REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 14.1

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Relato de experiência

Contando histórias para ensinar o estudante de enfermagem sobre a abordagem à criança doente

Telling stories to teach nursing undergraduate students how to approach the sick child

Ana Márcia Chiaradia MendesI; Regina Szylit BoussoII

IEnfermeira. Especialista em Doação e Transplante de Órgãos e Tecidos pela UNIFESP. Mestre em Enfermagem Pediátrica pela Escola de Enfermagem da USP. Doutoranda em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da USP. Professora da Universidade Paulista (UNIP)
IIEnfermeira. Professor livre-docente do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Psiquiátrica da Escola de Enfermagem da USP

Endereço para correspondência

Ana Márcia Chiaradia Mendes
Rua Zacarias de Góis, 1.326, apto 41
Campo Belo-SP - CEP: 04610-003
E-mail: mendes_amc@yahoo.com.br

Data de submissão: 27-10-2009
Data de aprovação: 9-12-2009

Resumo

O desenvolvimento de estratégias didáticas que aproximem o estudante de enfermagem do cenário cotidiano do hospital, mediante o uso da literatura e do cinema, tem conquistado espaço e destaque na literatura do ensino de enfermagem. Os objetivos com este trabalho foram apresentar e descrever uma proposta de integração do conteúdo teórico da abordagem à criança enferma por meio do livro Oscar e a Senhora Rosa. Trata-se de um relato de experiência da autora, a qual introduziu a leitura de um capítulo do livro a cada aula ministrada na disciplina de Enfermagem Pediátrica aos alunos do terceiro ano de Graduação em Enfermagem de uma universidade particular do município de São Paulo. Após a leitura do livro, abria-se espaço para reflexão e discussão do relacionamento entre os atores do livro e as diferentes formas de abordagem ao paciente e à família, discutidas na aula expositiva. Tal estratégia mostrou-se útil e recomendada para a aproximação do estudante de enfermagem da realidade do paciente criticamente enfermo, instrumentalizando-o para agir nesse contexto.

Palavras-chave: Enfermagem Pediátrica; Ensino; Educação em Enfermagem

 

INTRODUÇÃO

Antigamente, o perfil do estudante universitário era majoritariamente de classes privilegiadas e de faixa etária entre 18 e 22 anos e, em determinados cursos de graduação, de predominância de um dos sexos.1

Atualmente, nos cursos de Graduação em Enfermagem, nota-se a presença, cada vez mais significativa, de estudantes com idade superior à da média tradicional, o aumento do número de estudantes do sexo masculino, além da mistura, cada vez maior, de estudantes que buscam o curso com nenhuma experiência na área da saúde e de profissionais que já atuam como técnicos ou auxiliares de enfermagem.

Diante disso, muitos professores, provavelmente, não estão preparados para lidar com a diversidade e, por falta de recursos, acabam distanciando-se cada vez mais do corpo discente, propondo aulas predominantemente expositivas que deixam de lado a grande diversidade que pode produzir muito mais em sala do que a unanimidade que se costuma muitas vezes almejar.

Cabe ao professor universitário a difícil e desafiadora tarefa de manter a motivação de seus alunos nas disciplinas que leciona, emergindo, então, a pergunta: Como manter motivado um grupo de alunos que, em princípio, parece tão heterogêneo?

A mente humana, até onde a conhecemos, é uma força que funciona ativada por motivações. Um relógio pode bater as horas junto a um ouvido; um objeto pode lançar sua imagem dentro de um campo visual. Mas a mente desatenta não verá nem ouvirá nada.2

Para que se possa, efetivamente, conseguir a atenção do aluno e fazê-lo um agente ativo no seu processo de aprendizagem, é necessário ganhar-lhe a atenção irrestrita, e isso só se dá por meio da motivação, independentemente da homogeneidade presente ou não no grupo.

Ora, se a motivação é a força propulsora que nos leva a agir em determinada direção, os conteúdos lecionados em sala de aula devem ser de tamanha abrangência e responsabilidade que sejam capazes de induzir o aluno de qualquer perfil a ir em busca do próprio conhecimento, das próprias conclusões, mediante reflexões que emergem de acordo com os significados atribuídos às experiências e situações que lhe são apresentadas. Nesse ponto, a diversidade torna-se um elemento motivador de discussões e consequentemente de aprendizado, visto que quanto maior a gama de experiências vividas e realidades distintas, maiores as possibilidades de reflexões construtivas diante de um mesmo elemento motivador.

No cenário da enfermagem, muitas são as possibilidades de trabalhar com os alunos conteúdos que inevitavelmente trarão à tona experiências e emoções vividas. Um dos fatores que causam maior ansiedade aos estudantes no contexto da Enfermagem Pediátrica é como lidar com a criança doente e sua família, diante do sofrimento e da morte. Conteúdos como esse são difíceis de trabalhar eficientemente por meio de aulas essencialmente expositivas porque os alunos facilmente se tornam enfadados de um assunto subjetivo e abstrato, e muitas vezes não veem sentido no conteúdo ministrado.

A integração da arte no conteúdo dos cursos de graduação, seja por meio da exibição de filmes, teatro, literatura, música ou poesia, pode ajudar o estudante de qualquer faixa etária, cultura, sexo e grupo social a motivar-se em busca de aprender e desenvolver conceitos abstratos que dificilmente são absorvidos por meio de aulas expositivas.3

As histórias contadas, sejam por meio da leitura de livros ou da exibição de filmes, oferecem aos estudantes a oportunidade de ver o que a criança e sua família pensam ou podem estar enfrentando com relação a dificuldades, e situações com as quais eles podem deparar na prática clínica de maneira mais realista do que um estudo de caso predeterminado. O estudante tem a oportunidade de observar e sentir a dinâmica dos relacionamentos e suas interações usando habilidades de observação e percepção que fazem com que o aluno consiga desenvolver as habilidades conceituais.

Em culturas como a da Grécia Antiga, a Medieval ou a Renascentista, nas quais o pensamento e a ação moral se estruturam de acordo com o esquema denominado clássico, o meio principal da educação moral é contar histórias. Contar histórias seria o substitutivo lógico para a impossibilidade de que todos os homens possam se submeter às experiências intensas de situações humanas. Assim, as artes que contam histórias - teatro, literatura, ópera, cinema - teriam o papel de suprir as experiências que nem todos podem vivenciar.4

As histórias devida, quando bem colocadas, têm importante papel. Não é função da arte a simples diversão ou o passatempo, mas, sim, provocar sentimentos e, por meio deles, induzir os ouvintes a buscar sentido nas experiências e aprender com elas. Assim, permitir no espaço acadêmico o fluir das emoções - por meio da discussão, de partilhar os sentimentos - abre caminhos para uma verdadeira reconstrução da afetividade e, consequentemente, da mudança da prática do profissional.4

O uso das histórias em sala de aula desafia o aluno a identificar conceitos, e isso muda a base do aprendizado, de uma fundação amparada apenas no conhecimento para a sua compreensão e aplicação.5

O desenvolvimento de habilidades de abordagem à criança pode ser adquirido por meio de métodos tradicionais, os quais, porém, esses têm suas limitações. O método tradicional de ensino, composto principalmente por aulas expositivas e leituras de textos, promove uma experiência passiva de aprendizagem. O uso de artes envolve o aluno, permitindo que ele assuma um papel mais ativo e participante do processo. A aprendizagem ativa toma forma quando o aluno é desafiado a procurar informações relevantes que são apresentadas no decorrer da leitura da história.3

Assim, o objetivo com este trabalho foi apresentar uma forma de integrar o conteúdo "relacionamento com a criança doente" com a história contada no livro Oscar e a Senhora Rosa6, em um curso de Graduação em Enfermagem, como uma estratégia para motivar os estudantes a transpor o abismo existente entre teorias de abordagem à criança doente e a prática de enfermagem.

 

DESCREVENDO A ESTRATÉGIA

Na disciplina de Propedêutica e Processo de Cuidar da Saúde da Criança, ministrada aos alunos do 5º e 6º semestres do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Paulista, o objetivo é conhecer as características e necessidades da criança e do adolescente decorrentes do processo de crescimento e desenvolvimento e do processo saúde-doença. Para tanto, além dos conteúdos referentes ao crescimento e ao desenvolvimento da criança, bem como das técnicas de exame físico na criança e no adolescente, as estratégias de abordagem, comunicação e relacionamento interpessoal com a criança e o adolescente são ministradas a fim de que o enfermeiro tenha subsídios para prestar uma assistência adequada às reais necessidades dessa população específica de pacientes.

Diante disso, pensando em estratégias que pudessem tornar o ensino das formas de abordar a criança doente e sua família mais acessível e interessante, bem como das evidências apresentadas quanto à eficácia da utilização de histórias em sala de aula para auxiliar o aluno na busca pelo desenvolvimento de conceitos abstratos, reservou-se um momento da aula todas as semanas para que se fizesse a leitura de um ou dois capítulos do livro. Posteriormente à leitura, em algumas aulas abria-se espaço à discussão e ressaltavam-se os aspectos referentes ao papel do enfermeiro no cuidado à criança doente e à família, trazendo situações do livro para provocar a reflexão. O objetivo com essa estratégia era aliar a experiência apresentada no livro à teoria que ia sendo simultaneamente ministrada no decorrer do curso.

Foram necessárias oito semanas para a conclusão da leitura do livro. Após o término da leitura, pediu-se aos alunos que fizessem uma avaliação geral da atividade desenvolvida durante o bimestre, destacando os pontos que mais lhes chamaram a atenção na leitura do livro e o que eles aprenderam sobre o cuidado da criança e da família mediante leitura e discussão. Foi-lhes dada a oportunidade de se expressarem em relação ao conteúdo apresentado e à sua forma de apresentação.

 

APRESENTANDO O INSTRUMENTO - OSCAR E A SENHORA ROSA6

Trata-se de uma obra de um autor francês que vem sendo aclamado mundialmente por sua literatura simples e profunda. O título faz parte de uma trilogia escrita pelo autor com o objetivo de descrever os fundamentos de três grandes religiões, sendo o livro em questão destinado ao cristianismo.

Oscar é um menino de 10 anos que sofre de leucemia e encontra-se em estado terminal. Mora no hospital e tem poucos amigos, mas dentre eles merece destaque especial a Senhora Rosa, chamada por ele de "Vovó Rosa", uma das voluntárias do hospital.

A Vovó Rosa visita Oscar todos os dias e entre eles surge uma amizade profunda, na qual Oscar vai se apoiar para encontrar força para enfrentar sua doença em fase terminal e viver intensamente os dias que lhe restam.

O livro é redigido no formato de cartas escritas por Oscar para Deus, seguindo um acordo feito entre Oscar e a Senhora Rosa.

 

COLHENDO OS FRUTOS - SÍNTESE DA EXPERIÊNCIA

Em relação à estratégia e sua eficácia no processo de ensino-aprendizagem, o feedback foi muito positivo.

A atmosfera em sala de aula, de maneira geral, parecia mais descontraída, a leitura do livro prendia a atenção dos alunos de todas as idades, sexo e grupo sociocultural. Os alunos, repetidas vezes, relataram que as histórias em sala de aula deram vida ao conteúdo teórico ministrado simultaneamente, favorecendo a transformação de pensamento sobre a abordagem à criança e à família, bem como facilitando a reflexão. Os alunos refletiam como reagiriam se estivessem no lugar dos personagens, como abordariam a criança naquela situação e como se comportariam se fossem a própria criança doente. Tais reflexões, por vezes, trouxeram à tona emoções diversificadas, como o riso diante de situações hilárias que o livro traz, bem como o choro e a tristeza de alunos que já haviam vivenciado ou testemunhado situações semelhantes na vida pessoal ou profissional.

Durante as discussões e reflexões em sala, ficou claro para os alunos quão diferenciada deve ser a abordagem à criança de acordo com o seu estágio de desenvolvimento, o quanto ela sofre por ter sua infância ameaçada e o quanto entende a situação provocada pela doença. A leitura do livro induziu à reflexão de que não se deve subestimar a criança em relação ao seu entendimento sobre a doença, porque ela muitas vezes tem diversas dúvidas que, quando ignoradas, deixam-na ainda mais insegura e sofrendo.

Os alunos evidenciaram em aula o fato de que a leitura do livro mostrou que o enfermeiro pode ficar ao lado da criança diante de perguntas difíceis e pensar em respostas que sejam verdadeiras e ao mesmo tempo lhes dê esperança. Alguns capítulos do livro fizeram a classe refletir sobre o impacto negativo daquilo que eles chamam de "mentira bem-intencionada" aos pacientes e da importância do compromisso de falar sempre a verdade.

Reflexões sobre o envolvimento necessário do profissional com a criança como garantia de uma assistência integral resultaram em novas perspectivas sobre o papel do enfermeiro, além de mostrar que os benefícios do relacionamento não são apenas para o paciente, mas também para o profissional, ilustrado no livro pela Senhora Rosa, pois um aprende com o outro, precisa do outro e se modifica com o outro.

A história de Oscar e a Senhora Rosa6 chamou a atenção dos alunos em diversos aspectos. A consciência de Oscar sobre a própria morte, bem como a mágoa que ele carregava no início diante da solidão em que se encontrava, uma vez que seus pais e a equipe o evitavam e tratavam-no diferentemente por causa da doença, sensibilizou os estudantes sobre a capacidade de percepção da criança diante da morte e levantou questões sobre o preparo dos profissionais para abordar a criança em estado terminal.

O desenvolvimento da amizade entre os dois e o amadurecimento de Oscar em decorrência do seu envolvimento com a Senhora Rosa evidenciaram a força de ambos os personagens, que foram tomados como exemplos de vida pelos alunos: Oscar, antes tão magoado e sem ânimo diante da doença, passou a encarar a vida de outra forma e com isso, pela sua força de vontade, a doença deixou de assumir o papel principal na vida dele, dando lugar a uma existência plena e feliz. Vovó Rosa, sempre disposta e bem-humorada com Oscar, impressionou os alunos pela habilidade que dispunha para lidar com ele, transmitindo-lhe sempre muita força e esperança, conseguindo fazer com que ele desse um novo sentido à vida. Além disso, diante do surpreendente final da história, os alunos destacaram o quanto a amizade entre os dois também foi transformadora para a Vovó Rosa.

Contar a história em sala de aula motivou os alunos a querer buscar mais a literatura como fonte de inspiração e aprendizado dos conteúdos relacionados à temática proposta, que era a experiência e a abordagem da criança diante da doença terminal e da morte. A leitura do livro em sala possibilitou a criação de um relacionamento descontraído e reflexivo em sala, de tal forma que os alunos ficavam ansiosos pelo momento da leitura e diversas vezes comentaram que a leitura do livro tornava a aula mais interessante e cativante. Muitos deles não esperaram até a leitura do último capítulo em sala, mas adquiriram o livro e leram em casa, além de acompanharem a leitura em sala, e comentavam bastante empolgados como a leitura do livro os fez refletir sobre várias situações que eles próprios já haviam vivenciado, tanto em sua trajetória pessoal quanto profissional.

 

REFLEXÕES FINAIS

O objetivo com a estratégia da leitura Oscar e a Senhora Rosa foi fazer com que os alunos captassem os conceitos abstratos que a abordagem diferenciada à criança doente requer no contexto da assistência de enfermagem. Os conceitos fundamentais que emergiram nas discussões em sala foram a necessidade de saber ouvir e respeitar a criança e como envolver-se com ela para prestar o cuidado adequado e completo. Tais conceitos foram diretamente ao encontro dos conceitos trabalhados no conteúdo teórico, porém com muito mais eficácia e objetividade.

Os resultados da estratégia superaram em muito as expectativas e o conteúdo foi absorvido pelos estudantes de maneira muito mais permanente do que em experiências passadas de ensino do mesmo conteúdo, quando apenas se expunha a teoria e recomendavam-se textos e artigos científicos.

A prática de contar histórias em sala de aula, bem como a utilização de todo recurso que a arte oferece, pode ser uma ferramenta essencial para motivar os alunos, não importa quão heterogêneo seja o corpo discente com o qual se lida atualmente nas salas de aula dos cursos de enfermagem. A diversidade, nesse contexto, provou que é um elemento propulsor e facilitador de discussões, em que pessoas de diferentes realidades socioculturais deram diferentes significados à história, e com isso, foram discutidas diversas histórias e possibilidades, enriquecendo o processo de ensino-aprendizagem.

Como recomendações futuras, fazer com que o estudante identifique sentimentos durante a leitura de histórias pode ajudá-lo a se instrumentalizar, a usar a si próprio na abordagem com a criança. Portanto, um desafio futuro, para incrementar a estratégia aqui apresentada, pode ser perguntar ao aluno, logo após a leitura de determinado trecho ou capítulo, o que ele sentiria se estivesse no lugar de cada um dos personagens.

Diversas possibilidades estão em aberto diante do mesmo desafio: motivar o aluno a aprender. Apresentou-se apenas uma, com o intuito de disseminar o conhecimento aprendido em experiência de docente e com a esperança de que muitas outras ainda serão desenvolvidas para que o ensino e a formação dos futuros enfermeiros se aprimorem cada vez mais.

 

REFERÊNCIAS

1. Gil, AC. Didática do ensino superior. São Paulo: Atlas, 2007.

2. Gregory, JM. As sete leis do ensino. 8ª ed. São Paulo: CPAD, 2007.

3. Stinchfield, TA. Using popular films to teach systems thinking. The Family Journal: Counseling and therapy for couples and families 2006;14(2):123-8.

4. Blasco, PG. Educação da afetividade através do cinema. Curitiba: Instituto de Ensino e Fomento (IEF), 2006.

5. Sorrell, J. Stories in the Nursing Classroom: writing and learning through stories. Language and learning across the disciplines 2000;5(1):36-48.

6. Schmitt, EE. Oscar e a Senhora Rosa. São Paulo: Nova Fronteira, 2002.

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