REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 18.2 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20140022

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Pesquisa

Sexualidade do adolescente no discurso de educadores: possibilidades para práticas educativas

Educators' perspective on adolescent sexuality: possible education practices

Simone Cristine dos Santos Nothaft1; Elisangela Argenta Zanatta2; Maria Luiza Bevilaqua Brumm3; Kiciosan da Silva Bernardi Galli3; Bernadette Kreuz Erdtmann4; Eliana Buss5; Pamela Roberta Rocha da Silva6

1. Enfermeira. Mestranda em Ciências da Saúde. Professora Substituta do Departamento de Enfermagem da Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC. Chapecó, SC - Brasil
2. Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Titular do Departamento de Enfermagem da UDESC. Chapecó, SC - Brasil
3. Enfermeira. Doutoranda em Enfermagem. Professora Titular do Departamento de Enfermagem da UDESC. Chapecó, SC - Brasil
4. Enfermeira. Mestre em Enfermagem. Professora Titular do Departamento de Enfermagem da UDESC.Chapecó, SC - Brasil
5. Enfermeira. Mestre em Gestão e Políticas Públicas. Professora Substituta do Departamento de Enfermagem da UDESC. Chapecó, SC - Brasil
6. Acadêmica do Curso de Enfermagem da UDESC. Chapecó, SC - Brasil

Endereço para correspondência

Simone Cristine dos Santos Nothaft
E-mail: nothaft@hotmail.com

Submetido em: 18/07/2013
Aprovado em: 07/05/2014

Resumo

Pesquisa qualitativa realizada com 23 educadores que atuam em escolas públicas no oeste de Santa Catarina, no ano de 2012, com o objetivo de conhecer a concepção destes sobre adolescência e sexualidade e evidenciar estratégias utilizadas quando discutem o tema sexualidade. Para a coleta das informações utilizou-se o Método Criativo Sensível e a interpretação seguiu a análise temática de conteúdo, discutidas em duas categorias: concepção dos educadores sobre adolescência e sexualidade e estratégias para a discussão do tema sexualidade na escola. Os professores afirmam que a educação sexual é uma área complexa e de difícil abordagem e mostram-se temerosos e pouco preparados para abordar o assunto. Apresentam divergências de entendimentos acerca do processo de adolescer e da sexualidade. Enquanto alguns utilizam metodologias tradicionais, outros adotam estratégias participativas, com enfoque maior para o diálogo. Concluiu-se que a discussão da sexualidade na adolescência, no âmbito escolar, ainda é incipiente, centrada em concepções tradicionais e discutida por áreas do conhecimento que estudam as questões biológicas. Sendo assim, observa-se dificuldade em incluí-lo como um tema transversal.

Palavras-chave: Sexualidade; Adolescente; Docentes.

 

INTRODUÇÃO

A sexualidade é uma dimensão fundamental de todas as etapas da vida de homens e mulheres, envolvendo práticas e desejos relacionados à satisfação, à afetividade, ao prazer, aos sentimentos, ao exercício da liberdade e à saúde.1 É um componente intrínseco da pessoa, superando o aspecto biológico, revelando-se também como um fenômeno psicológico e social, influenciado pelas crenças, valores pessoais, familiares, normas morais e tabus da sociedade.2

Está relacionada à vida, às emoções e à satisfação individual. Na adolescência configura-se como um elemento que contribui para a formação da identidade do adolescente. Nesta etapa a sexualidade é manifestada por múltiplas identificações que envolvem a aceitação da própria imagem corporal, a descoberta do outro como elemento de amor ou desejo, do encontrar-se e das relações com os familiares, grupos e profissionais.3

No entanto, na contemporaneidade, o tema sexualidade ainda é, por vezes, delicado e difícil de ser abordado, está obscuro nas entrelinhas dos discursos empreendidos de pais para filhos. Observa-se que estes deixam essa responsabilidade para os educadores, que diante dessa realidade são forçados a discutir o assunto mesmo sem estarem preparados, uma vez que o tema sexualidade ainda é velado no contexto escolar e encontra-se cercado de mistérios e tabus, dificultando com isso discussões entre os atores envolvidos.

Frente ao pouco diálogo em casa, percebe-se que os adolescentes buscam conversar com amigos e colegas, que passam a ser fonte de informação mais acessível4, assim como também utilizam como fonte de pesquisa internet, livros, revistas. No entanto, salienta-se que o diálogo empreendido entre pais e filhos e com profissionais que detenham informações esclarecedoras ajuda-os no entendimento da sua sexualidade.5

Nesse cenário destaca-se o ambiente escolar como um espaço que promove conhecimento, pois é o local onde os adolescentes passam grande parte do dia e expressam suas dúvidas, medos e sentimentos. No espaço escolar as práticas educativas favorecem reflexões e discussões que ampliam o campo de conhecimento ao abordar questões do seu cotidiano, entre elas a sexualidade e a vulnerabilidade dessa fase de vida.6

Entretanto, proporcionar educação sexual na escola envolve conhecimentos específicos, habilidades didáticas, disponibilidade e afinidade do professor para abordar o assunto. Esses elementos parecem ainda estar regulados a partir de uma ênfase marcada pelo campo das ciências biológicas e naturais, priorizando ensinamentos que envolvem as questões do corpo e seu funcionamento, mostrando a sua desarticulação com os interesses específicos dos próprios adolescentes.7

Essas questões ainda são observadas em alguns contextos escolares em que a sexualidade continua sendo trabalhada sob o enfoque do risco, tomando por base a promoção da saúde sexual e prevenção da gestação e de doenças a partir de práticas educativas que enfocam esse direcionamento. Essas práticas são orientadas por um viés individualista, utilizando abordagens pedagógicas ainda centradas na conscientização do risco e na necessidade de negociar o sexo seguro com o parceiro.7 Deixam para um segundo plano as necessidades pessoais do adolescente e as questões culturais que fazem parte da sua formação e influenciam o seu comportamento.

A articulação entre as áreas da educação e saúde é fundamental, sendo a Universidade, por meio de projetos de extensão e pesquisa, a mediadora dessa parceria. Essa integração visa a promover debates com educadores para a reflexão sobre a desconstrução de conceitos de sexualidade centrados na visão biologicista, incentivando a construção coletiva de novas técnicas e abordagens de ensino. Nesse sentido, esta pesquisa procurou responder qual a concepção dos professores sobre adolescência e sexualidade e quais estratégias utilizadas quando discutem sobre o tema.

 

METODOLOGIA

Pesquisa qualitativa realizada com 23 educadores que participaram do subprojeto de extensão Adolescência e Sexualidade: uma abordagem voltada para a integração social, vinculado ao projeto Interação Universidade e Escola Pública: capacitação de alunos e professores da Educação Básica, contemplado pelo Programa CAPES Novos Talentos 2010, edital 33/2010, realizado no Departamento de Enfermagem da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), no ano de 2012.

A pesquisa foi realizada por ocasião do primeiro contato com os professores, antes de serem iniciadas as discussões que norteariam o desenvolvimento do projeto de extensão. Sendo assim, os critérios de inclusão foram: ser professor, atuar em escolas públicas vinculadas à 29ª Secretaria do Desenvolvimento Regional (SDR) de Santa Catarina e estar participando do projeto de extensão. Destaca-se que participaram das atividades do projeto de extensão 25 educadores, sendo que, destes, dois não aceitaram responder as questões.

Para a coleta das informações utilizou-se o Método Criativo Sensível (MCS)8, que tem nas dinâmicas de criatividade e sensibilidade (DCS) seu dispositivo central de produção de dados para a pesquisa científica, pois, além de combinarem as discussões de grupo com a produção artística, nelas ocorrem a observação participante e entrevistas coletivas.

O MCS é composto de cinco momentos:

preparação do ambiente e acolhimento do grupo;
apresentação dos participantes do grupo;
explicação da dinâmica e atividade individual ou coletiva;
apresentação das produções e análise coletiva;
validação dos dados. Entretanto, salienta-se que nesta pesquisa foram utilizadas somente quatro etapas, a etapa validação dos dados não foi empregada, pois o método foi utilizado apenas como estratégia para a coleta das informações.

Para essa dinâmica foram lançadas as seguintes questões: como vocês percebem o processo de adolescer? O que é sexualidade? Quais as estratégias utilizadas pelos educadores para discutir o tema sexualidade com os adolescentes? Estas foram respondidas em grupo, sendo que ao todo foram formados seis grupos. Os participantes foram identificados pela letra G (grupo) e respectivo número do grupo. Cada grupo discutiu e produziu, coletivamente, seu entendimento acerca dos questionamentos lançados. Para essa dinâmica, os grupos utilizaram papel pardo, pincel atômico, recorte de revista e cola colorida.

As informações coletadas a partir dos materiais produzidos pelos grupos foram interpretadas seguindo-se a análise temática de conteúdo9, constituída por três etapas: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), que emitiu parecer de aprovação n° 08/2011. Foi desenvolvida respeitando-se os aspectos éticos e legais, respaldada na Resolução n° 196/96 sobre pesquisa envolvendo seres humanos.10

 

RESULTADOS E DISCUSSÕES

As discussões sobre a temática em estudo foram realizadas nos pequenos grupos e após socializadas, permitindo a elaboração de duas categorias de interpretação: concepção dos educadores sobre adolescência e sexualidade e estratégias para discussão do tema sexualidade na escola.

Categoria 1:

Concepção dos educadores sobre adolescência e sexualidade

Os educadores que participaram deste estudo concebem a adolescência como uma etapa da vida compreendida entre a infância e a fase adulta, marcada por um complexo processo individual de crescimento e desenvolvimento biopsicossocial. Associam-na, com frequência, às questões relacionadas à sexualidade, às transformações do corpo e à identificação dos desejos.

São transformações físicas, psicológicas, sociais e culturais. Considerando as físicas, as corporais: a vergonha, a menstruação; psicológicas: a construção de identidade, conflitos, muitas escolhas; e as realizações de desejos sociais, culturais e sexuais [...] (G2).

Entendem que o início da adolescência é marcado pela puberdade, que se caracteriza, principalmente, pela instabilidade do crescimento físico, mudança corporal, eclosão hormonal, evolução da maturação sexual.11

Compreendem, ainda, que as alterações que ocorrem na adolescência são influenciadas pelo grupo de amigos, mídia, moda e por valores adquiridos nos meios sociais e culturais onde estão inseridos, fatores extrínsecos que interferem nos aspectos que envolvem a sexualidade dos adolescentes. "Essas alterações (referindo-se à adolescência) são influenciadas pela [...] moda, mídia, amizade, palavrões, projetos de vida, valores, escolha da profissão, início das relações sexuais. Tudo isso influencia sexualidade e valores" (G2).

Alguns educadores complementam que a adolescência é uma etapa marcada por conflitos, indecisões, transformações físicas e psíquicas, de identificação com os grupos de pares. "[...] fase de mudanças, muitas dúvidas, poucas respostas [...]. É uma fase de autoconhecimento, da pessoa como ser, do aluno como ser. Ele se vê frente ao grupo e ele se vê consigo mesmo" (G3).

De acordo com o exposto, compreendeu-se que esses educadores entendem que o processo de adolescer ocorre de maneira semelhante em todos os indivíduos, sendo marcado por mudanças corporais, biológicas, psicológicas e sociais. Acrescenta-se que a adolescência é um fenômeno único influenciado por componentes socioculturais que vão se solidificando por meio de questionamentos e reflexões constantes de caráter social, sexual, de gênero, ideológico e vocacional.11

Sendo assim, é possível dizer que a adolescência é compreendida pelos educadores como uma etapa da vida intimamente relacionada ao processo de identificações, inicialmente do adolescente consigo mesmo e, após, com as pessoas do seu convívio e com outros elementos que estão em seu entorno. Na busca pelo entendimento de si, o adolescente identifica-se com a família e principalmente com os amigos, que o auxiliam a construir seus próprios valores, que vão orquestrando sua personalidade, comportamentos e um universo de outros caracteres que configuram esse ser adolescente no mundo.

As relações grupais, típicas da adolescência, geralmente são modeladas por líderes, com os quais os membros se identificam. No contexto grupal, as aquisições individuais desaparecem temporariamente, pois o adolescente abandona seu ideal, substituindo-o pelo ideal do grupo.12 A convivência com o grupo pode levar o adolescente a mudanças nos estilos de vestir-se, comunicar-se e comportar-se com o objetivo de pertencimento ao grupo e também como uma maneira de chamar a atenção.

Alguns educadores associam suas concepções de adolescência às alterações corporais observadas nessa etapa do ciclo vital, relacionam o corpo como uma expressão da sexualidade, entendem que por meio dele ocorrem as manifestações de prazer, emoções, sentimentos e fantasias.

[...] Chega o momento em que tem que adolescer, então passa para um corpo, esse corpo tem várias imagens, ele não sabe como se comportar, a cor de pele, óculos que a pessoa colocou corpo magro, o corpo mais cheio, o que fazer? Então quem eu sou, pra onde eu vou? (G5).

[...] adolescência é marcada por manifestações que envolvam prazer, emoção, sentimento e corporeidade [...] (G2).

[...] É um momento de descoberta, é um estado de espírito, é gostar-se, é sentir prazer (G5).

O corpo, portanto, está intimamente relacionado à sexualidade na visão desses educadores, tendo em vista que ao definirem adolescência destacam as alterações corporais e hormonais típicas da maturação sexual nessa etapa da vida.

Os questionamentos, as descobertas, a identificação grupal e o desabrochar do corpo na adolescência marcam não somente a maturação sexual física, mas também todos os aspectos relacionados à sexualidade até então em construção. O viver em grupo, na adolescência, favorece o jogo das relações, das seduções, da busca pelo prazer em todos os sentidos, mas é por meio do corpo que o adolescente aproxima-se, incorpora-se, adapta-se ao grupo e expressa sua sexualidade.

Por outro lado, um grupo de educadores expressou uma visão holística sobre a sexualidade: "sexualidade é o todo, como nós nos vemos como pessoas, a forma como nós trabalhamos no grupo, onde estamos eu enquanto ser e indivíduo/sozinho e de forma grupal. E tudo perpassa toda a nossa existência" (G4).

A sexualidade faz parte da pessoa, sendo indissociável dela, entretanto, a construção da sexualidade na adolescência sofre influência da família, do Estado, da igreja, da escola e da mídia, cada uma com seus saberes, valores, preconceitos e tabus sobre este tema, pois o meio em que o adolescente está inserido influencia o seu saber e viver.13

O modo como os educadores discutem a sexualidade no cotidiano escolar é resultante de como a compreendem. Entendem a sexualidade humana como parte integrante e indissociável do processo de adolescer, manifestadas nas alterações corporais e grupais que levam o adolescente à busca do prazer e das emoções. Compreendem, ainda, que a sexualidade é um fenômeno da existência humana e a educação para a sexualidade é um processo contínuo que requer um olhar constante e atento de todos os atores envolvidos - pais, professores, profissionais de saúde - em todos os momentos da vida. E também que busca desmistificar tabus e vencer preconceitos, permitindo, contudo, o desenvolvimento de novas ideias e conceitos que valorizem a experiência e a associação de saberes.

Categoria 2: Estratégias para discussão do tema sexualidade na escola

No decorrer da pesquisa observou-se que os professores possuem dificuldades para trabalhar o tema sexualidade com os adolescentes, entre elas destacam a ausência de material didático-pedagógico e tecnológico. Assinalam limitações pessoais para encontrar, especialmente na internet, fontes confiáveis de informações que permitam aproximar a teoria com prática, subsidiando as abordagens de ensino, o que pode ser observado na fala que se segue: "manual para auxiliar os educadores a mediarem as angústias [...] vem para a escola livros didáticos pra Física, pra Química. A gente tem que buscar em outras fontes, só que fica ruim você transformar teoria em prática" (G1).

Outra dificuldade exposta é a de discutir a sexualidade como um tema transversal, nem todos os professores conseguem desenvolver o tema, ficando a maior responsabilidade para os educadores da área da Biologia, conforme pode ser observado na explanação a seguir:

[...] a dificuldade é a seguinte: de repente, um aluno tem uma dúvida do assunto de Ciências ou Biologia, um texto de Língua Portuguesa ou problema de Matemática, ele tem essa dúvida de sexualidade, ou do próprio sexo, enfim. O professor não se sente preparado para trabalhar um conceito em cima disso (G4).

As Diretrizes Curriculares Nacionais salientam que a orientação sexual não seja discutida em forma de disciplina obrigatória, mas sim uma temática a ser transversalizada nos diversos conteúdos, sendo aprofundado em cada novo momento em que ela surgir.14

A transversalidade implica a necessidade de o professor dominar além dos conteúdos específicos da sua área de formação, ter conhecimento e domínio para discutir os temas transversais. No caso da sexualidade, há ainda que pensar na formação continuada de professores para isso, pois esse é um tema que requer conhecimento, disponibilidade, interesse, afinidade pessoal do professor com o tema, para abordá-lo.13

Para isso, ela precisa ser entendida como um processo pedagógico cujo objetivo é problematizar questões relacionadas à sexualidade, enfocando as várias dimensões que a permeiam, principalmente os valores, as crenças e a postura.14

Estudo realizado em escolas de ensino fundamental de Lisboa, com 362 indivíduos, entre eles adolescentes, pais e professores, identificou que a educação sexual promovida pela escola gera opiniões divergentes. Os professores, por sua vez, discordam do fato de a educação sexual do adolescente ser competência da escola. Esse posicionamento justifica-se pela falta de qualificação docente para abordar a sexualidade, bem como pela ausência de programas de capacitação adequados.15

O professor não precisa ser especialista em educação sexual, mas sim ter conhecimento acerca dos construtos teóricos da sexualidade para ser capaz de refletir sobre eles. E também aproximar teoria da prática por meio da seleção de estratégias de ensino-aprendizagem que facilitem a discussão do tema, mas principalmente que permitam e favoreçam a participação ativa do adolescente em todo o processo.13

Outra perspectiva para trabalhar o tema sexualidade seria a inserção de profissionais da área da saúde no contexto escolar, sobretudo o enfermeiro, que poderia atuar mediante a efetivação de práticas assistenciais configuradas na consulta de enfermagem, na educação em saúde com os adolescentes e estendidas às suas famílias. A fala que se segue reforça a ideia: "[...] é difícil trabalhar esse tema, é sempre bom ter alguém na escola com essa linguagem, não ter medo de falar e receber dos alunos essas perguntas que às vezes são meio cabeludas" (G4).

Em meio a esse contexto, outros educadores destacam como estratégia para abordar o tema sexualidade com os adolescentes, o silêncio. "As estratégias que a gente colocou, o silêncio que é mais eficaz até como professora. O silêncio perante as dúvidas que a gente tem, pois tem que ter segurança de trabalhar" (G2).

O silêncio remete a três interpretações: pode representar insegurança quanto à condução do questionamento, pois diante de algumas perguntas ficam temerosos em responder; pode instigar novos questionamentos que levam o adolescente a buscar por outras respostas; pode ser visto como uma tática para manter o controle da situação, não desacomodando e não expondo o professor.

O diálogo foi destacado pelos educadores como uma estratégia que favorece a interação com os adolescentes, os quais se utilizam desse momento para instigar e mediar esclarecimentos, aliados aos recursos de vídeos, jogos, figuras ilustrativas, caixa de perguntas, projetos, entre outros.

Mediações, conversas informais, projetos de sexualidade, na escola estamos fazendo esse projeto, trabalhando e sendo muito bem aceito pelos alunos, e eu acho que aqui temos que só abrir a forma como estamos trabalhando, vídeos, conversas (G4).

Palestras, conversas em sala de aula, nos corredores. [...] Mapas do aparelho reprodutor em sala de aula, caixas de perguntas pra quem não quer se identificar e o professor responde [...] o quebra-cabeça dos órgãos reprodutores e vídeos sobre os assuntos reprodução, como o bebê se forma, como ele nasce, todas essas coisas, algumas coisas relacionadas ao assunto (G5).

A dialogicidade é, portanto, um componente importante nas relações entre professores e alunos, pois permite a horizontalidade, o compartilhamento e aproximação de ambos, auxiliando-os a formar vínculos e relações de confiança que se julga serem requisitos fundamentais, que dão sentido e dinamizam o processo educativo.

No entanto, o dialogo requer tempo e disponibilidade dos atores envolvidos, assim como habilidades, sobretudo do professor, o qual deve estar atento para a não emissão de valorações pessoais sobre possíveis questionamentos dos alunos, respondendo-os de forma direta e esclarecedora e especialmente, permitindo a construção de novos conhecimentos que favoreçam a tomada de decisão pelos adolescentes.16

Corroborando esses achados, estudo realizado no município de Ribeirão Preto com 13 professores, que objetivou identificar a compreensão dos professores do ensino fundamental sobre sexo e sexualidade, identificou que a conversa empreendida oportuniza o desencadeamento de discussões, problematização dos temas e instiga os alunos a pensar, sendo ela uma estratégia importante e facilitadora para trabalhar o tema sexualidade no espaço da escola. Aliados à conversa, outros recursos didáticos também contribuem, como: filmes, slides, cartazes e materiais audiovisuais diversos.13

Frente a esses achados, entendeu-se que a escolha de estratégias para discutir o tema sexualidade com adolescentes nas escolas carece de posturas democráticas e horizontais dos educadores, os quais devem se colocar na condição do aluno e permitir, de modo contínuo, que exponham seus questionamentos e dúvidas e os envolvam no processo de ensinar e aprender, por meio de trocas e compartilhamento de saberes.

Para subsidiá-los, é recomendável aos educadores que se ancorem nos referenciais que fundamentam as metodologias participativas, pois para o desenvolvimento destas não basta ter conhecimentos e habilidades. É necessário compreendê-las e encontrar meios para colocá-las em prática, haja vista que as metodologias participativas adotam como pressuposto básico a participação e a provocação para a reflexão e os estímulos à criatividade e a iniciativa de todos os envolvidos.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Mesmo fazendo parte da história da humanidade, o tema sexualidade ainda está envolto por contradições, dificuldade de entendimento, dúvidas e incertezas, por isso a sua discussão nunca se esgota.

Sendo assim, refletir e discutir sobre o tema é relevante, tanto para ajudar o adolescente a enfrentar melhor o processo de adolescer, quanto para instrumentalizar pais e educadores para abordarem o tema. Entende-se que, para isso, o diálogo é fundamental, entretanto, precisa ter caráter acolhedor, ser informativo, ser adotado pela escola, família e profissionais de saúde.

A abordagem deve ser empreendida não no sentido punitivo ou de amedrontar o adolescente quanto aos riscos de práticas sexuais desprotegidas. Ao contrário, é pertinente estabelecer metodologias que facilitem a aproximação e o diálogo com o adolescente para auxiliá-lo e incentivá-lo a construir seus próprios entendimentos acerca da sexualidade, em seu sentido mais amplo, como parte integrante do seu ser.

No decorrer da pesquisa foi possível observar que os professores percebem que a educação sexual é uma área complexa e de difícil abordagem. Veem-se como atores no processo de educar a temática e entendem que a escola é o lugar eleito para ocorrer esse processo, mas mostram-se temerosos e pouco preparados para abordarem o assunto. Entendem que é necessário ter flexibilidade para discutir a temática e para isso precisam ser receptivos e conhecedores do assunto.

Observaram-se divergências de entendimentos dos educadores acerca do processo de adolescer e da sexualidade. Enquanto uns estão centrados no enfoque biologicista, utilizando estratégias mais tradicionais, outros apresentam concepção de adolescência e sexualidade como conceitos indissociados, inerentes ao ser humano, em constante desenvolvimento. Estes adotam estratégias mais participativas, com enfoque maior para o diálogo, permitindo a manifestação do adolescente de forma espontânea.

Ao concluir esta pesquisa, sustenta-se que a discussão do tema sexualidade com o adolescente, no espaço escolar, necessita agregar as diversas áreas do conhecimento, entre as quais se destaca a área da saúde, no sentido de ampliar entendimentos e estratégias de intervenção individuais e coletivas.

 

LIMITAÇÕES DO ESTUDO

Esta pesquisa apresenta limitações, seus resultados não podem ser generalizados, pois apresentam particularidades que envolvem os docentes estudados em um contexto regional. Entretanto, apresenta subsídios para pensar a discussão do tema sexualidade com o adolescente de forma mais efetiva, considerando-se as necessidades, limitações e experiências dos docentes.

 

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