possa ter causado aos participantes. Foi isso o que ocorreu nessa oficina e em outros momentos da pesquisa.

Nesse dia, iniciamos os trabalhos de produção dos dados, retomando as produções plásticas realizadas na oficina passada, através da técnica atividade com materiais de sucatas e posteriormente utilizamos a técnica, O Vampiro de Estrasburgo(7), no momento do relaxamento, com finalidade de extravazar a ansiedade e a tensão do grupo com gritos e risadas. Escolhemos um vampiro através de sorteio. Todos deveriam andar pela sala de olhos vendados, inclusive o vampiro. Este procuraria atacar pessoas, apertando-lhes o pescoço e quem fosse atacado passaria a ser vampiro também. Quando já estavam envolvidos e misturados, a técnica foi interrompida, e solicitamos que parassem onde estivessem. Formamos duplas com aqueles integrantes corporalmente mais próximos. Essas duplas deveriam escolher uma produção da técnica atividade com materiais de sucatas, que não fosse de nenhum de seus integrantes e analisá-las, apresentando o que significava, ou seja, que impressão trazia para a dupla.

A produção do grupo-pesquisador nessa oficina foi a escolha do tema gerador para a pesquisa: "Drogas - relação de prazer e violência". Essa escolha decorre do fato de que, durante esses dois encontros, o prazer e a violência foram aspectos ligados às drogas que estiveram muito presentes nas falas, produções plásticas e até atitudes. O grupo apresentou-se mais envolvido, passando a impressão de que, após o fechamento do tema gerador, seus integrantes sentiram-se ainda mais responsáveis pelas oficinas. Isso foi transparecendo a cada encontro, pois, no começo, o grupo que se mostrava muito disperso foi evidenciando maior envolvimento.

Com o objetivo de promover a integração, o aquecimento e a descontração do grupo, o que, até então, achávamos não ter atingido, realizamos a técnica, Balão no Pé(6), na qual todos deveriam inflar um balão e amarrar com um cordão no tornozelo direito; em seguida, dançarem ao som de uma música alegre e, quando parasse a música, poderiam estourar os balões dos outros. O prazer e a violência corporal estiveram presentes durante a técnica, representados pelo empurra-empurra de seus corpos, risos, desordens, mensagens não atendidas, balões estourados antecipadamente. Enfim, vivenciaram aquele momento do jeito deles.

Ao terminar a técnica "Balão no Pé", eles estavam mais calmos e tranqüilos. Pedimos que formassem dupla com quem tivessem maior intimidade e cada dupla fizesse uma escultura com seus corpos, pensando no tema de pesquisa: Drogas - relação de prazer e violência. Seqüencialmente, cada dupla explicaria o motivo daquela expressão. A ação era repetida com as outras duplas. Essa Técnica da Estátua permitiu a criação, através de seus corpos, com posições, gestos e impressões.

Durante a sua realização, todos envolveram-se, ficando atentos às esculturas dos colegas. Finalizamos o dia com a avaliação, quando falamos de nossas ansiedades, desejos e dúvidas com relação às oficinas, dizendo que gostaríamos que eles também trouxessem idéias de como seria a socialização do tema de pesquisa. Nesse mesmo dia, o grupo decidiu que criaria uma banda musical que comporia uma música com a letra voltada à relação entre droga, violência e prazer, que seria socializada com uma apresentação na festa de comemoração do Dia das Mães, que aconteceu no próprio abrigo. A apresentação da banda musical "Meninos do Abrigo" foi a socialização de nossa pesquisa.

4ª. Oficina de sensibilidade e criatividade: Produção de dados através da explosão de cores

Começamos a acolhida com um diálogo descontraído entre facilitadora e co-pesquisadores. Fizemos uma avaliação do encontro passado. Nessas avaliações, falávamos sempre dos nossos papéis como membros do grupo-pesquisador e, principalmente, da liberdade que os co-pesquisadores tinham de fazer parte ou não dessa pesquisa. Entendemos que chegar a alguns acordos era importante para todos, não só pelo fato de eles fazerem parte do grupo-pesquisador, mas, também, por serem companheiros de instituição e até de quarto. As regras de convivência harmônica deveriam extrapolar os espaços do grupo, principalmente pelo fato de seus integrantes estarem longe do convívio de seus familiares ou parentes próximos, sendo o abrigo a morada de alguns. Entre as regras acertadas, tivemos: cada um deveria respeitar as idéias dos outros, todos deveriam se aceitarem como são, ajudarem-se mutualmente chamarem-se pelo nome, e não por apelidos pejorativos, além de manterem uma relação cordial.

Em seguida, realizamos um relaxamento, talvez não tão relaxante, mas, certamente, disparador da sensibilidade e desencadeador do potencial imaginativo. Utilizamos uma adaptação da técnica, Pensando através do meu corpo(8),por meio da qual , via estímulo do tato e do olfato com objetos de várias texturas e formas, eles deveriam falar da experiência a partir da seguinte frase: "Para mim, pensar por meio do meu corpo me faz sentir que nas drogas a relação de violência e prazer é...". Nessa técnica, os objetos passavam de mão em mão e os participantes deveriam estar de olhos vendados.

Resolvemos investir nas cores como nossas categorias referenciais, pois, com elas, criaríamos condições para estimular imaginação, sensibilidade, criatividade e expressão de sentimentos. Como trabalhos de produção de dados, realizamos a técnica revisão da vida.(9) Após sua adaptação, a rebatizamos de as cores da vida. Nela, os participantes deveriam pintar ou desenhar lembranças significativas de suas vidas, associando cores a essas épocas: primeira infância (0 a 6 anos); fase pré-escolar, segunda infância (6 a 12 anos); fase escolar e adolescência (12 anos até a idade atuais ). O sentido dessa técnica foi verificar a presença da relação de drogas, violência e prazer nas diferentes fases de suas vidas, associando a estas uma cor.

Essas produções foram realizadas em uma grande folha de papel, dividida por duas faixas verticais, que simbolizavam as três fases da vida. O material utilizado para suas expressões foi tinta guache e giz de cera. Todo o grupo se envolveu nas produções e, ao final dos trabalhos, os adolescentes foram se relacionando também uns com os outros, fazendo pinturas em seus corpos e rostos, compartilhando cores e idéias; uns iam pintando os outros que estavam meio tímidos pelos cantos da sala. As cores invadiram o espaço e os corpos; os sorrisos estavam estampados em cada um. A impressão era de que o grupo queria dar outro matiz à vida de todos seus componentes, desejando mudar o destino e traçar um futuro diferente do presente que vivenciavam.

Para finalizarmos a manhã, pedimos que apenas com uma palavra eles avaliassem como tinha sido o encontro e em seguida fizemos o encerramento da oficina com um abraço ao som da música "O que é, o que é", de Gonzaguinha.

5ª. Oficina de sensibilidade e criatividade: produção de dados através das cores da vida

No acolhimento, discutimos pontos pendentes para a socialização da pesquisa e sobre o relacionamento grupal, isto é, relações entre os próprios co-pesquisadores, pois, como havíamos observado, em encontros anteriores, a ocorrência de atitudes preconceituosas de alguns integrantes para com outros, resolvemos trabalhar esse dado. Exercitamos a Técnica da exclusão como forma de relaxar, descontrair e fazer com que o grupo refletisse sobre como cada um se sentia sendo excluído, sempre fazendo relação à temática drogas. Nessa técnica, todo o grupo ficou na sala, com exceção de apenas um integrante, que ficou isolado por alguns minutos, sendo orientado a inserir-se no círculo formado pelos outros colegas. Já o grupão que permaneceu na sala não deveria permitir a entrada do colega, formando um círculo com os braços entrelaçados. Por diversas vezes, o membro excluído tentou entrar, sendo barrado pela força maior e coesão grupal. Ao término da técnica, foi indagado para o membro excluído o seguinte: Como você se sentiu sendo excluído pelo grupo? Para os outros integrantes, a pergunta foi: Como vocês se sentiram excluindo-o do grupo? Após as respostas, solicitamos que eles refletissem se esse preconceito e exclusão vividos pelo colega fossem associados com aquele vivido pelo usuário de droga.

Continuamos o encontro com a técnica de produção Se nossa vida fosse uma cor. Delimitamos espaços na sala com essas cinco tonalidades, definindo-os como ilhas: azul, vermelha, branca, verde e amarela. Os participantes deveriam escolher aquela ilha que possuísse o tom com o qual eles mais se identificassem e, em seguida, já formados os subgrupos, deveriam produzir um painel com tinta guache da cor escolhida. A frase desencadeadora foi: "Se minha vida fosse verde, amarela...como seria essa vida"? Os adolescentes foram despertados para o fato de que sempre deveriam relacionar a pergunta norteadora ao tema gerador. Foi um momento lúdico, quando cada subgrupo teve a oportunidade de experimentar a tinta, criar formas e desenhos, "viajar" no universo da cor escolhida. Terminado o trabalho, cada subgrupo apresentou o que foi produzido, socializando o resultado final por meio da explicação do que procuraram representar.

Finalizamos com uma técnica de descontração - Jogo do toque(6), pela qual o grupo, ao som de uma música alegre, circulava dançando pela sala e respondendo a alguns códigos, como: pé com pé, dedo indicador com dedo indicador, costas com costas, mão com mão..., tudo isso feito em duplas. Ao término dos trabalhos, avaliamos a oficina.

6ª oficina de sensibilidade e criatividade: analisando os dados em cores (Parte I)

Na conversa franca ou acolhimento, fizemos breve avaliação da pesquisa e, já que estávamos numa oficina de análise, procuramos saber o que o grupo carregava sobre o significado de análise. Então, antes de partirmos para o relaxamento, indagamos: O que significa para vocês analisar? Ao manifestar sua opinião, percebemos que o grupo-pesquisador revelou seu conhecimento, estando realmente consciente de suas responsabilidades ao analisar o que estava por trás daquelas produções.

No relaxamento, foi realizada a técnica Mudança de Código(6), havendo os participantes dançado ao som de uma música alegre e tranqüila, devendo prestar muita atenção aos códigos fornecidos: dançar em fila, para frente, para trás, formar um círculo em movimento, um outro círculo de garotas ao meio, uma fila ordenada por altura, o mais alto na frente, depois o contrário, o mais baixo na frente e, por último, formar uma fila alternando um garoto ou uma garota, um alto e um baixo. Ao final da técnica, formamos subgrupos com aqueles que se encontravam mais próximos. Essa atividade teve como objetivo descontrair, para iniciar os trabalhos livres de tensões, e estimular a atenção.

Iniciamos o processo de análise com um momento chamado de Galeria de artes em cores. Os subgrupos passearam pela galeria de artes montada na sala, olhando as produções das oficinas passadas (atividade com materiais de sucatas, técnica da estátua, as cores da vida, se nossa vida fosse uma cor) e, em seguida, cada subgrupo escolhia uma para analisar, podendo o resultado da análise ser construído com a ajuda de cartazes, música, história, pintura ou formas artísticas diversas.

Foram formados três subgrupos, dois dos quais preferiram criar um painel com desenhos e pinturas, enquanto outro criou uma historinha inspirada nas produções escolhidas para análise. Ao final, cada subgrupo expressou-se sobre sua produção criada a partir da análise e o porquê de escolher essa forma de analisar.

Ao final da oficina, foi utilizada a técnica Dançando com balões.(6) Distribuímos um balão para cada dupla e, a partir daí, os adolescentes dançaram ao som de uma música moderna e alegre com seus balões, respondendo aos seguintes códigos: balão entre as costas da dupla, trocar de dupla, balão entre a dupla (na frente), trocar de dupla sem colocar a mão no balão e sem deixar cair. O momento foi motivante, alegre e descontraído.

7ª. Oficina de sensibilidade e criatividade: analisando os dados em cores (Parte II)

Na conversa franca, os participantes do grupo apresentavam-se serenos como nunca, uma vez que dos já se sentiam bem à vontade; sentimos uma certa diferença. Iniciamos explicando que seria a última oficina de análise, como já havíamos combinado, restando-nos apenas o encontro da restituição dos dados ou contra-análise.

A oficina continuou com a técnica, Jogo da mentira, uma variação do Jogo da verdade10. Empregamos esta técnica numa tentativa de fazer o grupo revelar outros pensamentos não ditos, sair da repetição do discurso institucionalizado. O jogo ocorreu da seguinte forma: o grupo sentou-se em círculo, cada um recebeu um número e um voluntário iniciou o jogo pegando o número que íamos sorteando. O número sorteado correspondia àquela pessoa a quem ele deveria fazer a pergunta, que deveria ser respondida com uma mentira. Todos participaram da técnica, tendo feito uma pergunta e respondido outra, pelo menos uma vez. As perguntas deveriam ter relação com o tema de pesquisa.

O grupo ficou entusiasmado com a técnica, agitado e atento para ouvir as perguntas e respostas dos colegas. Embora todos tenham participado do jogo, hesitavam em responder, talvez porque a mentira terminasse revelando a verdade, e isso, para muitos, incomodava.

Em seguida, propusemos um relaxamento ao som de uma música suave e descontraída. Foi solicitado ao grupo que se posicionasse confortavelmente, de olhos fechados, e, em seguida, pedimos que eles ficassem em silêncio, ouvindo somente o som da música. Então dissemos: "vamos iniciar uma viagem, será uma viagem bem diferente daquelas que você tem costume de fazer. Você irá fazer uma viagem num tapete mágico...". Nesse relaxamento, pudemos perceber o quanto foi proveitoso para o grupo desencadear o potencial imaginativo, liberando tensões e deixando os adolescentes livres para a análise dos dados até então produzidos.

Para a análise, dividimos o grupo em dois subgrupos. A técnica aplicada para essa divisão deu-se a partir dos números que todos receberam na técnica "Jogo da mentira". Aqueles que receberam números pares formavam um subgrupo e os de números ímpares outro; assim, os subgrupos ficaram bem mesclados.

Para essa oficina de análise, trabalhamos com a técnica de História a continuar. Com os dois subgrupos formados e reunidos, cada um deles ficou com uma historinha a continuar. O início de cada historinha foi confeccionado a partir das produções plásticas e falas do grupo, sendo que seu conteúdo foi baseado no que ficou evidente para nós, não só em suas produções e falas, como também em suas análises e comentários da oficina passada.

Finalizamos o encontro com a avaliação do dia, explanando para o grupo-pesquisador que teríamos somente mais um encontro para a restituição dos dados ou contra-análise.

8ª. Oficina de sensibilidade e criatividade: restituição e discussão dos dados produzidos e analisados pelo grupo-pesquisador

O último encontro do grupo-pesquisador deu-se com a restituição e discussão dos dados que havíamos produzido e analisado. Aconteceu um mês e quinze dias após a última oficina de análise, o maior espaço já ocorrido entre uma oficina e outra. Mesmo assim, o grupo ainda se fazia grupo. Iniciamos com o momento de acolhida. Esse encontro ficou marcado por um sabor de saudade e lamentação pelo fato de a pesquisa ter chegado ao final. Embora fosse o último dia, cuidamos para que tudo ficasse parecido com os encontros anteriores, cheios de vida, alegres e produtivos; mas foi impossível, pois os semblantes de tristeza ficaram evidentes.Havia um sentimento de inconformismo em razão do fim dos trabalhos, conforme expresso pelo grupo. Isso justifica-se pelo fato de termos desenvolvido uma relação de carinho, respeito e construção coletiva do conhecimento.

Ressaltamos a importância da gradativa quebra de vínculos com qualquer tipo de grupo que tem encontros de periodicidade mais freqüente, inclusive grupos de pesquisa, pois, na experiência vivida, embora fosse um grupo de investigação, relações foram estabelecidas e fortificadas. Aquele momento de pesquisa virou um espaço de expressão de sentimento dos adolescentes, tornando-se terapêutico para alguns deles.

Ao som de uma música suave, e estando todos posicionados confortavelmente, iniciamos o relaxamento. Falamos para o grupo: "Nesse momento, vamos nos preparar para fazer uma viagem pelo nosso imaginário...". E agora expresse como foi essa viagem para você, o que você encontrou, sempre pensando no tema da pesquisa".

Em seguida, fizemos a restituição dos dados produzidos e analisados pelo grupo-pesquisador. Todos escutaram atentamente o que falávamos, confirmando tudo aquilo que havíamos produzido com os diversos dispositivos utilizados. Após esse momento de restituição dos dados, tivemos a certeza de que estávamos nos separando.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Toda essa construção coletiva teve marcas de pegadas e matizes de uma aquarela pintada a várias mãos, oportunidade em que as cores esboçaram sentimentos, vivências e experiências compartilhadas. Com esta pesquisa adentramos no enigmático mundo das drogas, sendo guiadas por um grupo de adolescentes institucionalizados através dos caminhos sinuosos de suas vivências, buscando propiciar dispositivos não convencionais ou habituais que lhes permitissem expressar seus sentimentos na relação entre droga, violência e prazer.

Para trabalharmos tal problemática, fomos buscar inspiração na sociopoética, na fundamentação de idéias que perpassam esse método de pesquisa, sua visão de mundo, de pesquisa e seu tipo de abordagem, da qual nos apropriamos, o método do grupo-pesquisador, o qual lança mão de uma abordagem grupal para a realização da produção ou coleta de dados.

A pesquisa sociopoética considera os sujeitos da pesquisa como atores, os quais se transformam em grupo-pesquisador, sendo co-autores de toda a produção. Diante disso é que ressaltamos o quanto grupos de adolescentes podem ser favorecidos por este método que busca valorizar as pessoas como sujeitos co-pesquisadores, propondo a percepção das dimensões afetiva, sensitiva, intuitiva, imaginativa e, também, racional no processo de pesquisa. Dessa forma, o que faz o diferencial da Sociopoética é a utilização das diversas linguagens corporais como fonte de conhecimento, sendo expresso por técnicas grupais.

Com a utilização das técnicas descritas, consideramos que essas oficinas tenham sido um espaço propício para o aprendizado entre os co-pesquisadores, pois todos tiveram a oportunidade de aprender uns com os outros, de reaver sua auto-estima, o doce sabor da vida, descobrirem-se, falarem de suas vidas e seus sentimentos quanto às drogas e também vivenciarem o momento das oficinas como sendo um espaço terapêutico, embora tivéssemos consciência de que, naquele momento, tornar o trabalho terapêutico para os adolescentes não era o objetivo.

Essas oficinas de sensibilidade e criatividade trouxeram mudanças para a vida dos adolescentes. Sentimos, desde cedo, o quanto estavam sendo importantes para a vida daqueles meninos e meninas, uma vez que as transformações ocorridas mostravam-se a todo instante, na mudança de atitude, na socialização, na participação das atividades, na capacidade de parar e refletir sobre suas vidas e pensar em saídas para problemas antigos, entre tantas outras mudanças. As oficinas possibilitaram vivências tão fortes para cada um dos participantes, que, embora não seja este o objetivo desse método, houve seus efeitos terapêuticos. E isso se deu, simplesmente, pelo fato de representar um espaço de livre expressão de pensamentos e de sentimentos, um reconhecimento legítimo do direito desses adolescentes à vez e à voz.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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