REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 18.3 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20140046

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Pesquisa

Atuação dos enfermeiros de unidades básicas de saúde direcionada aos adolescentes com excesso de peso nas escolas

Primary health care nurses' actions aimed at overweight adolescents in schools

Caroline Evelin Nascimento Kluczynik Vieira1; Bertha Cruz Enders2; Larissa Soares Mariz1; Rudhere Judson Fernandes dos Santos3; Márcia Camila Dantas Rêgo3; Déborah Raquel Carvalho de Oliveira3

1. Enfermeira. Mestre em Enfermagem. Professora do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN. Natal, RN - Brasil
2. Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora do Departamento de Enfermagem da UFRN. Professora colaboradora do Programa de Pós-graduação em Enfermagem da UFRN. Natal, RN - Brasil
3. Acadêmico (a) do Curso de Enfermagem do Departamento de Enfermagem da UFRN. Natal, RN - Brasil

Endereço para correspondência

Déborah Raquel Carvalho de Oliveira
E-mail: deborahrco@hotmail.com

Submetido em: 18/02/2014
Aprovado em: 25/08/2014

Resumo

Objetivou-se identificar a percepção dos enfermeiros das Unidades Básicas de Saúde sobre sua atuação na avaliação para excesso de peso em adolescentes nas escolas. Estudo descritivo, qualitativo, realizado em Natal-RN com quatro enfermeiras de unidades básicas de saúde cujo território abrangia escolas estaduais. Os dados foram colhidos por entrevista e analisados pela técnica de análise de conteúdo. Foram identificados quatro temas que representam as percepções das enfermeiras sobre a atividade: dificuldade no acompanhamento do adolescente na Atenção Primária em Saúde; causas do crescimento do excesso de peso na adolescência; ações de saúde nas escolas; e prevenção/identificação/intervenção no excesso de peso em adolescentes nas escolas. Existiam lacunas na atuação dessas enfermeiras junto aos adolescentes, especialmente na promoção da saúde, prevenção e tratamento do excesso de peso, uma vez que se isentavam de agir e transferiam a responsabilidade para outros profissionais. A falta de articulação entre os serviços de saúde e as instituições educacionais constitui um fator limitante para a assistência ao adolescente na atenção primária em saúde.

Palavras-chave: Enfermagem; Adolescente; Sobrepeso; Saúde Escolar; Serviços de Saúde Escolar.

 

INTRODUÇÃO

A adolescência é considerada a etapa da vida compreendida entre a infância e a fase adulta, marcada por um complexo processo de crescimento e desenvolvimento biopsicossocial. O Ministério da Saúde segue a convenção elaborada pela Organização Mundial da Saúde, que a delimita como o período entre 10 e 19 anos de idade.1

Essa fase da vida é um período crítico para o desenvolvimento do excesso de peso, devido à predominância de atividades de lazer sedentárias e práticas alimentares inadequadas,2 levando ao risco de outros danos à saúde, tais como a hiperinsulinemia, resistência insulínica, doenças cardiovasculares, ortopédicas e infertilidade.3

A Atenção Primária em Saúde (APS), considerada a porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS), tem se demonstrado despreparada para atender às necessidades dessa clientela, principalmente no que diz respeito à capacitação dos seus profissionais e ao horário de atendimento, que é diurno e coincide com o horário de aula. Isso implica a ausência dos adolescentes nos serviços e torna os cuidados um desafio para a prática de enfermagem.4,5

Buscando resolver esse problema, foi lançado, em 2008, o Programa Saúde na Escola (PSE). A primeira meta do PSE focaliza a avaliação da saúde dos escolares, a partir da classificação do estado nutricional e da identificação precoce de hipertensão e diabetes. Ressalta-se que a responsabilidade pelo desenvolvimento das ações preconizadas pelo PSE é das Unidades Básicas de Saúde (UBS) que possuem escolas públicas em seu território.6

Perante essas diretrizes, pressupõe-se que a escola seja um cenário de atuação do enfermeiro da atenção primária. Nesse ambiente, o enfermeiro pode agir como elo entre os adolescentes e os serviços de saúde e instituir estratégias de prevenção, bem como identificar e intervir nos casos de excesso de peso.6

Adicionalmente, entende-se que a avaliação das condições de saúde das crianças e adolescentes, inclusive do excesso de peso, representa um fenômeno importante no domínio da enfermagem, tendo em vista que o excesso de peso é um diagnóstico de enfermagem (DE) segundo a Classificação Internacional das Práticas de Enfermagem (CIPE) Versão 2.7 Entretanto, apesar da crescente prevalência desse problema (entre os anos de 1974 e 2009 o excesso de peso em adolescentes passou de 3% para 21%) e as possibilidades de sucesso, a partir da intervenção precoce na APS ainda não é rotina a triagem direcionada para identificação de indivíduos com esse DE no âmbito escolar, tampouco o planejamento dos cuidados, implementação e acompanhamento periódico.8 Contudo, pouco se sabe sobre as opiniões desses profissionais acerca dessa problemática de saúde da população de adolescentes e de seu controle como responsabilidade relacionada ao enfermeiro que atua na atenção primária em saúde.

Diante de tal situação e devido à escassez de literatura sobre a incorporação das ações propostas pelo PSE junto aos escolares e as direcionadas ao adolescente com excesso de peso, questiona-se: como os enfermeiros das UBS percebem o seu envolvimento na avaliação das condições de saúde para o excesso de peso em adolescentes no ambiente escolar?

O objetivo do estudo foi identificar a percepção dos enfermeiros das UBS sobre sua atuação na avaliação das condições de saúde para excesso de peso em adolescentes nas escolas.

Para propósitos deste estudo utiliza-se o conceito de percepção na modalidade racional, em que a percepção envolve a compreensão de conceitos e de abstrações, e não especificamente a percepção adquirida através dos sentidos.9

A relevância do estudo centra-se na necessidade de construir subsídios e elaborar instrumentos para a melhoria da prática de enfermagem na atenção primária, especificamente na atenção à saúde das populações que, por alguma dificuldade, se encontram fora de seu fluxo de assistência. Além de demonstrar a intencionalidade de uns enfermeiros, o estudo contribui para o fortalecimento de políticas públicas de saúde com ênfase na promoção da saúde, na medida em que aborda o problema de excesso de peso infanto-juvenil contido na Agenda Nacional de Prioridades de Pesquisa.10

 

MÉTODO

Este estudo constitui parte de uma pesquisa descritiva mais ampla realizada com adolescentes estudantes de oito escolas estaduais no município de Natal-RN, Brasil, cujos objetivos foram analisar o excesso de peso em adolescentes e identificar a atuação do enfermeiro da UBS com essa clientela.11

Esse componente trata-se de um estudo descritivo de dados qualitativos colhidos das enfermeiras que trabalhavam nas UBS cujo território abrangia a escola estadual onde foi realizada a primeira parte da pesquisa.

Das oito escolas participantes na pesquisa original, apenas quatro faziam parte de território coberto por UBS. Por esse motivo, quatro enfermeiras participaram da segunda etapa da pesquisa, cujos resultados foram apresentados no presente artigo.

A coleta de dados foi realizada por meio de entrevista semiestruturada com gravação de voz e um roteiro de entrevista. O roteiro foi submetido à avaliação por cinco especialistas com pós-graduação (mestres e doutores), pesquisadores da temática de excesso de peso em adolescentes e com produção científica em periódicos Qualis. Eles avaliaram as questões norteadoras quanto ao conteúdo, em relação a: organização, clareza, simplicidade, facilidade de leitura, adequação do vocabulário, objetividade, precisão, credibilidade e adequação, sendo atribuído conceito SIM ou NÃO a cada questão.12

Após a incorporação das alterações recomendadas pelos especialistas, o roteiro foi constituído por quatro questões norteadoras: o que você poderia comentar sobre o problema do excesso de peso nos adolescentes? Quais ações de saúde são desenvolvidas na escola? Quais ações de saúde têm sido desenvolvidas na escola sobre a temática do excesso de peso? O que você acha sobre a avaliação das condições de saúde do adolescente no ambiente escolar?

As entrevistas foram realizadas nos meses de março e abril de 2013. As enfermeiras foram inicialmente contatadas por telefone para explicar sucintamente os objetivos da pesquisa e solicitar o agendamento de um encontro presencial. No dia agendado, os objetivos da pesquisa e as informações sobre anonimato, sigilo e liberdade de desistência da participação no estudo foram detalhadamente explicados. Após assinatura nos Termos de Consentimento Livre Esclarecido e de permissão de gravação de voz assinados, as entrevistas foram realizadas na própria UBS.

As entrevistas gravadas foram transcritas e posteriormente analisadas por meio da técnica da análise de conteúdo, modalidade temática.13 Inicialmente foi realizada uma pré-análise do material com leitura flutuante, a fim de conhecê-lo e à sua narrativa. Em seguida, foram feitas leitura exaustiva das falas, determinação das unidades de registro, nomeação e identificação dos temas e finalmente a definição das categorias de análise, com classificação progressiva dos elementos das falas.

As categorias identificadas foram discutidas em sua relação ao conceito da APS no contexto escolar, com ênfase nas ações desenvolvidas pelo enfermeiro para prevenção/identificação/intervenção sobre o excesso de peso em adolescentes.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sob CAAE nº 10200812.0.0000.5537. Para garantir o anonimato das participantes, estas foram identificadas por letras, sendo Enfermeira A, B, C e D.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

As quatro enfermeiras participantes tinham idade entre 40 e 52 anos. Todas eram experientes na APS, com tempo de serviço entre 18 e 27 anos.

As categorias temáticas identificadas sobre a atuação do enfermeiro na avaliação do excesso de peso no âmbito escolar foram as seguintes: a) dificuldade no acompanhamento do adolescente na atenção primária em saúde; b) causas do crescimento do excesso de peso na adolescência; c) ações de saúde desenvolvidas nas escolas; d) prevenção, identificação e intervenção no excesso de peso em adolescentes nas escolas.

Dificuldade do acompanhamento do adolescente na atenção primária em saúde

Essa categoria foi elaborada a partir das falas das enfermeiras do estudo, que, em geral, indicaram que promover assistência preventiva ou acompanhamento periódico do adolescente é impraticável na APS, devido, primeiramente, ao desinteresse da população nessa faixa etária em buscar os serviços na unidade de saúde. Essa percepção é exemplificada no depoimento a seguir: "o adolescente pensa que não adoece. Então só procura a gente quando está adoentado ou por uma gravidez indesejada. Ele não procura a gente para saber se está tudo bem" (Enfermeira A).

Nessa fala, demonstra-se que a enfermeira tem clara visão desse "não lugar" do adolescente no contexto da APS e, de forma crítica, ressaltam-se os fatores que contribuem para a manutenção dessa situação. Porém, essa visão parece ainda não ter conseguido ultrapassar a linha da análise e vislumbrar propostas que transformem a prática, como mostram as falas da Enfermeira B e da Enfermeira C, a seguir:

Os adolescentes não frequentam o posto. Porque em um horário ele estuda, no outro cuida do irmão ou tem programação na escola ou fica na rua. [...] tem que ter um atrativo. Eu não aprendi a fazer isso na universidade nem no dia-a-dia (Enfermeira B).

Acho muito importante sairmos da unidade e fazermos algumas ações nas escola. Agora, no quotidiano, ações voltadas especialmente para adolescentes são poucas, infelizmente (Enfermeira C).

As concepções expressadas por essas enfermeiras trazem o entendimento de que a APS é responsável pelo cuidado do adolescente na ótica da integralidade. Mas, no momento em que refletem, percebem o "não lugar" do adolescente na APS e mantêm a ideia do cuidado na escola como difícil em função dessa ausência. Entre as barreiras percebidas encontra-se a vida própria do adolescente, que não permite a presença na unidade, a falta de atração à instituição e a deficiência na formação do enfermeiro no que diz respeito às ações com adolescente em excesso de peso.

Entende-se que, na perspectiva da APS, para promover essa assistência, primeiramente é preciso que o enfermeiro atente para a ideia de que o cuidado ao adolescente deve ocorrer em diferentes momentos, como, por exemplo: na puericultura, formação de grupos por faixa etária, consulta de enfermagem, assistência nas escolas e nas visitas domiciliares.14 Observa-se, porém, que os profissionais têm dificuldades em executar suas ações fora das unidades convencionais de saúde.

Em estudo que se propôs a analisar a produção científica acerca do cuidado de enfermagem na atenção ao adolescente na APS pelos programas de pós-graduação em Enfermagem, chegou-se à conclusão de que esse "não lugar" do adolescente acaba aparecendo de maneira mais contundente quando os enfermeiros são questionados e, de certa forma, levados à reflexão sobre suas práticas. Por isso, parcerias entre as universidades e as UBS devem ser estimuladas, a fim de garantir o desenvolvimento de ações inovadoras.5

Essa dificuldade em promover saúde ao adolescente relaciona-se, sobretudo, à organização dos serviços de saúde e à formação do enfermeiro, que não respaldam a construção do conhecimento sobre adolescência e o cuidado ao "não doente".15

Diante desse problema, emerge a necessidade de serem criadas possibilidades para os profissionais da APS repensarem suas concepções a partir do lugar que ocupam no processo de trabalho. Caso não se propicie essa reflexão sobre a clientela adolescente, irá ser mantido o imobilismo ou serão desenvolvidas ações pouco efetivas, ficando mais uma vez essa população na invisibilidade.16

Causas do crescimento do excesso de peso na adolescência

As enfermeiras participantes do estudo demonstraram compreensão da problemática do excesso de peso em adolescentes. As falas a seguir exemplificam a concepção que as enfermeiras tinham sobre a extensão e crescimento do problema:

O problema da obesidade nos adolescentes é visível. É um problema, hoje, de saúde pública (Enfermeira A).

A obesidade nos adolescentes é uma coisa que está aumentando demais na população, na faixa etária de 12 a 18 anos (Enfermeira D).

A preocupação identificada nas falas é pertinente. No Brasil, a Pesquisa de Orçamentos Familiares realizada no período entre 2008 e 2009 revelou que a parcela dos rapazes de 10 a 19 anos de idade com excesso de peso passou de 3,7% em 1974-1975 para 21,7% no período 2008-2009. Entre as garotas o crescimento foi de 7,6% para 19,4%, nos mesmos períodos.17

As enfermeiras também estavam cientes das complicações da obesidade, na medida em que identificaram ainda como principal preocupação o fato de a obesidade ser uma doença com potencial de causar outras doenças, inclusive na vida adulta.

[...] é preocupante, por causa da diabetes e hipertensão em adolescentes (Enfermeira B).

Com certeza é preocupante devido às doenças correlacionadas à obesidade. Desde problemas osteomusculoesquelético à hipertensão, diabetes e dislipidemia na adolescência (Enfermeira C).

Estudos têm encontrado associação entre obesidade e, principalmente, doenças relacionadas às alterações metabólicas, tais como dislipidemia, hipertensão e intolerância à glicose. Destaca-se que essas doenças são consideradas fatores de risco para o diabetes mellitus tipo 2 e doenças cardiovasculares, as quais têm se tornado mais frequentes na faixa etária mais jovem.18

O excesso de peso pode ser entendido como um processo multifatorial. No entanto, as enfermeiras concordaram que os hábitos alimentares são a principal causa da doença:

Tem adolescente que a gente pergunta como é seu café da manhã. Ele responde: "Oh, doutora eu como três torradas". E quantas frutas? "Nenhuma" (Enfermeira A).

Acredito que a mídia influencia muito, o shopping, a questão da lanchonete, do sanduíche (Enfermeira C).

Está relacionado ao estilo de vida, porque tem muito fast food. (Enfermeira D).

É possível perceber a fácil relação que as enfermeiras fazem entre o excesso de peso e os hábitos alimentares dos adolescentes. Entretanto, esse é um detalhe que deve ser considerado, porque é possível que com essa ideia a enfermagem se abstenha de suas possibilidades de agir perante o problema, como se pode observar na fala a seguir: "[...] A causa é a má alimentação. Então se esse problema é identificado eu encaminho para a nutricionista" (Enfermeira D).

Primeiramente, é preciso considerar que se trata de um problema da equipe de saúde, inclusive da enfermagem, e não apenas da nutrição. O excesso de peso configura um diagnóstico de enfermagem segundo a classificação da CIPE versão 27. E a "nutrição desequilibrada, mais dos que as necessidades corporais", é um diagnóstico de enfermagem contido na classificação da NANDA – I19, reforçando esse problema como passível de prevenção/identificação/intervenção de enfermagem.

Segundo ponto a ser considerado é que a causa não se limita à alimentação inadequada. Na adolescência o excesso de peso se reveste de causas diversas, entre as quais, alterações pubertárias, baixa autoestima, sedentarismo e uso de suplementos nutricionais. Além disso, a mídia utiliza campanhas publicitárias para a venda de produtos que despertam o interesse para hábitos pouco saudáveis.20

Nesse sentido, atenta-se para o papel desafiador das estratégias de promoção da saúde em ir de encontro à cultura capitalista, a qual influencia o sedentarismo e o consumo de alimentos industrializados.

Apenas uma enfermeira levantou a questão do sedentarismo e perpetuação dos hábitos não saudáveis dos pais como causa para o problema: "É uma população que traz a orientação dos pais. Os pais não têm hábito de fazer atividade física e o adolescente segue" (Enfermeira A).

Ter essa visão mais ampla do problema é fundamental para o planejamento dos cuidados de enfermagem. Tem-se que considerar os benefícios da prática de atividade física associada à alimentação saudável, o que contribui para a saúde esquelética, aumento da flexibilidade e capacidade aeróbia e a relação inversa com os fatores de risco cardiovasculares.15

Ainda, o avanço tecnológico atrai os adolescentes para uma vida fisicamente pouco ativa e para mais consumo calórico, a partir dos atrativos como videogames e computadores. A previsão para os próximos anos é de que haja crescimento das indústrias de banda larga e vídeo em tela, com ênfase nos consumidores mais jovens, o que contribuirá para o estilo de vida não saudável.21

Somada a esse cenário preocupante existe a influência dos hábitos dos pais, conforme mencionaram as enfermeiras. É fundamental para a enfermagem planejar a intervenção na base familiar, uma vez que programas de intervenções apresentam melhores resultados quando as estratégias utilizadas incluem o componente familiar.21,22

De modo geral, as participantes do presente estudo identificaram a causa da obesidade como multifatorial. O planejamento, então, deve partir de uma esfera mais abrangente, no qual a prioridade são políticas públicas de encorajamento de hábitos saudáveis para toda a população.22

Ações de saúde desenvolvidas nas escolas

Quando questionadas sobre as ações educativas que eram desenvolvidas nas escolas, as participantes se referiam aos temas imunização e sexualidade como principais atividades de orientação e responsabilidade do enfermeiro.

Trabalhamos com a imunização (Enfermeira A).

No dia que a gente vai para a escola a nutricionista faz o percentil e o IMC, a gente faz a vacina (Enfermeira B).

Temos abertura de ir nessas escolas e fazer trabalhos de palestras sobre vacinação e doenças transmissíveis (Enfermeira D).

Apesar de as entrevistadas atingirem um grau de conhecimento favorável acerca do excesso de peso em adolescentes, observou-se que elas não visualizavam a responsabilidade de prevenir e/ou tratar essa condição de saúde. Ressalta-se a importância de o enfermeiro desenvolver ações voltadas para a promoção da saúde e prevenção de agravos em adolescentes que frequentam centros educacionais.16

Entre essas ações, as que se relacionam com a prevenção e identificação precoce do excesso de peso, há que se considerar a promoção da alimentação adequada e saudável (PASS), que constitui uma das diretrizes da Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN). A PASS objetiva a melhora da qualidade de vida da população, a partir da promoção da saúde por grupos etários, com vistas à redução da prevalência do sobrepeso, obesidade e doenças crônicas associadas ou relacionadas à alimentação e nutrição.23 É atividade também do enfermeiro da APS desenvolver ações de prevenção primária no controle do excesso de peso por meio de ações educativas.15

Para a realização de atividades de educação em saúde eficientes, é necessária a articulação de saberes e a participação da equipe multiprofissional, de estudantes, pais, comunidade escolar e sociedade em geral na construção e controle social da política pública.6 Porém, é possível perceber que as enfermeiras entendiam como um problema que deverá ser acompanhado por apenas um profissional, seja ele nutricionista ou médico.

Ações de saúde sobre o excesso de peso, você tem que perguntar na escola, porque lá tem uma nutricionista (Enfermeira B).

[...] Se eu peguei ele com IMC sobrepeso ou obeso, então ele mais uma vez será avaliado por nossa médica (Enfermeira A).

Outra participante identificou outros problemas que dificultam a realização de ações de saúde na escola.

Fazemos poucas ações na escola em função do enfermeiro ter na sua carga horária atribuições que não lhes dispensam tempo para desenvolver com maior frequência essas atividades. Principalmente nas escolas com adolescentes, nós não temos um acesso muito fácil, porque eles têm uma programação a ser cumprida (Enfermeira C).

Foi possível identificar dificuldades na realização das atividades nas escolas por causa da falta de tempo do profissional da saúde e de atividades escolares não oferecerem espaço para programas de saúde. No entanto, o que propõe o PSE é que as ações de saúde sejam incluídas no Projeto Político Pedagógico das escolas e, para isso, a unidade de saúde deve se planejar levando em conta a programação escolar.26

De modo geral, as enfermeiras reconheceram a importância de ações de saúde na escola, mas mencionaram dificuldades que inviabilizam ações de saúde mais efetivas. Isso corrobora o resultado apresentado por um estudo que, quanto à assistência nas escolas, destacou que os profissionais de saúde foram treinados para desenvolver ações em unidades de saúde, de forma que trabalhar fora desse cenário se configura um desafio.24

Prevenção, identificação e intervenção do excesso de peso em adolescentes nas escolas

Para alcançar bons resultados, uma estratégia a ser utilizada pelo enfermeiro na prevenção primária para o controle do excesso de peso é o uso de ações educativas.25 É possível identificar uma compreensão favorável a essa ação da enfermagem, quando todas as enfermeiras perceberam a importância da avaliação das condições de saúde do adolescente no ambiente escolar.

Eu acredito que a avaliação de saúde na escola teria uma resposta muito satisfatória se fosse bem trabalhada (Enfermeira C).

Acho muito importante porque essa avaliação no ambiente escolar retrata o que o adolescente tem lá na casa dele (Enfermeira D).

Nessas falas, é possível identificar que as enfermeiras alcançaram o entendimento de que educação e saúde precisam andar juntas. Como reforçado na fala a seguir: "saúde e educação caminham de mãos dadas. Então, a gente que trabalha com enfermagem, acredita muito nisso" (Enfermeira D).

Essa é a proposta do PSE, que encontra na escola um espaço ideal de relações para o desenvolvimento do pensamento crítico e político. Nessa perspectiva é possível vislumbrar uma escola que forma cidadãos críticos e informados, com habilidades para agir em defesa da vida e de sua qualidade e que devem ser compreendidos pela enfermagem em suas estratégias de cuidado.6

Assim, ratificando a percepção das enfermeiras entrevistadas, o PSE vem contribuir para o fortalecimento de ações na perspectiva do desenvolvimento integral e proporcionar à comunidade escolar a participação em programas e projetos que articulem saúde e educação, para o enfrentamento das vulnerabilidades que comprometem o pleno desenvolvimento de adolescentes.6

Apesar de estarem cientes da importância da assistência à saúde prestada aos adolescentes no ambiente escolar, as enfermeiras entrevistadas identificaram como dificuldade o acesso ao ambiente escolar. É evidente que medidas propostas para prevenir, identificar e tratar o excesso de peso serão alcançados se houver participação das famílias, das escolas e das comunidades, em um esforço conjunto da sociedade e do governo.15

Sobre esse fato, as enfermeiras perceberam que as escolas dificultavam a operacionalização do PSE, principalmente pelas ações de saúde supostamente interferirem no cumprimento do calendário escolar. Além disso, pressupõe-se que o conhecimento seria trabalhado na escola e o corpo nas unidades de saúde.

Dificuldades para fazer a avaliação tem, porque não depende só do posto. Depende também da escola (Enfermeira B).

Não existe educação em saúde nas escolas. A escola se preocupa com o conhecimento e não com o aluno como um todo (Enfermeira C).

Porque às vezes a escola falha em não facilitar essa união, aí a unidade também tende a falhar e não soma, só divide (Enfermeira A).

Cabe considerar que, para o alcance dos objetivos e sucesso nas ações de saúde na escola, é de fundamental importância compreender a educação integral articulada às práticas de saúde que incluem prevenção, promoção, recuperação e manutenção da saúde dos indivíduos e coletivos humanos.6

Percebe-se, ainda, segundo as falas analisadas, que as diversas atividades e deveres em que os adolescentes hoje estão envolvidos dificultam o acesso dos profissionais de saúde. O processo, entretanto, pode ser desenvolvido em duas vertentes. A primeira, na busca de casos de adolescentes com excesso de peso, com o objetivo de receberem tratamento. Em segundo, seria trabalhada a prevenção de novos casos, direcionando a atenção para a promoção de orientações sobre alimentação adequada associada à prática de atividade física, visto ser essa uma atividade obrigatória nas escolas.10

Estudo com escolares revelou que a prática da atividade física regular, quando iniciada na infância e/ou adolescência, protege contra a inatividade física na idade adulta e intervenções combinadas de atividade física e educação nutricional tiveram mais efeitos positivos na redução do índice de massa corporal. Esses dados servem de base para o entendimento da importância de desenvolver atividades educativas nas escolas, a fim de identificar e avaliar adolescentes com excesso de peso.21

Por fim, com a efetiva aplicação dessas atividades e procedimentos no ambiente escolar com vistas ao combate ao excesso de peso, será possível alcançar o propósito maior, que é incluir os adolescentes nos serviços de saúde na APS.6

 

CONCLUSÃO

As enfermeiras entrevistadas neste estudo percebiam como fundamental a assistência aos adolescentes com excesso de peso, dado principalmente o crescente número dessa clientela. Destacaram, no entanto, a dificuldade que permeia o processo de assistir a essa população, tendo em vista a sua ausência nos serviços de atenção primária. Outros fatores limitantes dessa assistência são o excesso de tarefas no processo de trabalho e a baixa articulação com as escolas para o desenvolvimento de atividades para os adolescentes.

Apesar do conhecimento apresentado pelas participantes, elas demonstraram, em relação ao excesso de peso em adolescentes como problema de saúde pública, uma postura na qual se isentavam de condutas de maior impacto, seja na promoção da saúde, prevenção de agravos ou tratamento, atribuindo a outros profissionais a responsabilidade maior em torno desse problema. Isso culmina, além da inibição de atividades de sua competência, em prejuízos ao processo de saúde e doença do adolescente.

Ponto crucial a ser refletido diz respeito às lacunas na articulação entre os serviços de saúde e o ambiente escolar, fator que tem dificultado a prática do enfermeiro e da equipe multidisciplinar no acompanhamento dos escolares, em detrimento do que é preconizado pela política ministerial em relação à saúde do escolar, que prevê o elo entre saúde e educação por meio do PSE, visando principalmente à promoção da saúde e prevenção nesse grupo.

Diante do exposto, surge a necessidade de mais sensibilização dos enfermeiros atuantes na APS em trabalharem juntamente com as agendas das escolas. E, para além da notoriedade que se faz acerca do excesso de peso em adolescentes, reforça-se a responsabilidade da APS em ser resolutiva frente a esse problema.

Como limitação do estudo tem-se o fato de a coleta de dados ter ocorrido apenas com enfermeiras de quatro UBS, o que não permitiu generalizações. Contudo, poderá ser comparado com as percepções de enfermeiros em outras pesquisas futuros.

 

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