REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 18.1 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20140002

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Pesquisa

Profissionais de enfermagem habilitados para o mercado de trabalho em Minas Gerais

Nursing professionals trained for the labor market in the state of Minas Gerais

Grace Kelly Naves de Aquino Ribeiro1; Helena Hemiko Iwamoto2; Fernanda Carolina Camargo3; Maria Rizoneide Negreiros de Araújo4

1. Enfermeira. Mestranda em Ciências da Saúde da Universidade Federal do Triângulo Mineiro - UFTM. Uberaba, MG - Brasil
2. Enfermeira. Mestre e Doutora em Enfermagem. Professora Adjunta da UFTM. Professor Permanente do Programa de Mestrado e Doutorado Atenção à Saúde da UFTM. Uberaba, MG - Brasil
3. Enfermeira. Doutoranda do Programa de Atenção à Saúde da UFTM. Professora substituta da UFTM. Uberaba, MG - Brasil
4. Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Emérita da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. Enfermeira do Núcleo de Educação em Saúde Coletiva da UFMG. Belo Horizonte, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Helena Hemiko Iwamoto
E-mail: helena.iwamoto@gmail.com

Submetido em: 15/07/2013
Aprovado em: 07/01/2014

Resumo

O presente trabalho objetivou analisar o perfil de profissionais da enfermagem habilitados para o mercado de trabalho. Trata-se de estudo quantitativo, retrospectivo, sobre trabalhadores da enfermagem que requereram Inscrição Provisória Principal (IPP) no Conselho Regional de Enfermagem do estado de Minas Gerais, de 2005 a 2009. Foram analisadas 48.064 requisições de IPP, sendo 40,42% solicitadas por enfermeiros e 65,36% por técnicos de enfermagem. As requisições de IPP aumentaram 240% entre enfermeiros e 22% entre técnicos de enfermagem. Houve prevalência do sexo feminino, faixa etária menores de 30 anos e união estável. A disponibilidade de trabalhadores de enfermagem para o mercado de trabalho concentrou-se na capital mineira quando comparada aos municípios do interior do estado. A globalização e o mercado de trabalho competitivo impõem novos desafios frente ao desenvolvimento tecnológico e migração de trabalhadores, sendo necessária qualificação profissional para garantia de conquistas substanciais para a enfermagem brasileira.

Palavras-chave: Mercado de Trabalho; Prática Profissional; Equipe de Enfermagem.

 

INTRODUÇÃO

Na atualidade, para responder as exigências peculiares do mercado de trabalho em saúde e a complexidade das demandas assistenciais, cada vez mais são imprescindíveis recursos humanos qualificados que visem à implementação de práticas efetivas. Portanto, mesmo diante dos avanços tecnológicos, é condição fundamental para a viabilização dos projetos de saúde a valorização dos recursos humanos.1,2

De forma geral, as repercussões econômicas do mercado neoliberal globalizado têm influenciado nas especificidades do trabalho em saúde e nas competências necessárias para seu desempenho. Para a Enfermagem, essas repercussões indicam novos desafios, amparados na necessidade de reapropriação dos saberes e competências dos enfermeiros, na valorização da autonomia profissional e no estímulo ao modo proativo de intervir em saúde frente às diferentes demandas sociais.3,4

No mercado de trabalho da saúde, conforme indicadores nacionais, os trabalhadores de enfermagem ocupam significativo espaço, com 41,9% do total de empregos - 679.215 empregos em 2005, sendo, destes, 17,1% de enfermeiros, 23,8% de técnicos de enfermagem e 59,1% de auxiliares de enfermagem.5

Os profissionais da enfermagem estão inseridos em diferentes cenários de atenção à saúde, domicílios, consultórios, unidades de saúde, hospitais e demais instituições, com o objetivo de promover a qualidade de vida das pessoas. Atuam em atendimentos de urgências e emergências, participam na prevenção e no controle epidemiológico dos agravos, na recuperação e na reabilitação dos enfermos.3,6

Desempenham atividades organizacionais administrativas e de gestão em saúde. Integram o ensino-pesquisa, compondo projetos científicos específicos, multiprofissionais ou intersetoriais. Além do mais, diferentes espaços sociais são cada vez mais sensíveis para a prática da enfermagem, sendo importante potencializar os múltiplos cenários de atuação, a fim de garantir mais oportunidades de trabalho.3,6

Nesse sentido, destaca-se que, para manter-se inserido no mercado de trabalho, os profissionais de enfermagem devem buscar conhecimentos sobre informática e outras línguas, estar em constante aprimoramento e adotar condutas empreendedoras com iniciativa, capacidade de resolução de problemas e de trabalho em equipe.4,6,7

No contexto mundial, a enfermagem como profissão destaca-se por sua ascensão. Entretanto, apresenta-se como categoria crítica, pela escassez profissional em diferentes partes do mundo, principalmente nos países centrais como Canadá, Reino Unido e Estados Unidos; e suas deficiências vêm sendo supridas cada vez mais por profissionais da enfermagem dos países periféricos. Da mesma forma, as Organizações de Enfermagem de 69 países identificam falta de profissionais em 33 países da Oceania, África e América Central. Para suprir essa demanda mercadológica do mundo globalizado, é necessário aumento quantitativo da formação dos profissionais de enfermagem.8

Na América Latina, são recentes os estudos sobre demanda e oferta de empregos para enfermagem, o que impede definir com precisão a escassez de mão-de-obra dos profissionais. Em países como Panamá e El Salvador, onde há considerável formação de enfermeiros, as migrações dos profissionais são constantes para suprir as demandas dos países centrais.9 No Brasil, ainda não há estudos representativos sobre indicadores que especifiquem migrações de enfermeiros.8

O fato de a enfermagem ser considerada uma profissão em ascensão tem impulsionado a busca por profissionalização nessa área.4,8 Por essa razão, é fundamental a realização de investigações críticas sobre os egressos das escolas de Enfermagem, suas capacidades em responder às necessidades de saúde atuais e, primordialmente, monitorar o quantitativo de trabalhadores de enfermagem pela análise do aumento da mão-de-obra disponível e seus impactos sobre os postos de trabalho.

Contudo, a realidade do mercado de trabalho da enfermagem, no cenário brasileiro, deve ser acompanhada com precisão para assegurar medidas regulatórias entre oferta de mão-de-obra e demanda por empregos. Neste sentido, o presente estudo tem por objetivo analisar o perfil de profissionais da enfermagem habilitados para o mercado de trabalho em Minas Gerais.

 

MÉTODO

Trata-se de um estudo de coorte histórica, sobre características dos profissionais de enfermagem disponíveis para o mercado de trabalho. A população do estudo foi constituída por trabalhadores da enfermagem que requereram Inscrição Provisória Principal (IPP), que se caracteriza como registro obrigatório que habilita a atuação inicial de enfermeiros que de fato vislumbram ingressar no mercado de trabalho, no Conselho Regional de Enfermagem do Estado de Minas Gerais (COREN-MG), durante o período de 1º de janeiro de 2005 a 31 de dezembro de 2009. Foram acompanhados na distribuição temporal os aspectos sociodemográficos (sexo, faixa etária e estado civil) e da categoria profissional (enfermeiros e técnicos de enfermagem) dos requerentes, ao longo desses cinco anos.

Para o presente estudo foram consideradas as subseções do COREN-MG localizadas nos municípios de Belo Horizonte, Governador Valadares, Juiz de Fora, Montes Claros, Passos, Pouso Alegre, Teófilo Otoni, Uberaba, Uberlândia e Varginha. Os Conselhos de Enfermagem constituem uma autarquia, vinculados ao Ministério do Trabalho e da Previdência Social e desempenham funções disciplinadoras e fiscalizadoras do exercício profissional da enfermagem.10

As informações foram obtidas a partir de banco de dados disponibilizado pelo COREN-MG. Para análise, foram incluídas as informações referentes aos enfermeiros e técnicos de enfermagem requerentes de IPP e excluídas aquelas informações que não apresentavam a identificação da categoria profissional. Para o gerenciamento dos dados utilizou-se o software Excel®, com base na estatística descritiva.

A IPP era uma habilitação legal conferida pelo COREN, conforme jurisdição do domicílio profissional do requerente, para liberação do exercício da enfermagem. Tratava-se de uma alternativa para os trabalhadores de enfermagem que, mesmo diante da conclusão do curso, ainda não tinham recebido seu certificado/diploma - documento essencial para solicitação da Inscrição Definitiva Principal (IDP). O requerimento da habilitação provisória era uma prática comum entre os profissionais da enfermagem, considerando que as instituições de ensino demoravam até seis meses para emissão dos certificados aos profissionais de nível médio e dos diplomas para os bacharéis em Enfermagem. A IPP tinha validade de 12 meses e só era emitida mediante apresentação de histórico do curso com todas as matérias concluídas e aprovadas e declaração de conclusão do curso emitida pela instituição de ensino.11

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) sob o Protocolo 1.534/2009 e foi desenvolvida de modo a garantir o cumprimento dos preceitos da Resolução 196/96 da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa.

 

RESULTADOS

No período de 1º de janeiro de 2005 a 31 de dezembro de 2009, foram identificados 57.625 profissionais de enfermagem requerentes da Inscrição Provisória Principal (IPP) no COREN-MG. Dessas requisições, 9.571 (16,60%) foram excluídas por não apresentarem identificação da categoria profissional. Com isso, foram analisados no presente estudo 83,40% dos registros, perfazendo o total de 48.064 inscrições provisórias de Minas Gerais.

Em média, foram requeridas 9.613 IPPs ao ano, com concentração na subseção da capital mineira, Belo Horizonte - 25.507 (53,10%). Em relação às IPPs do interior do estado, a subseção de mais alto número foi o de Juiz de Fora, com 4.486 (9,30%), seguida de Uberlândia com 3.016 (6,30%) e Varginha com 3.011(6,30%). A subseção de Montes Claros apresentou 2.398 (5,00%) das requisições de IPP, Uberaba 1.947 (4,00%), Pouso Alegre 1.362 (2,80%) e Paracatu 1.302 (2,70%). O menor número de solicitações foi nas subseções de Teófilo Otoni - 1.203 (2,50%) - e Governador Valadares - 1.199 (2,49%). Dos dados analisados, 2.633 (5,48%) dos IPPs não apresentaram o município onde foram requeridas.

Os técnicos de enfermagem totalizaram o mais alto número de IPPs, com 31.416 (65,36%); e os enfermeiros com 16.652 (40,42%). Durante o período estudado, de 2005 a 2009, foi constatado expressivo aumento de solicitação de IPPs, tanto por parte dos enfermeiros quanto dos técnicos de enfermagem, passando de 8.005 requerentes em 2005 para 13.182 em 2009, o que significa aumento de 63,92%. O que mais contribuiu para esse aumento foram as solicitações de IPPs por enfermeiros, em 2005, que totalizavam 19,55% das IPPs solicitadas, atingindo o percentual de 42,10% das IPPs em 2009 (Tabela 1).

 

 

Do total de requerentes de IPPs, 86,84% dos técnicos de enfermagem eram mulheres e 83,50% dos enfermeiros também mulheres, retratando o predomínio do sexo feminino em ambas as categorias profissionais.

A faixa etária mais prevalente foi a de menos de 30 anos, sendo 74,60% entre os enfermeiros e 45,60% entre os técnicos de enfermagem. Na faixa etária de 30 a 40 anos, o percentual de técnicos de enfermagem foi de 39,29%. De forma geral, esses resultados expressam a disponibilidade de pessoas relativamente jovens ingressando no mercado de trabalho em saúde no estado de Minas Gerais (Tabela 2).

 

 

A união estável foi o estado civil mais prevalente, sendo 42,78% entre os enfermeiros e 41,24% entre os técnicos de enfermagem. A condição de solteiro foi mais comum entre os enfermeiros do que junto aos técnicos de enfermagem. Ressalta-se a ausência desta informação em 35,15% dos enfermeiros e em 44,94% dos técnicos de enfermagem (Tabela 3).

 

 

DISCUSSÃO

A equipe de enfermagem tem importante participação no mercado de trabalho em saúde, ocupando 2/5 do total de empregos no setor.5,12 Em 2011, o Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) registrou 1.856.683 inscrições de profissionais de Enfermagem distribuídos por categoria profissional: enfermeiros 346.968 (18,69%), técnicos de enfermagem 750.205 (40,41%), auxiliares de enfermagem 744.924 (40,12%), atendentes de enfermagem 14.291(0,77%) e parteiras 2 (0,0001%).11

A partir de registros administrativos disponíveis pelos conselhos federais e regionais de saúde sobre a oferta de mão-de-obra dos profissionais de enfermagem que se encontra em atividade no Brasil, em função da obrigatoriedade de vinculação aos conselhos para o exercício profissional, os dados estatísticos estimam proporção de 0,65 enfermeiro e 1,34 técnico de enfermagem por mil habitantes. Na região Sudeste, essa proporção é de 0,73 enfermeiros e 1,33 técnicos de enfermagem por mil habitantes. No estado de Minas Gerais, essas proporções são inferiores para as duas categorias profissionais. Estima-se 0,5 enfermeiro e 1,04 técnico de enfermagem por mil habitantes.5 Nos países do hemisfério Norte, a proporção de enfermeiros é de 10 para cada 1.000 habitantes.8

Apesar de o presente estudo revelar aumento absoluto do número de enfermeiros habilitados para o exercício profissional - no ano de 2005 habilitaram-se 1.565 profissionais e em 2009, 5.328 -, os dados indicam déficit perante a comparação com as estatísticas internacionais e nacionais. Diante dessa realidade, evidencia-se a importância da reformulação da formação de profissionais da enfermagem, para que haja disponibilização ao mercado de trabalho de quantitativo de trabalhadores que respondam às necessidades de saúde da população, e atuem de forma eficiente, com conhecimentos técnico-científicos.7,13

Toda e qualquer mudança deve estar baseada na dinâmica das políticas públicas e nas transformações do mundo do trabalho em saúde. Nesse contexto, a implementação do Sistema Único de Saúde (SUS), na década de 90, foi fator impulsionador do mercado de trabalho em saúde, com alocação de novos postos de trabalho, pelo crescimento expressivo da esfera pública municipal como empregadora de recursos humanos.8,12,14 Na composição do impacto da contratação de novos trabalhadores pelo SUS, o Programa Saúde da Família é representado como exemplo simbólico na formatação de novos cargos para atuação dos profissionais de enfermagem.2,8,12

Nas instituições de saúde, a melhoria da qualificação dos trabalhadores de enfermagem, sua profissionalização, traz benefícios para o cuidado, para as organizações e para os próprios trabalhadores. Os estabelecimentos de saúde são mais bem avaliados tanto pelos clientes quanto pelos trabalhadores, na medida em que possibilitam o desenvolvimento profissional. Entre os trabalhadores da enfermagem, a profissionalização relaciona-se a melhores remunerações, mais satisfação no emprego e realização pessoal.15

Uma experiência brasileira relevante de qualificação profissional foi apresentada pelo Projeto de Profissionalização dos Trabalhadores da Área da Enfermagem (PROFAE), que visou capacitar trabalhadores de enfermagem para melhor inserção no mercado de trabalho a partir de 2000. Os principais impactos do PROFAE foram a oferta de cursos de nível fundamental e de ensino médio para complementação da formação dos trabalhadores para o nível técnico.16 Como impacto importante da profissionalização dessa categoria em Minas Gerais, os resultados do presente estudo apuraram crescimento de 22% de requisições de IPPs por técnicos de enfermagem.

Outro aspecto de profissionalização da enfermagem brasileira ocorreu a partir da expansão dos cursos de graduação. Essa ampliação teve início na década 1970, como estratégia de superação de déficit nacional de enfermeiros. Nos anos de 1990 esse crescimento foi mais acentuado, influenciado principalmente pelo aumento de cursos de graduação em enfermagem da rede privada de ensino. Ressalta-se que em 1999 68,8% das vagas oferecidas para graduação de enfermagem pertenciam ao setor privado.2,8

No ano 2000, a tendência expansionista dos cursos de graduação em enfermagem prevaleceu, mas desta vez impulsionada pela ampliação de vagas e interiorização dos estabelecimentos de ensino público. Entre 1990 e 2004, considerando-se as redes pública e privada de ensino, o crescimento acumulado nacional de vagas para graduação em enfermagem foi de 843,7%.8 No presente estudo, o impacto da ampliação dos cursos de graduação de enfermagem foi evidenciado pelo aumento de 240% de enfermeiros requerentes de IPPs, entre 2005 e 2009, em Minas Gerais.

Outro fator importante para a categoria de enfermagem brasileira no mercado de trabalho em saúde é a viabilização de empregos para trabalhadores que possuem ensino fundamental ou médio, desde que qualificados. Os fatores que atraem alunos para profissionalizar-se na enfermagem relacionam-se à perspectiva de uma carreira estável, absorção no mercado de trabalho e oportunidade de melhores remunerações.17

No Brasil, o rendimento médio da população ocupada, em 2005, foi de R$ 945,20. Para os trabalhadores da área da saúde, o rendimento médio foi 1,4 vezes maior, no valor de R$ 1.329,10.5 Portanto, a opção para a qualificação profissional na área da enfermagem pode estar vinculada tanto à perspectiva de mercado de trabalho promissor, como ao valor da remuneração financeira.17

As questões econômicas interferem decisivamente na distribuição territorial dos trabalhadores de enfermagem, haja vista que há concentração dos profissionais nos territórios de mais desenvolvimento econômico. O presente estudo mostra que mais da metade das solicitações de IPPs realizadas em Minas Gerais concentrava-se na subseção de Belo Horizonte-MG, capital do estado e cidade-polo da região metropolitana. Em nível nacional, essa concentração da mão-de-obra de trabalhadores da enfermagem em áreas metropolitanas também se repete. A região Sudeste, que abriga as três mais importantes metrópoles nacionais, de mais alto índice de urbanização, como Belo Horizonte, concentra mais da metade da força de trabalho em saúde.5,18

Além do mais, observa-se na análise desta coorte histórica que 65,36% do total das solicitações de IPP correspondem à categoria de técnicos em enfermagem. Esse fato corrobora a realidade expressa na América Latina. Ao se analisar a distribuição das categorias de enfermagem em atuação, houve predomínio de profissionais de nível fundamental ou médio - auxiliares ou técnicos de enfermagem.9 Essa situação relaciona-se ao modelo histórico de provisão dos serviços de enfermagem, pela divisão técnica do trabalho, no qual o enfermeiro gerencia o cuidado que é executado por elevado número de trabalhadores de nível elementar.7,9 E a maior concentração de trabalhadores de nível elementar na composição do quadro de profissionais de enfermagem também se relaciona à pouca capacidade econômica dos países latinos em arcar com o custo de profissionais mais qualificados.9

Nas localidades dos países latinos que apresentam desenvolvimento econômico mais acentuado, onde há numerosos serviços hospitalares e alto orçamento público, há concentração de postos de trabalho da enfermagem. Em contrapartida, territórios menos favorecidos, caracterizados por zonas rurais, que carecem de serviços comunitários e da assistência direta entre trabalhadores de enfermagem e população, contam predominantemente com a atuação de profissionais de enfermagem de nível fundamental ou técnico.9

Quanto ao perfil sociodemográfico dos trabalhadores da enfermagem, os resultados da presente pesquisa reafirmam a mulher, na faixa etária de adulto jovem, como representante mais expressiva dos trabalhadores de enfermagem. Essa realidade caracteriza-se por fatores com mais aproximação sócio-histórica no exercício das atividades que envolvem o cuidar.7 O predomínio da faixa etária de trabalhadores de enfermagem entre adultos jovens converge em diferentes estudos. Entre graduados de enfermagem egressos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, houve predomínio de mulheres (97,6%), da faixa etária entre 24 e 26 anos (68,3%) e casadas (26,8%).19 Os graduados egressos da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (92%) eram do sexo feminino, solteira (68,8%), com média de idade de 27 anos.2

Dos técnicos de enfermagem egressos de escola vinculada a uma universidade mineira, 81,13% eram do sexo feminino.20 Em instituições de ensino, uma pública e outra privada, do município do Rio de Janeiro, houve prevalência de aproximadamente 85% do sexo feminino entre os discentes de enfermagem e 84% dos estudantes tinham 17 a 22 anos. Quanto ao estado civil, a prevalência foi de solteiros (95%) em ambas as instituições.17

Frente aos diferentes cenários do mercado de trabalho, os serviços de saúde, públicos ou privados, têm exigido profissionais capazes de tomar decisões articulando diferentes saberes de forma ética, considerando dimensões humanísticas e socioculturais.16,20 E o constante desenvolvimento de tecnologias e descobertas de novos tratamentos coloca o setor saúde como mercado de trabalho cada vez mais competitivo.20,21

Essa realidade define para a enfermagem brasileira o desafio de se qualificar continuamente. Por essa razão, a qualificação profissional da equipe de enfermagem deve pautar-se na ampliação das demandas assistenciais e na importância em se ultrapassar o modelo hegemônico de atenção.13

Sobre o presente estudo, é preciso cautela nas suas considerações. Pauta-se no número de registros iniciais nos conselhos (IPP) como um indicativo de profissionais de enfermagem para o mercado. Mesmo sendo uma importante fonte histórica para a análise da realidade do mercado de trabalho da Enfermagem no Brasil por sua obrigatoriedade, de forma geral essa fonte de informações apresenta limitações, haja vista que as solicitações de IPP não expressam a totalidade dos profissionais disponíveis para o mercado de trabalho. Isso porque há um contingente de trabalhadores da enfermagem que, apesar da formação concluída, não solicitam a IPP até que de fato conjeturem o ingresso efetivo no mercado de trabalho.

Ainda, alguns indicativos demonstram que houve a formação considerável de profissionais da enfermagem em determinadas regiões do país, inclusive no estado de Minas Gerais. Entretanto, essa formação não foi acompanhada pelo aumento de postos de trabalho, de forma que há desequilíbrio na oferta e demanda dos profissionais, pelas dificuldades para a criação de novos postos de trabalho, relacionados à reprodução das desigualdades socioeconômicas nas regiões e estados.22 Assim, vislumbra-se a necessidade de que haja uma discussão futura sobre relações locorregionais, formação, ocupação dos postos de trabalho, expansão ou retração do mercado para a enfermagem.

 

CONCLUSÃO

No estado de Minas Gerais, foram analisadas 48.068 requisições de inscrições provisórias principais (IPP) ao COREN-MG, que revelaram o aumento da disponibilidade de profissionais de enfermagem no mercado de trabalho, de 2005 a 2009. Sobre o perfil dos profissionais de enfermagem disponíveis para o mercado de trabalho, a maioria dos requerentes de IPP era de técnicos de enfermagem (65,36%) e enfermeiros (40,42%), do sexo feminino e faixa etária menor de 30 anos.

A disponibilidade de enfermeiros para o mercado de trabalho em saúde foi expressiva, com aumento de 240% nas requisições de IPPs para o período, em relação aos técnicos de enfermagem, que tiveram aumento de 22% das requisições. Observa-se que houve concentração dos trabalhadores de enfermagem em áreas de mais desenvolvimento econômico, principalmente na capital mineira. Contudo, em comparação aos dados mundiais e de outras áreas brasileiras, ainda é inferior a proporção de trabalhadores de enfermagem por mil habitantes disponíveis em Minas Gerais.

Os diferentes cenários de atuação da enfermagem têm exigido profissionais que articulem múltiplos saberes, para garantir ações efetivas, cada vez mais próximas das necessidades de saúde das pessoas. Nesse sentido, as transformações do mercado de trabalho do mundo globalizado para o contingente de profissionais de enfermagem, em especial do estado de Minas Gerais, impõem necessidade urgente de transposição da marginalização do trabalho da enfermagem, o qual muitas vezes ainda é compreendido de forma limitada.

Apesar das IPPs não representarem o contingente total de profissionais disponíveis para o mercado de trabalho, apresenta-se como uma fonte relevante para esta análise, tendo em vista sua obrigatoriedade para o início das atividades laborais. Sugere-se o desenvolvimento de estudos futuros que se aproximem das relações entre formação e disponibilidade de postos de trabalho para a enfermagem.

Portanto, para o alcance de conquistas substanciais para a enfermagem em Minas Gerais, frente ao mercado de trabalho atual e competitivo, torna-se imprescindível a implementação da qualidade das práticas de enfermagem de forma resolutiva e criativa, que articulem competências de nível técnico-científico, administrativo, relacional e político.

 

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