REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 14.1

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Editorial

A trajetória do pesquisador em enfermagem

Adriana Cristina de Oliveira

Pós-doutora pela Universidade de Nova York. Pesquisadora do CNPq. Coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Infecção Relacionada ao Cuidar em Saúde (NEPIRCS/CNPq). Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem Básica da Escola de Enfermagem - Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). E-mail: adrianacoliveira@gmail.com

 

A enfermagem vem, através dos anos, passando por inúmeras transformações políticas e sociais. Por um longo período, a preocupação com o "fazer" ou "cuidar" constituíam a prioridade da profissão "enfermagem". Com o passar do tempo, porém, mais marcadamente a partir da década de 1970, a necessidade de rever o pensar e as práticas de enfermagem contribuíram para torná-la uma profissão de maior visibilidade e com maior inserção social e acadêmica. As mudanças permitiram a busca incessante de princípios e normas de investigação e do método científico para contribuir com a pesquisa de enfermagem e saúde. A mobilização da profissão por meio do incentivo à formação de mestres e doutores, bem como a reunião desses nos grupos de pesquisa, definiu as bases para a gênese das linhas de pesquisa e dos pesquisadores em enfermagem.

A pesquisa e a produção do conhecimento na área de enfermagem constituem uma prioridade estratégica em todo o mundo. É nessa perspectiva que os grupos de pesquisa formam a base para esse trabalho e esforço coletivo, possibilitando a ampliação da produção do conhecimento, a captação de novos talentos em diferentes níveis, desde alunos de iniciação cientifica até os de mestrado e doutorado nos programas de pós-graduação.

Chama atenção a crescente demanda de profissionais dos serviços engajando-se como pesquisadores. Todos esses esforços foram construídos em torno de uma única meta: o avanço do conhecimento em enfermagem em prol da qualidade da saúde da população, da inovação científica e tecnológica e da formação do ambiente propício à geração de conhecimento.

A pesquisa em si decorre de uma prática que tem fundamento no cotidiano assistencial, na investigação e na resolução de problemas. A formação do pesquisador inicia-se desde a graduação, quando o aluno inserido nos projetos de iniciação científica e, consequentemente, nos grupos de pesquisa de um pesquisador-orientador tem a oportunidade de começar a pensar, ensaiar e refletir sobre os problemas para os quais a pesquisa busca solução. Começa aí, como uma incubadora, a transmutação pela aquisição de habilidades, pela oportunidade de inserção plena nos projetos, na elaboração, no trabalho de campo e na análise crítica dos relatórios de pesquisa, resumos, apresentação de trabalhos em eventos, etc. Paralelamente à sua vivência de graduando, o aluno pode perceber a origem da proposição da pesquisa com um forte elo no cuidar, na prática de enfermagem.

Durante a pós-graduação stricto sensu, a formação do mestre e doutor tem como objetivo o processo de entalhar e burilar um pesquisador. É necessário que os alunos estejam preparados para a caminhada, que não é fácil e necessita de muito exercício, leitura, reflexão e escrita. Talvez esse último aspecto seja um dos grandes desafios dos alunos: a capacidade de expressar pela linguagem escrita aquilo que é pertinente à trajetória e ao desenvolvimento da pesquisa. A produção de ensaios, artigos de revisão, resultados parciais do trabalho também são muito interessantes para a formação dos alunos.

Enfim, ser pesquisador é um desafio cotidiano. Vivenciar a pesquisa como objeto de avanço do conhecimento na saúde e, sobretudo, na enfermagem é uma grande contribuição para o pesquisador e para a área. A pesquisa traz em si inúmeros obstáculos, como o aprimoramento das habilidades necessárias para se tornar um pesquisador, que vai além da formação nos anos de mestrado e doutorado - quer dizer, viver a pesquisa. Os cursos de pós-graduação cumprem a proposição do método como norteador para o delineamento, o rigor da condução, a análise, o impacto na prática, na educação e na própria pesquisa, e não para por aí.

A comunicação de resultados da pesquisa não poderia deixar de ser mencionada. Antes da comunicação vem a grande preocupação com a necessidade do financiamento dos projetos de pesquisa.

Um dos desafios a ser enfrentado é o apoio das agências de fomento à ciência e à tecnologia, em especial para as pesquisas experimentais em enfermagem, cujos resultados possam impactar uma prática mais humanista e técnica. Ressalte-se aqui uma característica ainda bastante comum das pesquisas em enfermagem, quase sempre com delineamento "descritivo". E, no que se refere à comunicação de resultados em periódicos de grande circulação, principalmente em âmbito internacional, perante a comunidade científica, a questão é ainda mais séria, a competitividade é alta e quase sempre esbarra-se nos problemas de idiomas, cultura e interesse da pesquisa.

Diante desse cenário, só resta ponderar sobre alguns pontos importantes para o avanço e a consolidação da pesquisa em enfermagem: a utilização de descritores em ciências da saúde, conforme previsto pela biblioteca virtual em saúde (www.decs.bvs.br), sem se esquecer do descritor "enfermagem", adequação do título ao conteúdo do trabalho, expressando de forma fiel sua abordagem. Além disso, deve-se ter sempre em mente que publicar é um compromisso social do pesquisador, uma responsabilidade dele de apresentar à comunidade científica e à sociedade os resultados obtidos em suas pesquisas. E, quando tais trabalhos são originados de dissertações de mestrado e doutorado, tal compromisso é ainda maior, pois devem ser submetidos à publicação imediatamente após a defesa, porque os dados tendem a ficar desatualizados e as revistas passam a não mais aceitá-los com tanta facilidade, dada a rápida evolução do conhecimento.

Com essa preocupação e dadas, também, as exigências das principais agências de fomento - como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Agências Estaduais (FAPES) e a própria Pós-Graduação -, a divulgação do conhecimento derivado da formação de mestrado e doutorado é condição premente e não se pode deixar que o esforço, o tempo e a dedicação do trabalho de orientação se "percam".

Contudo, não se deve esquecer de que o produto do conhecimento só é relevante quando vinculado a um benefício social, ou seja, não somente sob a ótica do que se produz, mas de como poderá ser consumido.

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