REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 18.4 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20140057

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Editorial

Constitui-se a epidemia atual do vírus ebola em risco real para o Brasil?

Is the current epidemic of Ebola virus a real risk to Brazil?

Enio Roberto Pietra Pedroso

 

[...] a gente só sabe bem aquilo que não entende [...] só aos poucos é que o escuro é claro [...] (Guimarães-Rosa).

As doenças emergentes e reemergentes constituem grande desafio ao bem-estar humano e colocam em risco toda a humanidade, independentemente de seu grau de evolução sociopoliticoeconômica.

As doenças emergentes são novas, com significativo impacto antropológico, ético, biológico e médico; em decorrência de sua gravidade, tem risco de sequelas e morte; e repercussões sociais (prevalência, degradação ambiental), como é observado com a síndrome de imunodeficiência adquirida, febre hemorrágica, gripe H1N1 (2009) pandêmica, tuberculose multirresistente, febre chikungunya, febre hemorrágica de ebola, entre várias. As doenças reemergentes são aquelas que retornam após longo período de declínio, com impacto semelhante ou mais intenso do que era anteriormente, como ocorre em relação à cólera e dengue.

O adoecimento é caracterizado, desde os primórdios aos dias atuais da história humana, por fatores favorecedores, em que se observam momentos com algumas especificidades, como: a) idade das pestilências e fome: em que predominaram as epidemias, elevada mortalidade, curta expectativa de vida; b) idade do declínio da fase de epidemia: em que ocorreu diminuição da mortalidade e aumento da expectativa de vida; c) idade das doenças degenerativas ou criadas pelo homem: em que foram de menos importância as infecções e passaram a predominar as doenças degenerativas, com baixa mortalidade, e aumento da expectativa de vida; d) idade do declínio das doenças degenerativas: etapa atual observada nos países desenvolvidos. Ao final do século XX surgiram doenças emergentes junto com a reemergência de outras doenças, alertando para a movimentação de agentes e veículos de doenças e os riscos de toda a população humana, influenciada pela globalização e condições precárias de sobrevivência de todos os povos. Observa-se, atualmente, mesmo em países desenvolvidos, a contraposição de características de fases de idades diversas, em que doenças degenerativas convivem com doenças infecciosas, epidemias e endemias.

O desenvolvimento e a disseminação das doenças decorrem de: a) mudanças ecológicas; b) demografia e comportamento humano; c) comércio e viagens internacionais; d) indústria e tecnologia; e) adaptação e mudança de agentes e vetores; f) colapso das medidas de saúde pública; g) modelo econômico; h) alimentos industrializados; i) educação para a saúde; j) variabilidade e comportamento de vetores. O conjunto desses fatores é que determina quais os riscos de doenças em um mundo em que as barreiras migratórias e de inter-relação entre países e pessoas são cada vez menores.

Vive-se, atualmente, a emergência de novo risco: a epidemia pelo vírus ebola (VE). Há risco para os brasileiros?

Em 1995, no Congo, 250 pessoas morreram (81% de letalidade) em decorrência de febre com hemorragia cutaneomucosa, em localidades situadas às margens do rio Ebola. As alterações clínicas eram similares às encontradas em 1976, no Sudão e no Zaire, quando foi notificada a morte de 151 e de 280 pessoas, com letalidade de 53 e 88%, respectivamente. Em 1979 e em 1994 também foram notificadas no Congo e no Gabão novas epidemias semelhantes às do Sudão e Zaire, com letalidade de 65 e 60%, respectivamente. O agente etiológico dessa febre hemorrágica foi identificado em 1995, como um vírus Filoviridae que recebeu o nome de ebola (VE). Em 1996 e 1997, no Gabão; e entre 2000 e 2004 em Uganda, Congo, Gabão e Sudão; a febre hemorrágica do ebola (FHE) foi responsável por letalidade de 57 a 74%; e de 53 a 89%, respectivamente. Nova epidemia de FHE surgiu entre 2007 e 2009 no Sudão, Congo, Uganda, com letalidade entre 25 e 83%; e em 2012, em Uganda e Congo, com letalidade entre 25 e 83% e 25 e 71%, respectivamente. Em 2014 é reconhecida a maior gravidade da epidemia já registrada do VE, na Guiné, Libéria, Serra Leoa e Nigéria; países com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e que enfrentaram recentemente guerras civis. Foram contados mais de 1.528 casos de FHE e continua aumentando, com mais de 950 mortes e letalidade de 50%. Nas últimas semanas a Organização Mundial de Saúde declarou que o surto do VE no oeste da África constitui-se em emergência de saúde pública de alcance mundial com necessidade de ação internacional coordenada para frear e retroceder sua propagação.

A FHE mostra-se, desde sua descrição, com renitência suficientemente capaz de se manter diante de situações especiais e possibilidade de disseminação mundial. Está em curso a maior epidemia da FHE e entre os seus fatores associados encontram-se: há) hábitos culturais de contato com doentes e cadáveres contaminados; b) práticas de curandeirismo que usam fluidos corporais de doentes; c) profissionais de saúde com treinamento insuficiente ou que não têm ou dispensam o uso de equipamentos de proteção individual; d) baixo índice de desenvolvimento humano; e) passado recente de guerras civis; f) sistemas de saúde desorganizados.

As populações mais expostas são os profissionais de saúde e os familiares e circunjacentes de portadores do VE. A FHE constitui-se em preocupação mundial, devido às condições de perseverança da epidemia e à precariedade de vida de mais de dois terços da população humana em todo o planeta.

No Brasil e no restante da América nunca foram relatados casos nativos em humanos, mas nos Estados Unidos da América foram encontrados macacos infectados pelo VE.

O VE possui vários tipos, como: ebola-Zaire, ebola-Sudão, floresta Taï (Costa do Marfim), bundibugyo; e o vírus reston, que tem como hospedeiros, respectivamente, o ser humano e primatas superiores.

O VE é transmitido a partir de contato direto com: sangue ou outros fluidos corporais de doentes, objetos contaminados com fluidos corporais infectados e animais infectados. O reservatório natural do VE é desconhecido, entretanto, em 2005, no Gabão, foram encontrados morcegos frugívoros como seu mais provável reservatório, que poderia também ser primatas e antílopes.

O VE possui elevadas transmissibilidade e patogenicidade, entretanto, os países em que ocorre a epidemia atual apresentam fatores culturais que dificultam medidas de prevenção apropriadas, como: manter proximidade dos doentes; tocar os cadáveres nos funerais; praticar rituais com curandeiros, com manipulação de sangue e secreções; transportar cadáveres sem os devidos cuidados; resistir ao isolamento dos doentes.

A FHE possui letalidade elevada, de 50 a 90%, com período de incubação entre dois e 21 dias após exposição ao VE e média entre oito a 10 dias. As pessoas infectadas pelo VE devem permanecer por 30 dias sob regime de quarentena (isolamento). Pode haver cura espontânea após a instalação da doença. Observa-se, entretanto, que pacientes que faleceram devido à FHE não desenvolveram, até o instante de sua morte, resposta imunológica efetiva. Sua manifestação clínica caracteriza-se como: síndrome febril, cefaleia intensa, mialgia e artralgia, astenia, que evolui em poucos dias com diarreia, vômitos, epigastralgia, hiporexia e, em alguns casos, com hemorragia.

O diagnóstico é clinico-laboratorial e deve ser diferenciado de: malária, febre tifoide, shiguelose, leptospirose, febre amarela, dengue, febre do Lassa, febre chikungunya, febre maculosa, febre hemorrágica por vírus de hantan.

A terapêutica da FHE consiste em suporte básico e avançado de vida, sem medicação específica aprovada, e curso autolimitado. Há poucas semanas dois pacientes sobreviveram após serem tratados com anticorpos monoclonais criados dentro de folhas de tabaco modificadas.

Considera-se reduzida a possibilidade de epidemia pelo VE no Brasil, bem como de pandemia, considerando-se os fatores descritos como de risco e seu controle, que dependem de medidas básicas em que está envolvida especialmente a transmissão pelo contato com doentes e suas secreções corporais e que estão sendo implementadas nos locais onde ocorre a epidemia e planejadas para serem usadas em outros países não afetados pela epidemia atual. Essas medidas são possíveis a partir de ações planejadas pelos órgãos de saúde, pela capacitação de profissionais envolvidos e melhora do conhecimento de todos sobre a doença. É necessária a vigilância sanitária para impedir a disseminação do VE, mas não se pode esquecer de dengue e cólera. A facilidade de viagens em todo o mundo, a troca de mercadorias e alimentos, as guerras e o subdesenvolvimento fazem com que na atualidade qualquer doença possa estar em 36 horas disseminada para qualquer parte do mundo. É preciso, portanto, estar preparado para os riscos que a globalização interpõe ao mundo contemporâneo.

O que deve ser feito globalmente consiste em: a) combater a pobreza, o desemprego, a desigualdade social; b) priorizar a saúde em todas as políticas públicas e privadas; c) promover a educação libertadora, a cidadania, a competência tecnológica e científica; d) manter o equilíbrio com a natureza, por intermédio de intervenções racionais sobre o meio ambiente, e entender a habilidade dos agentes e vetores, que determinam as doenças que provocam ruptura do bem-estar das pessoas; e) tornar o ser humano o sujeito, e não objeto da economia; f) estabelecer a solidariedade e respeito pela vida, como objetivo para a convivência e gentileza humanas; g) tornar a saúde como realmente o maior bem que tem o ser vivo; h) promover o autoconhecimento, que se constitui na chave de toda a complexidade humana e a salvação do ser humano.

[...] é preciso entender o limite pessoal; respeito e dignidade consigo e com a natureza; perceber a pessoa em seu olhar [...]

 

Enio Roberto Pietra Pedroso
Professor Titular do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG.

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