REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

Busca Avançada

Volume: 18.1 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20140003

Voltar ao Sumário

Pesquisa

Percepções de trabalhadores e estudantes atuantes em um pronto-socorro, sobre meio ambiente e saúde

Perceptions about environment and health of workers and students working in an emergency room

Roger Rodrigues Peres1; Silviamar Camponogara2; Cibele Cielo3; Natalina Maria da Silva4; Cristiane Machado Lourensi5; Gabriela Camponogara Rossato6

1. Enfermeiro. Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria. Santa Maria, RS - Brasil
2. Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem e do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria. Santa Maria, RS - Brasil
3. Enfermeira. Residente do Programa de Residência Multiprofissional Integrada em saúde: Cardiologia na Área de Enfermagem. Universidade Federal de Santa Maria. Santa Maria, RS - Brasil
4. Enfermeira, Especialista em Terapia Intensiva e Educação Ambiental. Técnica Administrativa da Unidade de Cardiologia do Hospital Universitário de Santa Maria. Santa Maria, RS - Brasil
5. Enfermeira. Técnica Administrativa da Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Universitário de Santa Maria. Santa Maria, RS - Brasil
6. Acadêmica do Curso de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria. Santa Maria, RS - Brasil

Endereço para correspondência

Roger Rodrigues Peres
E-mail: roger_rrp@yahoo.com.br

Submetido em: 19/08/2013
Aprovado em: 16/01/2014

Resumo

OBJETIVO: conhecer a percepção de trabalhadores e estudantes atuantes em um pronto-socorro, sobre meio ambiente e saúde.
MÉTODO: estudo de abordagem qualitativa, descritivo-exploratório, desenvolvido em um pronto-socorro de um hospital universitário. Constituem-se sujeitos do estudo 17 trabalhadores, profissionais e estudantes atuantes no setor. Os dados foram coletados durante os meses de novembro de 2011 a fevereiro de 2012, por meio de entrevista semiestruturada, e analisados com base no referencial proposto para a análise de conteúdo.
RESULTADOS: os participantes apresentam visão de meio ambiente polarizada entre uma noção de pertencimento e uma percepção naturalizada. A concepção sobre a problemática ambiental está balizada pela noção de distanciamento e pela percepção de necessário engajamento individual e do poder público em relação ao tema. A relação entre meio ambiente e saúde foi entendida como direta e intrínseca, embora, por vezes, centrada na doença.
CONCLUSÕES: destaca-se o papel fundamental das instituições formadoras e de saúde como promotoras de uma discussão, na busca de instigar a reflexão sobre a temática, oferecendo não somente um aporte teórico a respeito, mas também oportunizando estratégias para que os trabalhadores possam repensar o seu fazer a partir das experiências vividas e da reflexão individual frente ao tema.

Palavras-chave: Meio Ambiente; Saúde Ambiental; Enfermagem; Serviço Hospitalar de Emergência.

 

INTRODUÇÃO

O debate sobre a problemática ambiental tem sido cada vez mais intenso com o passar dos anos, principalmente nas últimas quatro décadas. Nesse período, a mídia e diferentes documentos oficiais, oriundos de encontros políticos e especializados, têm se debruçado sobre questões relativas aos efeitos do aquecimento global e a importância de discutir-se sobre a sustentabilidade do planeta.

Um fato de grande relevância está relacionado ao gerenciamento de resíduos sólidos, o que tem motivado a formulação de políticas públicas específicas sobre o assunto, tanto no âmbito das aglomerações urbanas, quanto em cenários específicos da atuação profissional. Entre esses cenários está o do trabalho hospitalar, onde é gerada, diariamente, grande quantidade de resíduos, que pode comprometer a saúde do trabalhador, das comunidades e o meio ambiente. Tal perspectiva impõe aos trabalhadores e gestores da saúde a necessidade de aprofundar discussões sobre o assunto, bem como formular estratégias de minimização do impacto ambiental advindo do processo de trabalho em saúde.

Estudo recente mostra que a relação entre saúde e ambiente deve ser debatida, com mais ênfase no âmbito das instituições hospitalares, uma vez que diferentes fatores podem interferir no processo de gerenciamento de resíduos, entre eles os relativos ao contexto social contemporâneo e as concepções de saúde e meio ambiente que permeiam o trabalho em saúde, além da influência de aspectos laborais específicos do trabalho hospitalar e da saúde.1 A partir desse panorama entende-se que estimular a construção da sensibilidade socioambiental torna-se fundamental para o agir responsável com o meio ambiente, especialmente entre aqueles que têm, na saúde, a finalidade do seu trabalho.

Entre as diferentes unidades que compõem as instituições hospitalares, destaca-se o setor de emergência como sendo um local permeado de condições complexas, inerentes ao próprio ambiente e aos seres humanos que cuidam e são cuidados. Acrescenta-se, ainda, que tais setores se caracterizam pelo dinamismo e rapidez exigida no atendimento à saúde, confrontando os profissionais com muitas situações de estresse e com um processo de trabalho peculiar.2 Com isso, ao avaliar o cuidado a pessoas em situações limítrofes de vida e com risco de morte, imagina-se que o trabalhador acabe por direcionar seu olhar para questões específicas do seu cotidiano de trabalho, em detrimento de uma visão mais abrangente de outros aspectos, não menos importantes, entre eles os relacionados ao cuidado ambiental.

Parte-se do pressuposto de que as percepções e posturas dos profissionais de saúde podem refletir na maneira como se dá o gerenciamento dos resíduos de uma instituição e, consequentemente, gerar impacto socioambiental. Dessa forma, justifica-se o presente estudo devido à necessidade de trazer para discussão a relação entre saúde e meio ambiente na visão dos trabalhadores da saúde atuantes em um pronto-socorro, uma vez que, além dos encargos desgastantes inerentes ao setor, também são diretamente responsáveis pela correta segregação dos resíduos.

Com base nessas considerações, desenvolveu-se estudo baseado na seguinte questão de pesquisa: qual é a percepção de trabalhadores e estudantes atuantes em pronto-socorro sobre meio ambiente e saúde? A partir do exposto, tem-se como objetivo da pesquisa conhecer a percepção dos trabalhadores e estudantes atuantes em um pronto-socorro sobre meio ambiente e saúde. Torna-se pertinente destacar que esse manuscrito contempla parte dos resultados da investigação, relativos a percepções dos sujeitos sobre meio ambiente e sua interface com a saúde. Outros aspectos investigados, atinentes à questão do gerenciamento dos resíduos, integram outra publicação.

 

MÉTODO

O estudo tem abordagem qualitativa, é do tipo descritivo-exploratório e foi realizado com trabalhadores e estudantes de um pronto-socorro de um hospital de grande porte do interior do Rio Grande do Sul, Brasil. Entre os sujeitos da pesquisa estão médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, trabalhadores da higienização e acadêmicos (bolsistas de enfermagem e médicos-residentes) atuantes na unidade, durante o período de coleta de dados. Constituiu-se em critério de inclusão estar atuando na unidade há mais de um ano no setor. Os critérios de exclusão foram: estar realizando atividade temporária no setor e estar em férias ou licença no período de coleta de dados.

Ao todo foram entrevistados 17 sujeitos, conforme critério de saturação de dados, ou seja, encerrou-se a coleta quando as falas não traziam novas percepções sobre o objeto de estudo. Manteve-se proporcionalidade entre os diferentes sujeitos da área da saúde, sendo esses selecionados por meio de sorteio, quando de posse da listagem dos nomes dos trabalhadores, de acordo com os critérios de inclusão e exclusão.

Os dados foram coletados durante os meses de novembro de 2011 a fevereiro de 2012, por meio de entrevista semiestruturada composta de questões abertas que versavam sobre a percepção dos sujeitos quanto a: meio ambiente; problemática ambiental; ações ambientalmente responsáveis; relação entre saúde e meio ambiente; resíduos hospitalares; relação dos resíduos com o meio ambiente; conhecimento sobre processo de gerenciamento de resíduos; fatores que no serviço de pronto-socorro auxiliam e os que prejudicam a segregação dos resíduos; e percepção de responsabilidade ambiental como trabalhador ou estudante da área da saúde. As entrevistas foram realizadas pelos pesquisadores em local reservado, gravadas e, posteriormente, transcritas pelos mesmos.

Os sujeitos foram identificados com as iniciais da sua categoria profissional seguido do número de realização da entrevista, a saber: AE (acadêmico de enfermagem); E (enfermeiro); FL (funcionário de limpeza); M (médico); MR (médico-residente); TE (técnico de enfermagem).

Os dados foram analisados com base no referencial proposto para a análise de conteúdo, obedecendo às seguintes etapas: reunião do corpus de dados, momento em que foram reunidas as entrevistas e informações sociodemográficas dos sujeitos; realização de leitura flutuante dos achados, com o intuito de aproximar características semelhantes nos depoimentos; realização de leitura aprofundada a fim de constituir categorias de análise; e análise interpretativa das categorias e discussão com a literatura pertinente.3 O estudo obedeceu aos preceitos indicados para pesquisa com seres humanos, somente havendo coleta de dados após aprovação institucional e do Comitê de Ética em Pesquisa da instituição (CAAE Nº 0256.0.243.000-11). Acrescenta-se ainda que os sujeitos foram entrevistados somente após a leitura, esclarecimento de dúvidas e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A busca pelo estabelecimento de convergência entre os achados possibilitou a construção de categorias de análise, que oportunizaram uma visão sobre a percepção dos sujeitos quanto à temática investigada. As categorias estão descritas a seguir, entremeadas com dados da literatura pertinente.

Concepções de meio ambiente

A categoria em questão evidencia as distintas percepções sobre meio ambiente, particularmente direcionadas para uma visão de amplitude que envolve não somente o aspecto natural e biológico, mas também outras questões, as quais se inter-relacionam. Desta forma, a manifestação de inserção nesse espaço é notória, denotando o sentimento de pertença ao ambiente, como demonstram os depoimentos a seguir:

O meio ambiente então é o espaço físico em que a gente vive. A flora, a fauna e as pessoas, as cidades (E03).

O meio ambiente é o ambiente onde a gente vive, tem relação com a natureza, tem a relação com o homem e com o habitat (TE02).

Para a equipe de trabalhadores e estudantes que atuam na unidade de pronto-socorro, percebe-se uma concepção de inter-relação entre os mundos social e natural. As respostas conduzem a uma noção de meio ambiente como sendo o lugar onde vivem, habitam, se relacionam, entre outras características. Essa visão demonstra-se atrelada a determinantes históricos, sociais, econômicos e culturais que permeiam o processo de viver de cada ser humano.

Por outro lado, apesar da interação observada, ainda é perceptível, em determinados depoimentos, uma visão orientada pelo viés naturalista e de apropriação do meio ambiente como bem de uso. Nessa vertente, pode-se descrever a visão naturalista como aquela que considera o meio ambiente um sinônimo de natureza intocada, tendo sua base ideológica na concepção que exclui o homem, a sociedade e os meios culturais e urbanos do dito ambiental, alimentando a ideia de que há um mundo natural constituído em oposição ao mundo humano.4 A concepção descrita pode ser observada nos depoimentos que seguem.

Meio ambiente é a gente procurar cuidar a natureza [...] não desmatar muito [...] não colocar muito lixo na rua, nos esgotos, nas coisas [...] eu acho que meio ambiente é preservar a natureza, principalmente as árvores, não desmatar, não poluir muito, as queimadas [...] (FL02).

Seria assim, o verde, mais a questão de contaminação, de não contaminar o meio ambiente, ser mais limpo, não colocar "química", ser mais natural (E01)

Como característica de uma visão orientada para o ambiente como natureza, os depoimentos demonstram mais preocupação com a poluição cotidiana, assim como uma noção de distanciamento entre social e natural. Essa percepção pode ter sua origem no processo histórico-social da era industrial e das grandes aglomerações urbanas, as quais refletiram grande destruição e poluição ambiental, gerando preocupação principalmente por parte do setor da saúde.

Além disso, o mundo natural tem sido historicamente percebido como um bem de uso para os seres humanos, com vistas à sustentabilidade do progresso econômico. Como decorrência desse posicionamento, tem-se uma percepção de meio ambiente como um componente exterior, não relacionado às questões sociais nem ao cotidiano de vida e trabalho dos sujeitos. Tal constatação demonstra-se ainda mais preocupante quando reforçada por outras pesquisas, em que enfermeiros utilizam-se de manifestações verbais, que reforçam o viés naturalista e a ideia de ambiente como bem de uso.5

Diante do exposto, é essencial a busca por ampliação da percepção sobre o meio ambiente, para além das questões relacionadas estritamente à natureza. Dessa forma, necessita-se empreender esforços para a sensibilização dos trabalhadores e acadêmicos, principalmente no que diz respeito ao sentimento de pertencimento ao ambiente, no qual o meio se configura como um todo, intrinsecamente imbricado ao processo de viver humano, em suas múltiplas dimensões.

Alguns depoentes acenam para as questões relacionadas à reciclagem dos resíduos, quando questionados sobre sua percepção de meio ambiente. Embora a atitude seja de extrema importância, pois a reciclagem dos materiais se constitui em algo benéfico e necessário em tempos de crise ambiental, essa questão é percebida como algo externo ao ambiente de trabalho, como pode ser percebido no depoimento a seguir: ";Seria mais a parte do lixo mesmo, pois a natureza seria fora do meu trabalho, porque aqui é um ambiente fechado [...]"; (TE02).

A visão naturalizada se mantém, ainda, como base ideológica do depoimento, que embora demonstre preocupação em relação aos resíduos no ambiente não compreende o local de trabalho como parte integrante deste. Estudos semelhantes vêm ao encontro dos dados aqui obtidos, ao passo que revelam que os trabalhadores hospitalares encontram-se reflexivamente afetados pela problemática ambiental, existindo, ainda, uma preocupação geral, incipiente, a respeito das questões ambientais. Entretanto, tal preocupação está normalmente relacionada a separação, reciclagem e destino adequado do lixo, encontrando-se também pautada em preceitos normativos dos serviços de saúde.6,7

Tais perspectivas podem ser entendidas como respostas à realidade encontrada no trabalho hospitalar contemporâneo, em particular nos serviços de urgência e emergência, nos quais predomina uma demanda de atendimentos cada vez maior, contrastada com a precariedade de alguns serviços.8

Dessa maneira, entende-se ser necessário propiciar a expressão da subjetividade do trabalhador no trabalho, pois tal condição mostra-se imperativa para se refletir sobre as questões que norteiam o saber em saúde, incluindo-se aí os aspectos ambientais. Ressalta-se que instigar o trabalhador a refletir sobre demandas complexas de conhecimento exige a elaboração de estratégias que detenham aplicabilidade na dinâmica do serviço, no intuito de amenizar fatores possíveis de interferir na qualidade do atendimento.8

Sendo assim, ao se considerar o local de trabalho como passível de ações de preservação ambiental, coloca-se os sujeitos na condição de agente/atores com capacidade e responsabilidade em relação à minimização do impacto ambiental causado pelo seu processo de trabalho, o que demanda, entretanto, uma concepção de meio ambiente que agrega os mundos social e natural.7 Dessa forma, do compromisso com o ambiente emerge uma nova forma de se relacionar com o mundo, pautada, também, em predisposições éticas e naturalmente essenciais, pois cuidar do planeta é cuidar do que é individual e do que é coletivo, concomitantemente.9

A atual problemática ambiental

Tendo em vista o impacto causado pelos resíduos no ambiente, que consequentemente afetam o bem-estar social, a normatização sobre o seu adequado descarte e a responsabilidade individual do trabalhador sobre o tema, torna-se relevante aprofundar o conhecimento sobre as percepções dos sujeitos frente aos problemas ambientais contemporâneos. Com isso, questionou-se sobre sua percepção em relação à problemática ambiental, evidenciando-se certo distanciamento:

Eu acho que está prejudicando mais a gente, isso só está prejudicando a gente, o ser humano está destruindo o meio ambiente (FL03).

Agora que a gente vê o pessoal se preocupando com o meio ambiente, a gente via o pessoal jogando lixo na rua, agora parece que pararam de fazer isso um pouco, eles estão se conscientizando hoje. Mas, acho que vai demorar para mostrar reflexos, o dia que faltar água, essas coisas, é que vão se dar por conta (TE01).

Pode-se visualizar certo distanciamento dos sujeitos em relação às responsabilidades com o meio ambiente, na medida em que enfatizam a relação da problemática ambiental com o outro, isentando a si mesmo do compromisso com a preservação ambiental. Nessa percepção, entende-se ser necessário revisar posturas sobre a atual problemática, de modo a estimular o envolvimento de todos e, consequentemente, de si com a causa, gerando um compromisso com a mudança nos diferentes locais, nas ações e maneiras de perceber a complexidade que envolve as questões socioambientais.

O afastar-se de responsabilidades diante dos aspectos majoritariamente ambientais também é evidenciado em um estudo realizado com profissionais de enfermagem, em que se constantou que o trabalhador mantém esse distanciamento do processo de gerenciamento dos resíduos resultantes de suas próprias atividades no espaço de trabalho.10 Situações desse gênero demonstram a necessidade de se ampliar as discussões, por meio de ações de educação ambiental, em todos os níveis, construindo um senso de responsabilidade que deve envolver questões diversas, abordando mais do que o simples cumprimento da legislação em vigor11 que, por vezes, demonstra-se insuficiente diante do descaso de alguns trabalhadores. Destaca-se essa perspectiva, pois se entende que o simples cumprimento de normas preestabelecidas não é o suficiente para gerar sensibilização em relação à temática, que, se imagina, deva emergir de uma reflexão mais complexa sobre o fazer laboral e viver social.

Estima-se então que, como seres humanos constituintes de sociedades complexas e plurais, as responsabilidades referentes à problemática ambiental partam de todos e para todos, pois embora muitas vezes individualizadas, os seus reflexos detêm alcance ilimitado. Essa compreensão, que faz parte do viver em sociedade, torna cada ser um corresponsável, o que está expresso a seguir:

É uma preocupação que todos nós temos que ter para manter esse equilíbrio [...] não sei se o clima está mudando ou não está mudando, não sei o quanto isso tem de verdade, mas acho que se preocupar com isso é importante (M03).

Que todas as nossas ações, se não forem feitas corretamente, podem causar problemas ambientais, desde a separação de lixos [...] desde cuidados com a poluição [...] (AE01).

Apreende-se o transparecer de uma visão de participação no processo de degradação ambiental e também de mudança de comportamento em prol da preservação do ambiente. Tal perspectiva também é percebida em outro estudo, em que os sujeitos salientam que as melhorias dependem de ações e atitudes de cada individuo, embora os resultados mais amplos dependam do envolvimento de uma maioria.9

Entretanto, deve-se ter cuidado, como se percebe na manifestação de M03, quanto às informações que circulam cotidianamente nos meios de comunicação, pois embora possam reforçar o engajamento com as questões ambientais, também podem pôr em xeque os conhecimentos construídos que revelam a veracidade da atual problemática ambiental, moldando percepções e, consequentemente, atitudes. Compreende-se também esse conflito entre a realidade dos acontecimentos ambientais e sua questionabilidade, tendo em vista que, ao lidar com essas questões contemporâneas, desafiam-se também as concepções e atitudes até então construídas. Isso, por sua vez, leva frequentemente a conflitos de ordem ética, moral e existencial.12

Ainda, frente à discussão sobre a problemática ambiental, alguns trabalhadores trazem as políticas públicas como insuficientes para proteção do ambiente, assim como reforçam a importância da própria participação e engajamento nesse processo.

[...] acho que nos países subdesenvolvidos, na maioria, por ter lei fraca e como a pena não é aplicada, ninguém tem medo de fazer o que faz, então tem que evoluir primeiro na parte da justiça para depois conseguir aplicar a lei. Então, tem uma Constituição boa, eu só acho que não é cumprida (MR01).

Eu acho que não depende só do governo, mas que cada um tem que começar em casa, nas escolas e a cada dia pensar em cada coisa que tu faz (TE02).

Os sujeitos demonstram diferentes percepções sobre a responsabilidade com o ambiente, alternadas entre a esfera do poder público e a individual de cada cidadão. No entanto, ambas remetem ao poder governamental e, embora sejam percepções diferentes, podem ser entendidas também como complementares. Depreende-se que o enfrentamento da questão ambiental pressupõe essa intervenção interdisciplinar e intersetorial, cujos governantes e membros da sociedade detêm sua parcela de corresponsabilidade no processo, na tomada de decisões e nos resultados da intervenção.11

A partir dessa responsabilização, em que todos são encarregados de promover a mudança no panorama atual das questões ambientais, apresenta-se um segundo desafio, relacionado à busca de um agir ecológico consciente no contexto do trabalho da saúde. Este parte do pressuposto de que uma atitude ecológica é mais do que a soma de bons comportamentos e que ter uma consciência ecológica pressupõe saber por que agir ou não agir, ou seja, as motivações para determinada atitude que, por vezes, extrapola a esfera da racionalidade, envolvendo também os sentimentos.13

Sendo assim, a ampliação da consciência ecológica por parte do trabalhador hospitalar depende da desconstrução/reconstrução de significados, no sentido de permitir uma postura ética com a preservação ambiental.7 Dessa forma, ressalta-se que essa "tarefa" não se constitui em algo fácil, que possa ser prescrito,13 mas torna-se fundamental em meio à crise ambiental que vivenciamos.

Saúde e meio ambiente

Além do reconhecimento precoce de que as mudanças ambientais afetariam atividades econômicas, infraestrutura e ecossistemas, hoje se compreende que essas também representam riscos para a saúde da população.14 Neste sentido, os depoentes, quando questionados sobre sua percepção da relação saúde e meio ambiente, visualizam a existência de uma relação direta entre esses dois. Essa concepção pode ser percebida nos relatos:

Eu penso que os dois andam juntos, a saúde depende do bem-estar, depende de um meio ambiente saudável e o meio ambiente deve ser conservado [...] (E02).

Acho que a saúde está ligada ao meio ambiente, não tem como separar eles. A gente vive no meio ambiente e se ele está saudável nós também estamos (TE02).

Visões integradoras são imprescindíveis para a busca de bem-estar e qualidade de vida, principalmente ao se entender que a problemática ambiental é, também, um problema de saúde, uma vez que a sociedade busca se desenvolver economicamente, muitas vezes sem a devida preocupação com o meio ambiente e o impacto da sua destruição para essa e as futuras gerações.15

Vislumbrar percepções que trazem o cuidado ao ambiente como um cuidado à saúde desperta esperanças em relação à mudança do cenário atual ambientalmente conturbado, que afeta sobremaneira a saúde socioambiental. Tais perspectivas assinalam também respostas positivas, embora discretas, frente às reiteradas considerações visualizadas em estudos atuais, onde os profissionais de saúde necessitam ampliar sua sensibilidade para a interface saúde e meio ambiente.5-7,9,10,13,16

Entre os efeitos já estimados no campo da saúde humana, decorrentes das alterações ambientais, destacam-se: a propagação de doenças infecciosas; os danos à saúde decorrente dos desastres de origem natural ou antropogênicos; e doenças crônicas não infecciosas relacionadas às modificações ambientais e deficiências nutricionais.14 Como forma de combate a essa situação, pode-se citar a promoção da saúde, uma vez que abraça a interface saúde e meio ambiente, ao conceber que a saúde não deve se restringir à ausência de doenças, mas necessita envolver a educação, meio ambiente, lazer, acesso a bens e serviços essenciais, entre outros.17

Vem se tornando consenso a visão de que o ambiente modificado é um forte propagador de doenças, haja vista a constatação descrita anteriormente. Essa percepção também pode ser observada neste estudo, na medida em que os participantes têm uma visão de causalidade, colocando o ambiente como causador de doenças.

[...] o meio ambiente é aquela coisa poluída, tu não vai ter uma saúde boa, então acho que é cuidar bem do meio ambiente para ti ter uma saúde boa também (AE02).

Se a gente tem um meio ambiente saudável, a gente vai ter um manancial de água bom, vai conseguir ter água tratada, um descarte de esgoto adequado, faz parte da política de meio ambiente também, tu vai conseguir prevenir doenças com isso. Você tendo a mata e um bioma de mata viável, vai deixar os insetos no seu lugar. Como é no caso da malária que a gente invadiu e acabou passando para várias cidades, por causa disso um monte de outros bichos transmitem doenças, que vivem no mato, mas que a gente invadiu o local deles [...] (MR01).

A relação percebida de ambiente como causador de doenças não compreende uma concepção errônea, porém se deve ter cuidado para com a amplitude do olhar direcionado para o significado de ambiente, pois este deve ser entendido em seu sentido macro. Obviamente, é preciso destacar que os respondentes, ao atuarem em pronto-socorro, estão envolvidos em uma atividade laboral que prioriza o rápido diagnóstico e o tratamento de condições patológicas agudas, situação em que a busca por agentes causais para tais danos é bastante comum. Assim, essa visão, com base na doença, também pode ser explicada a partir da perspectiva do ambiente de trabalho, uma vez que envolve alta complexidade e problemas extremos de saúde.

Essa percepção também pode ser entendida como resquícios do movimento sanitarista que perdurou até meados dos anos 60 e 70, no Brasil. Destaca-se essa perspectiva, pois algumas disciplinas iniciais dos cursos da área da saúde ainda são norteadas por concepções com viés sanitarista em relação ao ambiente, mesmo que a partir desse período histórico tenha ocorrido a ampliação da compreensão dos problemas ambientais como não somente restritos aos aspectos de saneamento e controle de vetores, dando origem ao movimento ambientalista.18

A centralidade no adoecimento causado pelo ambiente, quando se reflete sobre a relação saúde e meio ambiente, também é perceptível em outros estudos em que se observa o estabelecimento de uma visão linear de causa-efeito por parte de discentes da área da saúde16 e a necessidade do controle de epidemias como a dengue, na visão de trabalhadores da enfermagem.9 Com essa perspectiva, depreende-se ser necessário estimular os trabalhadores da saúde desde a formação, numa lógica que inter-relacione saúde e meio ambiente, ampliando o pensamento, a capacidade de reflexão e de conhecer o mundo, de tomar decisões, fazer escolhas, transformar,16 repensando as práticas individuais cotidianas e considerando que a conduta de cada individuo condiciona a de outros que, por fim, refletem o produto da coletividade.9

Desta forma, torna-se imprescindível debater sobre a interface saúde e meio ambiente, com vistas à busca de atitudes ambientalmente responsáveis, principalmente por ser esse um processo complexo, que envolve reflexão sobre valores e atitudes, requerendo o envolvimento de cada sujeito e o perceber-se afetado pela atual problemática ambiental.13 Da mesma forma, exige o envolvimento de instituições formadoras e de saúde, principalmente daquelas em que já existem estudos demonstrando a ausência de programas de formação ou capacitação acerca do tema10, tendo em vista sua responsabilidade em promover processos formativos e educativos em serviço, voltados para as demandas sociais atuais. As questões ambientais se constituem, assim, indiscutivelmente, em propulsoras de novos debates, exigindo dos profissionais, novas posturas e atitudes direcionadas para o comprometimento com a sustentabilidade ambiental do planeta e a relação complexa que envolve, intrinsecamente, os cuidados à saúde.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo evidencia que os sujeitos têm percepções diferenciadas sobre o tema. Embora alguns apresentem uma visão mais interacionista sobre o meio ambiente, ainda é marcante o fato de predominar uma visão naturalizada sobre o assunto. Os sujeitos percebem que a sociedade vivencia uma crise ambiental e que há estreita interface entre saúde e meio ambiente. Neste caso, citam o meio ambiente como causador de doenças.

Reconhecem-se as limitações do estudo, principalmente quanto à sua característica local, o que não permite nem se apresenta como objetivo da pesquisa tecer generalizações sobre o tema. Acredita-se, no entanto, que os resultados apresentados podem fornecer subsídios para novas reflexões e debates, assim como revelam a necessidade de novos estudos que reafirmem a importância do tema na área da saúde no cenário contemporâneo de crise socioambiental.

Entende-se, então, que o objetivo da pesquisa foi alcançado, na medida em que os resultados obtidos evidenciam a incipiência de visões integradoras entre ambiente e saúde por parte dos profissionais e estudantes da área da saúde, embora seja necessário destacar que alguns sujeitos demonstram percepções mais interacionistas, revelando certa sensibilidade com o tema, ainda que tímida.

Ressalta-se, assim, a necessidade um posicionamento ético, crítico e reflexivo dos profissionais de saúde frente à atual problemática ambiental, visto que as ações de cunho ambiental carregam consigo a percepção particular e a subjetividade de quem as realiza. Reitera-se a importância de se criarem espaços para debate instigadores de uma reflexão sobre a interface saúde e meio ambiente, constituindo-se em atitude fundamental para a busca de uma visão mais integradora sobre o tema. Nesse sentido, as instituições formadoras e de saúde têm papel fundamental como promotoras dessa discussão, oferecendo não somente um aporte teórico a respeito, como também oportunizando estratégias para que os trabalhadores possam repensar o seu fazer, a partir das experiências vividas e da reflexão individual, inclusive sobre temas que envolvam a responsabilidade socioambiental.

 

REFERÊNCIAS

1. Camponogara S. Um estudo de caso sobre a reflexividade ecológica de trabalhadores hospitalares [tese]. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina/UFSC; 2008. 277 p.

2. Baggio MA, Callegaro GD, Erdmann AL. Compreendendo as dimensões de cuidado em uma unidade de emergência hospitalar. Rev Bras Enferm. 2008;61(5):552-7.

3. Bardin L. Análise de conteúdo. Portugal: Lisboa; 2011.

4. Santos AMB, Tagliani PRA, Vieira PHF. Educação ambiental em Garopaba: a visão dos professores e alunos do ensino fundamental local. Rev Mestr Educ Ambient. 2010;24:219-32.

5. Soares SGA, Camponogara S, Terra MG, Santos TM, Trevisan CM. O que pensam os enfermeiros sobre a problemática ambiental. Rev Rene. 2012;13(5):971-82.

6. Backes MTS, Erdmann AL, Backes DS. Cuidado ecológico: o significado para profissionais de um hospital geral. Acta Paul Enferm. 2009;22(2):183-91.

7. Camponogara S, Ramos FRS, Kirchhof ALC. Um olhar sobre a interface trabalho hospitalar e os problemas ambientais. Rev Gaúcha Enferm. 2009;30(4):724-31.

8. Andrade LM, Martins EC, Caetano JA, Soares E, Beserra EP. Atendimento humanizado nos serviços de emergência hospitalar na percepção do acompanhante. Rev Eletrônica Enferm. 2009;11(1):151-7. [Cited 2012 Jan. 25]. Available from: http://www.fen.ufg.br/revista/v11/n1/v11n1a19.htm

9. Baggio MA, Callegaro GD, Erdmann AL. Significando o cuidado ecológico/planetário/coletivo/do ambiente à luz do pensamento complexo. REME Rev Min Enferm. 2011;15(1):11-8.

10. Silva ITS, Bonfada D. Resíduos sólidos de serviços de saúde e meio ambiente: percepção da equipe de enfermagem. Rev Rene. 2012;13(3):650-7.

11. Vargas LA, Oliveira TFV. Saúde, meio ambiente e risco ambiental: um desafio para a prática profissional do enfermeiro. Rev Enferm UERJ. 2007;15(3):451-5.

12. Barcelos V, Schlichting HA. Educação ambiental, conflitos e responsabilidades - uma contribuição da biologia do amor e da biologia do conhecimento de Humberto Maturana. Rev Amb Educ. 2007;12:59-85.

13. Camponogara S. Saúde e meio ambiente na contemporaneidade: o necessário resgate do legado de Florence Nightingale. Esc Anna Nery Rev Enferm. 2012;16(1):178-84.

14. Brasil. Ministério da Saúde. Mudanças climáticas e ambientais e seus efeitos na saúde: cenários e incertezas para o Brasil. Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde; 2008.

15. Beserra EP, Alves MDS, Pinheiro PNC, Vieira NFC. Educação ambiental e enfermagem: uma integração necessária. Rev Bras Enferm. 2010;63(5):848-52.

16. Camponogara S, Diaz PS, Rossato GC, Peres RR, Soares SGA, Erthal G, et al. Interface entre saúde e meio ambiente na formação profissional em saúde. Acta Paul Enferm. 2012;25(6):902-7.

17. Alves KVG. O que sabe o agente comunitário de saúde? [dissertação]. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro/UERJ; 2009. 69 p.

18. Dias EC, Rigotto RM, Augusto LGS, Cancio J, Hoefel MGL. Saúde ambiental e saúde do trabalhador na atenção primária à saúde, no SUS: oportunidades e desafios. Ciênc Saúde Coletiva. 2009;14(6):2061-70.

Logo REME

Logo CC BY
Todo o conteúdo da revista
está licenciado pela Creative
Commons Licence CC BY 4.0

GN1 - Sistemas e Publicações