REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 17.4 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20130070

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Relato de experiência

Segurança no preparo e na administração de medicamentos, à luz da pesquisa restaurativa em saúde*

Safety in medication preparation and administration, in light of restorative health care research*

Fernanda Raphael Escobar Gimenes1; Silvia Helena De Bortoli Cassiani2

1. Enfermeira. Doutora em Ciências da Enfermagem. Docente da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo - EERP-USP. Ribeirão Preto, SP - Brasil
2. Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Titular e Diretora da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo - EERP-USP. Ribeirão Preto, SP - Brasil

Endereço para correspondência

Fernanda Raphael Escobar Gimenes
E-mail: fregimenes@eerp.usp.br

Submetido em: 09/05/2013
Aprovado em: 10/10/2013

Resumo

O objetivo foi obter a visão dos profissionais de enfermagem de uma unidade de terapia intensiva (UTI) do interior paulista, em relação aos aspectos existentes nos processos de preparo e de administração de medicamentos, o que, segundo os profissionais, contribui para a segurança do paciente ou, ao contrário, são vistos como barreiras para a administração segura dos medicamentos. O estudo foi dividido em quatro fases. Foram utilizadas técnicas diversificadas de coleta de dados: grupos focais, narração fotográfica, foto elicitation e observação em campo. A coleta e a análise dos dados ocorreram de maneira interativa, segundo a orientação teórica da pesquisa restaurativa em saúde. Seis temas foram obtidos da análise: identificando o ambiente assistencial como contribuinte para a segurança no preparo e na administração de medicamentos; identificando riscos no ambiente assistencial; percebendo o ambiente assistencial como fator de risco para os acidentes ocupacionais; tendo que conviver com o sentimento de "impotência" diante da cultura organizacional vigente; convivendo com os improvisos no dia-a-dia do trabalho; e vislumbrando possibilidades de mudanças no ambiente assistencial. A experiência de utilizar a abordagem restaurativa em saúde auxiliou na compreensão das barreiras e das medidas facilitadoras voltadas para a segurança no preparo e na administração de medicamentos. Os temas obtidos também demonstraram que os problemas existentes na UTI interferem na segurança tanto dos pacientes como dos profissionais. Logo, os líderes devem rever a forma de gerenciar a segurança na instituição.

Palavras-chave: Gerenciamento de Segurança; Segurança do Paciente; Unidades de Terapia Intensiva; Remeduação Ambiental; Pesquisa; Fotografia.

 

INTRODUÇÃO

Um dos maiores desafios dos hospitais do século XXI é acompanhar a evolução tecnológica e científica que ocorre no âmbito da assistência. No entanto, não só os serviços de saúde mudam ao longo do tempo, mas também a gravidade das doenças. Nos últimos anos, a mudança do perfil demográfico e epidemiológico tem estado associada ao aumento de pessoas em condições crônicas e degenerativas internadas nos hospitais de todo o mundo.1 A mudança desses perfis requer que o cuidado ao paciente esteja relacionado à incorporação de novas tecnologias em saúde, bem como às intervenções terapêuticas e à utilização de medicamentos complexos nos tratamentos.

Em busca de equilíbrio, os hospitais e demais instituições de saúde procuram se adaptar a essas mudanças, recorrendo a estratégias temporárias para lidar com problemas urgentes. Essas estratégias são frequentemente precárias e voltadas para a minimização dos sintomas do problema, não atendendo às verdadeiras causas e resultando em riscos para a segurança dos pacientes.

De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, um em cada 10 pacientes hospitalizados é vítima de danos causados pela assistência prestada em hospitais bem estruturados e tecnologicamente avançados. Acredita-se que em países em desenvolvimento e/ou em transição essa realidade seja ainda pior.2

Logo, há a necessidade de pesquisas diversas na área da saúde e de abordagens inovadoras naquelas envolvendo a qualidade do cuidado e a segurança do paciente.2 Entre essas, a abordagem restaurativa em saúde, que tem por objetivo fortalecer as relações existentes entre as pessoas e os ambientes onde atuam.3-6

Nas pesquisas restaurativas em saúde, os pesquisadores estimulam a participação das pessoas na obtenção dos dados e usam as narrativas dos partícipes com o propósito de examinar as vidas e as experiências dos indivíduos ou grupos na busca pela compreensão do fenômeno sob investigação. O envolvimento das pessoas nessas pesquisas permite que as pessoas analisem suas práticas profissionais, na tentativa de melhorá-las. Ao refletirem sobre os problemas vivenciados em seu cotidiano, quer sejam eles de ordem econômica, física, social ou cultural, as pessoas são capazes de identificar e propor possibilidades de mudança. Esse tipo de investigação valoriza o ponto de vista das pessoas, favorece a outorga de poder e dá voz àqueles que são considerados "oprimidos" por um sistema complexo e inseguro, como é o ambiente hospitalar.

A abordagem restaurativa em saúde foi utilizada nesta investigação, considerando-se que "os profissionais são capazes de reconhecer problemas, analisar suas distintas conformações, assumir os conflitos presentes no dia-a-dia do trabalho e, de forma imperiosa, buscar formas de reinventar/recriar as alternativas de trabalho". Essa abordagem também permite que a equipe de saúde trabalhe em conjunto, de modo a tornar o ambiente assistencial eficiente, ético e seguro.7,8

Optou-se, igualmente, pela abordagem restaurativa em saúde, porque é inovadora nos estudos nacionais e é uma proposta viável e baseada em evidências científicas, cuja divulgação poderá auxiliar os estudos brasileiros sobre o tema, além de favorecer a tomada de decisão que direcionará o futuro das organizações.3,9-11

 

OBJETIVOS

Obter a visão dos profissionais da equipe de enfermagem de uma unidade de terapia intensiva (UTI), em relação ao ambiente assistencial no qual ocorrem os processos de preparo e de administração de medicamentos, segundo a abordagem da pesquisa restaurativa em saúde. Buscou-se também identificar os aspectos que a equipe de enfermagem entende como sendo fatores que contribuem para a segurança do paciente ou que, ao contrário, são vistos como barreiras para a administração segura de medicamentos.

 

METODOLOGIA

A pesquisa foi realizada em uma UTI geral de um hospital de médio porte do interior do estado de São Paulo, após aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (Protocolo nº 1096/2009).

A UTI possui 10 leitos e recebe estudantes da região dos cursos de Enfermagem de nível médio e superior. É composta do total de 27 profissionais de enfermagem, sendo 22 técnicos e cinco enfermeiros. Participaram da pesquisa 23 profissionais de enfermagem e um médico intensivista. Todos foram convidados a participar do estudo voluntariamente e por escrito, mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

A UTI foi eleita como local de estudo por se tratar de unidade complexa, tecnológica e, portanto, vulnerável aos eventos adversos e aos erros de medicação. Um paciente internado em uma UTI recebe por volta de 178 intervenções por dia, sendo que 1% delas envolve erros de medicação. A mortalidade em UTIs americanas é estimada em 8 a 10%, resultando em 400.000 a 500.000 mortes anualmente.12 No Brasil, a realidade não é diferente e vem sendo descrita em diversos estudos.13-15

A pesquisa foi dividida em quatro fases. A primeira teve por objetivo conhecer o ambiente assistencial da equipe de enfermagem em que ocorrem os processos de preparo e de administração de medicamentos. Na segunda fase, buscou-se documentar as práticas seguras e inseguras nesses processos por meio de registros fotográficos e de narrativas visuais. Na terceira, o objetivo foi evocar, por meio de imagens, reflexões dos profissionais acerca de potenciais mudanças a serem implantadas no sistema de medicação e no ambiente assistencial. A quarta fase visou documentar, por meio dos registros fotográficos, as mudanças ocorridas na UTI quatro meses após a implantação das mudanças sugeridas pelos participantes do estudo.

Antes da coleta de dados propriamente dita foi agendada reunião com a gerente de serviço do hospital, para apresentar-lhe o projeto de pesquisa, os objetivos, o método e as técnicas de coleta de dados a serem empregadas. A divulgação do estudo foi autorizada pela gerente e um fôlder de recrutamento para os grupos focais foi afixado na UTI.

Uma semana depois, a pesquisadora retornou à unidade a fim de realizar explanações aos profissionais de enfermagem da UTI sobre os objetivos do estudo e sobre os procedimentos metodológicos e éticos a serem adotados. Nesse encontro, a pesquisadora solicitou aos profissionais datas e horários prováveis para a realização dos grupos focais (GFs). Tendo em mãos o cronograma, o mesmo foi afixado no quadro de avisos da UTI com um mês de antecedência ao primeiro grupo focal. Esses contatos foram importantes para a adesão dos profissionais aos grupos.

Posteriormente, iniciaram-se a coleta, a organização e a análise interativa dos dados, segundo a orientação teórica da pesquisa restaurativa em saúde (Figura 1).3,5,10

 


Figura 1 - Coleta, organização e análise interativa dos dados, segundo a orientação teórica da abordagem restaurativa em saúde.
Fonte: adaptado de Creswell.29

 

A análise interativa dos dados é vista como um processo reflexivo, cujo objetivo é gerar conhecimento e favorecer o desenvolvimento de significados. Esse tipo de análise envolve três questões básicas que devem ser respondidas ao longo do processo: o que os dados estão me dizendo? O que eu desejo saber a partir dos dados? Qual a relação dialética existente entre o que os dados estão me dizendo com aquilo que eu desejo saber?16

A primeira questão visa a identificar os pontos iniciais de interesse ou o foco para o qual o pesquisador deve se voltar, tendo por base as questões da pesquisa. A segunda tem o propósito de refinar esses pontos, enquanto que a terceira se propõe a integrar o conjunto de dados (narrativas e fotografias) por meio do cruzamento das informações obtidas no decorrer do estudo. Esse cruzamento permite ao pesquisador identificar possíveis falhas na coleta de dados e a compreender o que está acontecendo entre os participantes e entre eles e o seu meio. Nesse contexto, o pesquisador poderá deparar com algumas questões que necessitarão de mais esclarecimento por parte dos participantes do estudo, as quais deverão ser respondidas nas etapas subsequentes da pesquisa.

Devido ao desenho metodológico utilizado nesta investigação, a descrição da coleta, organização e da análise dos dados foi realizada concomitantemente. A seguir, é apresentado o resumo dos procedimentos metodológicos adotados na coleta, organização e análise interativa dos dados (Tabela 1).

 

 

Fase 1 - Grupo focal 1 (GF1): o ambiente assistencial e os processos de preparo e de administração de medicamentos na UTI, na perspectiva da equipe de enfermagem

Grupo focal (GF) é uma técnica de pesquisa que permite a obtenção de dados de natureza qualitativa, a partir de sessões grupais em que seis a 15 pessoas compartilham um traço comum e discutem vários aspectos de um tema específico.17 O objetivo é desenvolver ideias, obter insights, discutir preocupações e percepções, em um ambiente aberto e rico de aprendizado.18

De modo geral, a formação do GF é intencional e este é composto por participantes que partilham semelhanças como, por exemplo, o fato de trabalharem em um mesmo local. Isso favorece os relatos de experiências, a identificação de necessidades, os valores e as crenças que circundam a temática do fenômeno sob investigação.19,20

Logo, o GF foi utilizado na presente investigação com o propósito de emergir as percepções, as representações e as opiniões dos profissionais de enfermagem em relação aos aspectos de segurança e usar as experiências e a criatividade dos partícipes de maneira a proporcionar autonomia local e a aprimorar as práticas. A técnica também foi empregada com o propósito de estimular mais engajamento da equipe de enfermagem na identificação das barreiras e das possibilidades de mudanças, visando manter as práticas seguras e repensar as práticas inseguras voltadas para o preparo e para a administração de medicamentos.

Nessa fase foram realizados seis GFs. Para tanto, foi utilizado um roteiro semiestruturado que continha questões abertas. Os seis grupos foram gravados e tiveram duração máxima de 60 minutos. Ao término de cada grupo, uma síntese do que havia sido discutido era desenvolvida e, em seguida, era proporcionado um espaço para que os participantes pudessem acrescentar, esclarecer ou mudar alguma ideia referida no grupo.

Em todos os GFs, a pesquisadora foi acompanhada por duas auxiliares de pesquisa treinadas. Ao término de cada grupo, a pesquisadora se reunia com as auxiliares, ainda no hospital e em sala reservada, para discutir e registrar percepções, trocar ideias e avaliar o grupo no sentido de planejar os próximos.

A coleta, a organização e a análise dos dados ocorreram de maneira interativa (Figura 1). Com base nos resultados desta análise, foi elaborada uma lista de tópicos voltados para o sistema de medicação e para o ambiente assistencial da UTI em que ocorrem os processos de preparo e de administração de medicamentos, para a condução dos registros fotográficos e das narrativas visuais na segunda fase da pesquisa.

Fase 2 - Narração fotográfica (NF): documentação das práticas seguras e inseguras nos processos de preparo e de administração de medicamentos

Pesquisas que envolvem técnicas visuais são amplamente utilizadas nas áreas de Antropologia, Comunicação, Psicologia e Sociologia.21 Nestas áreas, o uso de câmeras fotográficas tornou-se um grande instrumento de coleta de dados e, em virtude da melhoria da qualidade da imagem, somada à facilidade de manuseio e à diminuição de custos, esses equipamentos são, hoje, utilizados em inúmeras pesquisas.22

A narração fotográfica consiste em combinar uma série de fotografias acompanhadas de narrativas no sentido de criar histórias por meio das imagens. A técnica é empregada em pequenos grupos de diálogo com o objetivo de cultivar as habilidades das pessoas de agirem individual ou coletivamente em relação às mudanças sociais, pois utiliza as fotografias do dia-a-dia como uma ferramenta educacional para registrar e refletir sobre as necessidades dos grupos, promover discussões, encorajar ações e esclarecer políticas.23,24

Na narração fotográfica, as perguntas são amplas, com o objetivo de ajudar os profissionais a refletirem sobre o seu contexto e de identificar as fragilidades e as vulnerabilidades do sistema e de seus processos a fim de que estratégias de mudanças sejam elaboradas coletivamente. A técnica consiste na capacidade de recontar a história no presente, por meio da observação de algo que aconteceu no passado, e com o objetivo de repensar o futuro.25

Com base nessas premissas, a técnica da narração fotográfica foi imprescindível para o alcance dos objetivos propostos para a investigação. Sua finalidade foi fotografar e registrar os problemas presentes no cotidiano dos profissionais de enfermagem que poderiam contribuir com os erros de medicação.

A narração fotográfica ocorreu em duas sessões e teve por base a lista de tópicos provenientes da análise dos dados do GF1. A câmera fotográfica permaneceu nas mãos da pesquisadora, enquanto uma enfermeira experiente narrava o contexto dos problemas presentes na lista, procurando estabelecer causas e refletindo sobre possibilidades de mudanças futuras na cultura organizacional, nas práticas diárias, bem como nas normas e nas rotinas relacionadas aos processos de preparo e de administração de medicamentos na UTI.

Nessa fase, a pesquisadora também foi acompanhada por duas auxiliares de pesquisa. Uma realizou registros acerca das áreas fotografadas em um formulário de campo e a segunda manteve o gravador próximo da enfermeira para captar, com clareza, as narrativas.

Os dados provenientes da narração fotográfica (narrativas e fotografias) foram analisados de maneira interativa, conforme a orientação teórica da pesquisa restaurativa em saúde (Figura 1).

Com o objetivo de guiar o GF na terceira fase (GF2 - Foto Elicitation), a pesquisadora elegeu 12 fotografias e uma pergunta ("Condutas tomadas frente aos erros?") para serem discutidas com os participantes do estudo. As fotografias e o tema foram selecionados com o propósito de explorar mais detalhes acerca dos aspectos relacionados à segurança do paciente nos processos de preparo e de administração de medicamentos na UTI. Dessa maneira, as fotografias selecionadas atenderam aos seguintes critérios de elegibilidade:

1. as fotografias ilustravam questões que a pesquisadora apresentava mais questionamentos a respeito do fenômeno;

2. as fotografias retratavam aspectos do sistema e/ou do ambiente assistencial que, segundo a pesquisadora, precisavam ser esclarecidos pela equipe de enfermagem;

3. as fotografias apresentavam vários códigos e, portanto, várias questões que poderiam ser retratadas e discutidas com os participantes.

Após a seleção minuciosa das fotografias e do tema, estes foram transferidos para o programa Microsoft Power Point®. Cada slide continha um título simples, o qual retratava o aspecto mais importante a ser discutido no grupo, e uma fotografia, uma vez que várias imagens poderiam causar confusão durante a discussão.

Finalizada a etapa de análise dos dados, a pesquisadora afixou um segundo fôlder de recrutamento, convidando os profissionais de enfermagem da UTI para participarem do GF2 (foto elicitation).

Fase 3 - Grupo focal 2 (GF2): foto elicitation: evocar, por meio de imagens, reflexões acerca de potenciais mudanças a serem implantadas no sistema de medicação e no ambiente assistencial da UTI

Foto elicitation é uma técnica em que fotografias tiradas tanto pelo pesquisador quanto pelos participantes do estudo são inseridas nas entrevistas e/ou nos GFs. Assim, as fotografias são utilizadas como um estímulo ou um guia para incentivar relatos ricos em informações acerca do fenômeno em estudo. Trata-se de uma técnica amplamente utilizada na etnografia e na antropologia, mas que está se tornando popular nas áreas da Sociologia, da Psicologia e, mais recentemente, da Enfermagem.3,26

A técnica implica o estímulo às discussões acerca da cultura e das práticas de determinado âmbito, a partir da visibilização de imagens. O pesquisador se torna um ouvinte e é quem irá encorajar os participantes para que o diálogo continue. A técnica também permite que as fotografias sejam utilizadas para recriar um entendimento histórico acerca de um determinado local.27

Quando utilizada em conjunto com as entrevistas/GFs, a foto elicitation pode se tornar uma ferramenta valiosa, uma vez que tem não só a capacidade de agrupar dados, mas também de dar mais poder ao participante, na medida em que este ensina o pesquisador sobre os aspectos da realidade, além de potencializar depoimentos, fazendo vir à tona assuntos que não seriam ditos em discussões formais.21,28

Nessa fase, as fotografias foram apresentadas aos participantes do estudo durante o GF2. Essa fase teve a finalidade de evocar, por meio de imagens, as potenciais mudanças a serem implantadas no sistema de medicação, nos processos, nas práticas, nas políticas, na cultura organizacional e no ambiente assistencial da UTI que, segundo os profissionais de enfermagem, poderiam favorecer a segurança dos pacientes durante os processos de preparo e de administração de medicamentos.

A foto elicitation ocorreu em sessão única, teve duração máxima de 60 minutos e foi gravada para posterior transcrição. Fez parte do GF2 o total de sete profissionais, sendo um deles a gerente de serviço, uma enfermeira supervisora, quatro técnicas de enfermagem e um médico intensivista.

Os participantes foram convidados a ver as fotografias e a compartilhar suas experiências e vivências em relação aos aspectos voltados para a segurança na medicação, a discutir as medidas facilitadoras e as barreiras que impedem os profissionais de prepararem e de administrarem os medicamentos com segurança. Ao visibilizarem as fotografias, os participantes propuseram o total de 30 potenciais mudanças a serem implantadas na UTI (Tabela 2).

 

 

Vale destacar que, finalizada a análise interativa dos dados provenientes do GF1, da narração fotográfica e do GF2 (foto elicitation), os códigos, as categorias e os temas foram confirmados com os profissionais da equipe de enfermagem. Ajustes foram feitos com base nas sugestões dos participantes, de modo que os temas finais retratassem a percepção da equipe de enfermagem quanto aos aspectos que, segundo eles, favorecem a segurança ou que, ao contrário, podem contribuir com os erros de medicação.

Fase 4 - Documentação das mudanças nos processos de preparo e de administração de medicamentos

Após quatro meses transcorridos do GF2 (foto elicitation), a pesquisadora retornou à UTI com os propósitos de verificar, por meio da observação direta em campo, e de registrar, por meio das fotografias, as mudanças ocorridas na UTI, em resposta aos GFs.

As fotografias foram tiradas em dois dias não consecutivos e teve a colaboração da gerente de serviço, da enfermeira supervisora e dos técnicos de enfermagem. Esses profissionais guiaram a pesquisadora pela unidade com o propósito de detectarem as mudanças ocorridas na UTI. Também identificaram mudanças nas políticas e na cultura organizacional voltada para a segurança do paciente.

As fotografias tiradas nessa fase foram armazenadas em um computador protegido por senha de modo que somente a pesquisadora teve acesso ao arquivo. Para a comparação subsequente do "antes" e do "depois" da implementação das mudanças, as fotografias foram transferidas para o programa Microsoft Power Point®. Cada slide continha a fotografia tirada na fase 2 (a qual correspondia ao "antes" das mudanças) e, ao seu lado, a fotografia tirada durante a fase 4 (a qual correspondia ao "depois" das mudanças). Cada par de fotografias foi analisada com o objetivo de registrar as mudanças na UTI e nos processos, em favor da segurança do paciente no preparo e na administração de medicamentos.

Os dados provenientes da análise interativa resultaram em seis temas finais: a) Identificando o ambiente assistencial como contribuinte para a segurança no preparo e na administração de medicamentos; b) identificando riscos no ambiente assistencial; c) percebendo o ambiente assistencial como fator de risco para os acidentes ocupacionais; d) tendo que conviver com o sentimento de "impotência" diante da cultura organizacional vigente; e) convivendo com os improvisos no dia-a-dia do trabalho; f) vislumbrando possibilidades de mudanças no ambiente assistencial (Tabela 3).

 

 

Os temas revelaram que, apesar do sistema de medicação e do ambiente assistencial da UTI apresentar problemas variados, os participantes vislumbraram possibilidades de mudanças com o propósito de melhorar a qualidade e a segurança na assistência prestada aos pacientes.

A pesquisa restaurativa em saúde contribuiu para que os profissionais identificassem os aspectos existentes no sistema e nos processos que funcionam e que, portanto, deveriam ser mantidos, assim como aqueles que podem pôr em risco a segurança dos pacientes, devendo estes ser repensados e replanejados. As sugestões de mudança foram subdivididas em intervenções de curto, médio e longo prazo, sendo que várias destas não necessitarão de recursos humanos, físicos, materiais e financeiros demasiados.

No que diz respeito às técnicas de coleta de dados empregadas no estudo, os grupos focais e a narração fotográfica viabilizaram o envolvimento dos profissionais da enfermagem com os aspectos da segurança, por meio da análise crítica e reflexiva de si mesmos e de suas relações com os outros e com o ambiente assistencial. As técnicas os instigaram a corrigir as áreas problemáticas desse complexo sistema. Foi possível identificar a construção de um conhecimento coletivo entre equipe de enfermagem e pesquisadora, enquanto percorriam as áreas da unidade trocando visões e experiências acerca dos significados atribuídos ao fenômeno do estudo.

A foto elicitation permitiu que os participantes descrevessem suas percepções a partir das experiências anteriores, de modo a repensar o futuro. O resultado desse processo foi o apontamento de 30 potenciais mudanças a serem implantas na UTI e no hospital como um todo. Na quarta fase foi possível captar, por meio dos registros fotográficos, algumas das mudanças sugeridas pelos participantes, quatro meses após a foto elicitation.

A partir da construção conjunta do conhecimento entre pesquisadora e pesquisados, os resultados obtidos nesta investigação forneceram subsídios para pesquisas futuras. Os resultados também revelaram que os problemas existentes na UTI interferem na segurança, tanto dos pacientes como dos profissionais, devendo a instituição rever sua forma de gerenciar as questões relacionadas à segurança.

 

CONCLUSÕES

Na primeira fase da pesquisa (GF1), os participantes do estudo tiveram a preocupação de diagnosticar as dificuldades, os problemas e os riscos existentes na UTI que poderiam favorecer os erros de medicação. Todavia, os profissionais também identificaram as medidas facilitadoras que, segundo eles, poderiam favorecer a segurança no preparo e na administração dos medicamentos.

A segunda fase (narração fotográfica) favoreceu a reflexão conjunta acerca dos problemas existentes no sistema, no ambiente assistencial e na cultura organizacional, os quais poderiam pôr em risco os pacientes. Porém, possibilidades de mudanças começaram a emergir.

A terceira fase (GF2 - foto elicitation) consistiu no reconhecimento, pelos profissionais, de que mudanças são possíveis e desejáveis para a promoção de um ambiente seguro, tanto para os pacientes como para os profissionais, e que a mobilização de todos os envolvidos é fundamental para o alcance deste objetivo.

A experiência de utilizar a abordagem restaurativa em saúde auxiliou na compreensão das barreiras e das medidas facilitadoras voltadas para a segurança do paciente no preparo e na administração de medicamentos. Também permitiu repensar a segurança dos profissionais no contexto dos cuidados intensivos.

Espera-se que a pesquisa restaurativa em saúde possa ser utilizada, futuramente, nos diversos cenários onde atua a equipe de enfermagem, com o propósito de viabilizar a segurança nos processos de preparo e de administração de medicamentos, a princípio, e a segurança do paciente de modo geral.

A proposta do presente estudo é de que as instituições adotem uma gestão participativa, na qual os profissionais da linha de frente do atendimento possam atuar, de maneira integrada, junto aos líderes organizacionais na construção do conhecimento coletivo voltado para a identificação das fragilidades de seus sistemas e de seus ambientes com o propósito de traçarem novos caminhos para a resolução dos problemas que permeiam a segurança do paciente e dos profissionais.

Líderes organizacionais, educadores, estudantes e pesquisadores com interesse em compreender os complexos e multifacetados fatores que influenciam a segurança do paciente poderão se beneficiar dos métodos empregados neste estudo.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos à Profa. Dra. Patricia Marck pelo auxílio na compreensão do referencial teórico-metodológico da pesquisa restaurativa em saúde. Também agradecemos às enfermeiras Ariadne Eleonora Trombert da Silveira e Lígia Dorly Trombert da Silveira, pela valiosa contribuição na obtenção dos dados.

 

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*Artigo extraído da tese de doutorado "A segurança de pacientes na administração de medicamentos em uma unidade de terapia intensiva de um hospital geral do interior paulista: a abordagem restaurativa em saúde", apresentada à Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

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