REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 14.1

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Relato de experiência

Reflexões acerca da condução de uma investigação qualitativa

Considerations on conducting qualitative research

Edilaine Giovanini RossettoI; José Fernando Petrilli FilhoII,+; Juliana Cardeal da Costa ZorzoIII; Sarah Nancy Deggau Hegeto de SouzaIV; Sinara de Lima SouzaV; Adriana Katia CorrêaVI; Maria das Graças Carvalho FerrianiVII

IEnfermeira. Doutoranda na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto/Universidade de São Paulo (EERP/USP). Docente no Departamento de Enfermagem da Universidade Estadual de Londrina (UEL)
IIEnfermeiro. Doutorando na EERP/USP. Docente no Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de São Carlos
IIIEnfermeira. Doutoranda na EERP/USP. Unidade Pediátrica do Hospital de Clínicas de Ribeirão Preto/USP
IVEnfermeira. Doutoranda na EERP/USP. Docente no Departamento de Enfermagem da Universidade Estadual de Londrina (UEL)
VEnfermeira. Doutoranda na EERP/USP. Docente no Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)
VIEnfermeira. Docente doutora do Departamento de Enfermagem Geral e Especializada na EERP/USP
VIIEnfermeira. Docente titular do Departamento Materno Infantil e Saúde Pública na EERP/USP

Endereço para correspondência

Edilaine Giovanini Rossetto
Avenida Gil de Abreu e Souza, 1501, Condomínio Royal Park - Gleba Palhano
CEP: 86058-100, Londrina-PR
E-mail: ediluiz@sercomtel.com.br

Data de submissão: 12-5-2009
Data de aprovação: 7-1-2010

Resumo

Este artigo é fruto de reflexão de alunos da pós-graduação que compartilham o aprendizado da condução de uma investigação científica. O objetivo é tecer considerações sobre pontos sobre os quais o pesquisador deve atentar-se na condução de uma investigação qualitativa, com vista ao rigor científico e ético. A pertinência da corrente de pensamento para embasamento do estudo exige estudos aprofundados para construir coerência teórico-metodológica no processo de investigação. A leitura sobre a realidade exige do pesquisador a escolha do modo, da técnica, dos sujeitos e do tempo apropriado. Diferentes caminhos possuem potencialidades e limites na busca do explorar, descrever e analisar a intrincada rede de subjetividades que pressupõe a investigação qualitativa. São destacados alguns pilares que devem ser observados na elaboração da pesquisa qualitativa visando contribuir para o reconhecimento da sua importância na construção do conhecimento.

Palavras-chave: Pesquisa Qualitativa; Pesquisa; Metodologia

 

INTRODUÇÃO

O campo de saúde, especificamente o da enfermagem, ao buscar aprofundar conhecimentos que envolvem a compreensão dos fenômenos humanos em suas dimensões subjetivas e socioculturais, depara com os limites do modelo clássico de produção de conhecimento, dentre os quais a objetividade em detrimento da subjetividade, a suposta neutralidade do pesquisador e o predomínio da linguagem matemática. Para esse modelo, conhecer implica quantificar, sendo o rigor científico cotejado pelo rigor das medições. Aquilo que não é quantificável é cientificamente irrelevante. Além disso, tem-se uma redução da complexidade, uma vez que se concebe que para conhecer é necessário dividir e classificar para, depois, determinar relações sistemáticas entre o que foi separado.1

Não se trata, todavia, de considerar que a quantificação não seja aplicável ao campo de estudos sócio-humanos ou que seja dispensável. Ao contrário, sem modelos matemáticos e quantificação, alguns fenômenos são inescrutáveis. O que é problemático é crer nas medidas de modo absoluto, na neutralidade das intervenções de pesquisa e dos dados, bem como na ideia de que as relações lineares de causa e efeito pudessem explicar todos os fenômenos humanos, sem indagações sobre a natureza das medidas e a real validade dos conceitos que as fundamentam.2

Nesse contexto, configura-se na enfermagem brasileira a partir da década de 1980, a utilização de abordagens qualitativas na produção de investigação científica. Assim, a abordagem qualitativa tem se mostrado um campo fértil para a produção do conhecimento em enfermagem, uma vez que tem possibilitado o desenvolvimento conceitual e das práticas que contribuem para o ensino, a pesquisa e a assistência.

A pesquisa qualitativa envolve a coleta sistemática, a ordenação, a descrição e a interpretação de dados textuais gerados de conversas, observações ou documentação.3 Para isso, necessita de instrumentos e procedimentos específicos, o que requer maior cuidado na descrição de todos os passos da pesquisa.4 A descrição desses passos adotados pelo pesquisador, em seu percurso investigativo no campo, constitui uma das etapas que conferem rigor à investigação qualitativa, uma vez que os instrumentos e procedimentos adotados não são padronizados e a pesquisa qualitativa não é um campo unificado, conforme alerta Cohen e Crabtree.5

A pesquisa qualitativa busca interpretar e compreender os significados dos fenômenos, das crenças, dos valores e dos hábitos para o indivíduo e para o coletivo. A coleta de dados envolve o diálogo entre indivíduos e sua análise, a escrita, ou seja, a palavra que retrata a fala. Ela não ocorre num espaço artificial criado pelo pesquisador, pois exige observações de situações em tempo real.

Este artigo é fruto de reflexão realizada entre estudantes da pós-graduação stricto sensu, que se encontram em fase de organização de suas pesquisas e compartilham o árduo aprendizado da condução de uma investigação científica, bem como do crescente reconhecimento do valor da pesquisa qualitativa em base de dados, a fim de facilitar a participação eficaz e adequada dos cuidados à saúde.6 O objetivo é tecer considerações sobre as questões para as quais o pesquisador deve atentar na condução de uma investigação qualitativa, com vista ao rigor científico e ético.

Assim, este estudo deve ser entendido não como um mapa ou roteiro que conduzirá o pesquisador ao sucesso em sua investigação, mas como um texto que contém apontamentos úteis e assinala para a recursividade do processo na abordagem qualitativa. Busca-se, portanto, por meio desse artigo, estabelecer o início de uma conversa com outros pesquisadores.

O trabalho científico e suas bases teóricometodológicas

Uma rede de pressupostos ontológicos e da natureza humana constitui uma estratégia em qualquer pesquisa científica, portanto o pesquisador deve definir o ponto de vista que tem do mundo.

As investigações qualitativas se pautam em referenciais teórico-metodológicos distintos que, inclusive, podem fundamentar alguns modos de operacionalizar a organização e a coleta de dados no trabalho de campo de maneiras específicas. Assim, a questão de pesquisa deve refletir o paradigma adotado pelo pesquisador e ser coerente com o método de pesquisa proposto.7,8 Pode ser traçada uma analogia entre a corrente de pensamento adotada e uma lente por meio da qual o pesquisador olha para o mundo, o campo e os achados de seus estudos. Certamente não se pode, a priori, dizer qual lente ou corrente de pensamento é a melhor, mas que é a partir do que se quer observar que uma se mostra mais pertinente que a outra. Um exemplo que ilustra essa linha de raciocínio seria pensar em um pesquisador que deseja conhecer a estrutura macroscópica de uma folha por meio de uma lente telescópica. Tal intento seria certamente malsucedido e, nesse caso, uma lupa permitiria a realização da investigação com melhores resultados.

Assim, uma estratégia essencial para o pesquisador é pensar sobre a corrente de pensamento a ser utilizada em seu estudo com base no critério de pertinência, uma vez que são múltiplas e cada uma tem seus potenciais e limitações. Além da pertinência, como dito, cabe considerar que o pesquisador, como sujeito histórico, está sempre imbuído de uma visão de mundo que, de certo modo, já o faz interessar-se por determinados problemas da realidade, e não outros, e questioná-los. Ou seja, suas concepções sobre o mundo e as relações entre os homens estão sempre presentes na base de seus questionamentos e de seu modo de proceder como pesquisador.

O positivismo a fenomenologia, o materialismo, o estruturalismo e o pensamento sistêmico, por exemplo, são algumas das correntes de pensamento que têm influenciado a pesquisa social.7,9 Essas correntes de pensamento podem aproximar em algumas perspectivas, afastar-se em outras, mas todas exigem estudos aprofundados do pesquisador no sentido de construir coerência teórico-metodológica ao longo do processo de investigação. Cabe salientar, ainda, que todos possuem potencialidades e limites na busca do explorar, descrever e analisar a intrincada rede de subjetividades que a Investigação Qualitativa pressupõe.

No que concerne ao trabalho de campo, a adequada seleção e descrição da corrente de pensamento adotada pelo pesquisador possibilita, primeiramente, explicitar a consistência do estudo, uma vez que permite demonstrar a pertinência e a coerência entre a epistemologia adotada e o objeto; em segundo lugar, ao descrever, mesmo que brevemente, sobre a corrente de pensamento adotada, o pesquisador situa o leitor sobre os seus achados e a leitura que faz deles, de modo a possibilitar um intercâmbio mais efetivo entre o autor e o leitor.

Refletindo sobre a inserção no campo

Sem a intenção de esgotar a temática ou fazer generalizações, tampouco negando as especificidades das coletas de dados quando considerados referenciais teóricos distintos, a perspectiva neste artigo é organizar informações básicas relacionadas ao trabalho de campo que podem subsidiar a coleta de dados em pesquisas qualitativas. Destaque-se, assim, que, uma vez que a questão de pesquisa nessa abordagem é um processo interativo, os inícios são necessariamente provisórios.8

O campo pode ser compreendido como o espaço onde se encontram os sujeitos."Corresponde ao local onde os mesmos se entregam às suas tarefas cotidianas, sendo esses ambientes naturais, por excelência, o objeto de estudo dos investigadores"10. O campo, segundo Minayo,9 consiste no recorte espacial que diz respeito à abrangência, em termos empíricos, do recorte teórico correspondente ao objeto de investigação.

A entrada no campo do estudo constitui um momento carregado de tensões. Na fase exploratória, o pesquisador tem um aparente domínio da situação no diálogo com os autores que referencia, com as ponderações do orientador quando se tratar de projetos de mestrado e/ou doutorado e diante da avaliação do projeto pelo Comitê de Ética. Dispõe de autonomia para acatar total ou parcialmente as sugestões que lhes são dadas. Contudo, inserir-se no campo significa penetrar no ambiente natural que constitui sua fonte de dados. Significa, também, penetrar no ambiente que pertence ao outro, no qual permeiam relações de poder. Trata-se de uma pessoa que deseja conhecer aspectos da vida de outras pessoas:

Como todos os grupos humanos, estes têm seus próprios valores que podem ser muito diferentes dos valores do pesquisador. Possuem interesses, inimizades, setores sociais constituídos por amigos, familiares, entre outros, ou estão unidos pelos mesmos anseios.11

Tal realidade remete à ponderação sobre a melhor maneira de inserção nesses espaços, do modo menos conturbado possível, no sentido de realmente coletar dados significativos diante da proposta da investigação. Vivenciar essa experiência é algo singular que constitui uma nova situação até mesmo para os mais experientes.

Quer seja um ambiente fechado, a exemplo de uma instituição, ou um campo totalmente aberto, a exemplo do espaço da rua, a inserção do pesquisador não se dá de forma natural ou mesmo neutra. Deve ser sistematizada, refletida, construída e reconstruída permanentemente no encontro com os sujeitos. Serão sinalizados, a seguir, alguns cuidados que devem ser observados e, também, as possibilidades de tornar esse momento menos tenso.

Negociando o acesso ao campo

Como estratégia de entrada no campo, é necessário que o pesquisador estabeleça contato com pessoas que lhe facilitem o acesso. Esse contato" merece preparação para descrevermos a pesquisa que desejamos realizar para os interlocutores, como apresentar, a quem e por meio de quem essa apresentação vai ocorrer"9. É importante que o investigador crie oportunidades para que sua entrada no campo seja gradual e discreta, se possível por meio de alguém que ele já conheça e que já esteja inserido no campo.

Em muitas situações, o pesquisador pode até mesmo permanecer, previamente à coleta de dados propriamente dita, no campo da investigação, permitindo construção de vínculos e confiança que deixam mais à vontade pesquisador e sujeitos.

A solicitação de autorização para conduzir o estudo que planeja e a busca de cooperação, explicando os seus interesses, é imprescindível para o início de atuação no campo. Apesar de alguns campos se constituírem em espaços de livre acesso, a exemplo das pesquisas desenvolvidas com população de rua ou indigentes, em que, teoricamente, não se disponha de um elemento de referência, a solicitação de conselhos a terceiros (conhecedores do campo) pode ajudar na compreensão da dinâmica das relações ali estabelecidas; em outras circunstâncias, o contato com o responsável pela instituição e a busca de informações, formais e informais, sobre o campo, juntamente com a participação de uma reunião ou conversa com a equipe envolvida na investigação, propiciarão uma aproximação mais amistosa, mesmo que a autorização para conduzir o estudo tenha sido concedida por alguém que atue em instância hierarquicamente superior.10

Em certos casos, o pesquisador pode ser solicitado para prestar apoio à instituição em troca do acesso. É preciso certificar-se de que esse apoio não vai prejudicar sua investigação.

Alguns questionamentos devem ser esclarecidos pelo pesquisador ao adentrar o campo:

- O que vai fazer exatamente? (Evite uma linguagem excessivamente técnica)

- Vai causar perturbação? Vai interferir na rotina? (Partilhe a sua intenção de submeter os seus horários aos da instituição)

- O que vai fazer com os resultados? (Questões éticas, meios de divulgação, se é parte de uma dissertação ou tese, e o que pretende com o estudo)

- Por que esse grupo?

- Quais os benefícios do estudo? O que vão ganhar em troca?

- Tente não prometer demais; mas comprometa-se em retornar e apresentar seus resultados.10

Os primeiros dias no campo de investigação podem ser comparados com o início de uma aproximação. Gradativamente, o pesquisador vai conhecendo um pouco mais do campo e se tornando conhecido pelos sujeitos. Alguns comentários podem ser interpretados como rejeição ou hostilidade, mas é preciso entender que a presença de algum estranho pode estar causando mal-estar nas pessoas por estarem se sentindo observadas, o que não deve ser interpretado como uma ofensa pessoal.

É aconselhável que o pesquisador se mostre relativamente passivo, com interesse e entusiasmo por aquilo que está por aprender, mas evitando realizar muitas perguntas. Os sujeitos, muitas vezes, perguntarão ao pesquisador o que ele faz ali, e ele deve informar que tem autorização para tal, mas de modo breve. Muitas interrogações que emergem nessa fase podem ser sanadas pela observação.

Bogdan e Biklen10 consideram uma indicação clara de aceitação pelos sujeitos um convite para um evento social, um pedido para participar de atividades restritas aos membros, ou dizer que sentiram sua falta quando não pôde ir.

A saída do campo de investigação

Assim como a entrada no campo, o momento de afastamento deve ser planejado. A saída pode ser difícil, pois, enquanto o pesquisador está no campo, são estabelecidos vínculos. Em um primeiro momento, o sentimento de perda pode ser experimentado pelo pesquisador e/ou pelos sujeitos.

Infelizmente, na prática, temos percebido que os pesquisadores, por vezes, não têm se preocupado com essa questão. A saída brusca e a falta de compromisso quanto ao retorno ao campo para apresentar os resultados do estudo podem provocar nos sujeitos envolvidos a sensação de terem sido usados e descartados, o que implica descuido ético. Às vezes, o pesquisador sente necessidade de retornar ao campo para aprofundar algumas questões da sua pesquisa e deve se portar de maneira que, caso necessite retornar, seja bem recebido.

Outra questão importante se refere à maneira como os dados são utilizados. É preciso ter o cuidado de não causar constrangimento pelos achados do estudo, adotando posturas extremistas. Sempre são encontrados aspectos positivos e negativos em qualquer campo de estudo, uma vez que é colocado um foco de observação e análise, além de a realidade não ser produto acabado e idealizado. Algumas vezes, os aspectos positivos são esquecidos e a maneira como o pesquisador se refere aos aspectos negativos faz com que os sujeitos se sintam alvo de críticas destrutivas, já que, em certos casos, alguns pesquisadores sequer sinalizam sugestões para a mudança da realidade.

A crítica é bem aceita quando colocada de forma apropriada, sendo inclusive função da pesquisa também apontar limites. Contudo, é preciso atentar-se para o fato de que a conduta do pesquisador no campo pode propiciar a realização de outras pesquisas ou fechar as possibilidades para outros pesquisadores.

Alguns investigadores, mesmo quando terminada a pesquisa, mantêm laços com as pessoas com quem estiveram envolvidos e regressam ao local periodicamente, o que leva a construções mais compartilhadas e consistentes de conhecimento e possibilidades de transformações da realidade.10

Cabe destacar que a desarticulação entre pesquisador (ou universidade) e os campos de investigação (serviços de saúde ou de educação, dentre outros) tem trazido dificuldades de trabalhos mais cooperativos e de produção de conhecimento que tenham impacto no cotidiano. (Essa questão extrapola os limites deste artigo, mas merece reflexão por parte de todo pesquisador compromissado com os fins sociais da Universidade e da pesquisa.)

Todo esse processo cuidadoso de entrada e saída no campo deve ser descrito no relatório final do estudo para garantir a sua fidedignidade e também para facilitar o percurso de outros pesquisadores que desejarem replicar o estudo ou, simplesmente, compreender passo a passo como se deu esse processo.

Técnicas de coleta de dados em pesquisa qualitativa

As técnicas de coleta de dados constituem o instrumento que o pesquisador utiliza para obter as informações necessárias para responder aos objetivos de sua pesquisa. A escolha das técnicas não é aleatória e deve estar relacionada com o problema, o objetivo e o referencial teórico utilizado no projeto de pesquisa. Elas visam fazer uma mediação entre os marcos teórico-metodológicos e a realidade empírica.9

Existem diferentes técnicas de coleta de dados. Neste estudo, porém, são enfocadas algumas mais comumente utilizadas: a entrevista e o grupo focal. São os métodos mais comuns de coleta de dados utilizados em pesquisa qualitativa.12

Entrevista

É um recurso amplamente utilizado em pesquisas humanas, clínicas, sociais e organizacionais.1 Compreende uma "conversa a dois, realizada por iniciativa do entrevistador, destinada a construir informações pertinentes para um objeto de pesquisa, e abordagem pelo entrevistador de temas igualmente pertinentes tendo em vista este objetivo".9

É adequada quando se deseja obter informações aprofundadas sobre a subjetividade, o comportamento e as relações das pessoas com o meio no qual estão inseridas.10

A entrevista pode ser aplicada individualmente ou de forma coletiva; o entrevistador tem a obrigação de garantir o anonimato e o sigilo das informações adquiridas, além de solicitar autorização para gravá-la. O pesquisador tem de ser compreensivo e saber ouvir o outro e não interromper com opiniões pessoais, e o local para a sua aplicação deve ser adequado e permitir privacidade. É uma técnica que exige preparo de quem vai aplicá-la, mas permite uma grande aquisição de dados e é flexível.10

Grupo focal

Ele é utilizado quando o pesquisador deseja conhecer um tema por meio de pequenas amostras de sujeitos. O objetivo é buscar conhecer atitudes, preferências, sentimentos e estilos de vida de determinado grupo de pessoas; identificar questões que coordenarão uma pesquisa quantitativa; buscar informações sobre contextos ou produtos.10

Pelo grupo focal é possível adquirir, ao mesmo tempo, um grande acúmulo de informação de pessoas diferentes sobre o tema que é discutido.13,14

É importante definir um local que permita a participação de todos os integrantes, possibilite a gravação do encontro e a privacidade dos que estão participando. O moderador é responsável pelo grupo e deve manter a interação e a participação de todos, conduzindo a discussão de maneira que todas as opiniões sejam consideradas importantes, uma vez que, nessa dinâmica, não existe informação correta ou incorreta.9,14,15

Cabe salientar que as técnicas de coleta de dados também exigem que o pesquisador aprenda a utilizálas com rigor, criatividade, capacidade crítico-reflexiva e zelo com os sujeitos envolvidos. Assim, investigadores iniciantes podem se valer de "exercícios" de entrevistas, coordenação de grupos, observação, sob orientação/supervisão de um pesquisador experiente, antes de efetivamente realizarem suas coletas de dados com base em tais técnicas. Somente o fazer cotidiano refletido, supervisionado e permeado por referencial teórico consistente vai configurando experiências e saberes na utilização dessas técnicas de pesquisa.

O rigor na pesquisa qualitativa

A diversificação das modalidades de investigação na abordagem qualitativa suscita o questionamento dos instrumentais teórico-metodológicos disponíveis e dos parâmetros usuais para o julgamento da qualidade do trabalho científico.16 A produção de dados sobre a realidade coloca o pesquisador diante de uma tarefa desafiadora, que é escolher o modo, a técnica, os sujeitos e o tempo apropriado. Isso faz do trabalho de campo uma verdadeira arte.

Demo,17 quando reflete sobre a busca do equilíbrio entre o conteúdo e a forma na pesquisa qualitativa, alerta que a busca da formalidade pode facilmente reinventar a "ditadura do método"; porém, se na pesquisa quantitativa é possível a manipulação dos dados, que dirá dados qualitativos desprovidos de um mínimo de padronização. Considerando a etimologia latina de qualidade (qualitas significa essência, ou seja, a parte essencial das coisas), duvida-se que conversas soltas ou amadoramente conduzidas possam extrair alguma análise mais profunda ou conclusões que sejam significativas para a prática.

Segundo Boemer,18 a aceitação acrítica de metodologias alternativas pode travestir a ausência/inadequação de método da investigação científica, que requer dois polos relevantes: o rigor científico e o rigor ético. O rigor científico pressupõe, em primeiro lugar, a coerência interna, entendida como a competência que a metodologia escolhida tem de responder ao problema de pesquisa, e, em segundo, o rigor na utilização do método e fidedignidade do autor ao seu referencial teórico.

Mancia e Ramos19 realizaram um estudo sobre os pontos críticos mais comuns encontrados na avaliação de artigos submetidos a publicação científica e referiram que, em relação á metodologia, os pontos principais encontrados no estudo foram a ausência de informações sobre os critérios de escolha dos sujeitos, os procedimentos de coleta de dados insuficientemente detalhados, a não explicitação dos aspectos abordados nas entrevistas ou instrumentos inadequadamente descritos e a não delimitação temporal dos dados do estudo.

Embora esses aspectos apontados pelo estudo pareçam praticamente óbvios, visto que a vasta literatura sobre produção científica traz tais recomendações, a constatação é de que, na realidade, ainda são falhos. Vale ressaltar que apesar de essas falhas serem aspectos comuns tanto para as pesquisas quantitativas como para as qualitativas, esta última não tem seus métodos padronizados e bem consagrados como na abordagem quantitativa, e, portanto, requerem ainda mais a descrição detalhada dos procedimentos e cuidados específicos para cada investigação.

Gatti20 aponta críticas que a pesquisa qualitativa tem recebido: observações casuísticas; sem parâmetros teóricos; a descrição do óbvio; análises de conteúdo realizadas sem metodologia clara; incapacidade de reconstrução do dado e de percepção crítica dos vieses situacionais; desconhecimento no trato da História e de histórias; precariedade na documentação e na análise documental.

Uma vez que a população investigada na pesquisa qualitativa é reduzida, a falta de um registro detalhado dos procedimentos pode criar a impressão de que os resultados têm pouca aplicação em outros ambientes. A pesquisa qualitativa, porém, pode oferecer contribuições relevantes, embora seja um tipo diferente de resultado.

Quanto ao rigor ético, os princípios éticos devem ser observados em todas as etapas da pesquisa, pois pesquisar em uma abordagem qualitativa envolve pessoas em seus movimentos existenciais, o que implica uma questão ética, e isso requer o reconhecimento das vulnerabilidades, fragilidades e possibilidades humanas.18

Partindo do pressuposto de Demo17 sobre a necessidade de aceitar que a ciência seja apenas uma das possibilidades de olhar a realidade, inclusive nem sempre a mais adequada, resta aos pesquisadores a tarefa de zelar pelo primor e qualidade com que as pesquisas qualitativas são realizadas.

Esse rigor ético e científico deve ser considerado não para comprovar a cientificidade das pesquisas qualitativas, mas para qualificar apropriadamente os processos e resultados encontrados nos estudos. Assim, uma das formas de evidenciar esse fato é a explicitação detalhada dos esforços e cuidados tomados pelos pesquisadores no desenvolvimento de suas investigações. Isso imprime rigor metodológico e facilita a comunicação entre os pesquisadores e, assim, a consolidação da abordagem qualitativa na construção do conhecimento.

Nesse contexto, sete critérios são apontados para uma boa investigação qualitativa, a saber: cuidados éticos, importância da investigação, clareza e coerência do relatório de pesquisa, uso apropriado e rigoroso dos métodos, importância da reflexividade ou atenção aos vieses, importância de estabelecer validade ou credibilidade e importância da verificação ou confiabilidade.5

Essas questões fundamentais sobre o rigor na pesquisa qualitativa tornam ainda mais relevante o acesso cuidadoso do pesquisador aos sujeitos da pesquisa em seu cenário vivido. Isso envolve "garantir" que os dados apresentados foram construídos com base em relações éticas, com o uso o mais adequado possível das técnicas e registro de coleta de dados, o que não nega que todo dado "coletado" assim o é na perspectiva do pesquisador que, imbuído de suas concepções e referenciais teóricos, faz leituras e recortes da realidade, construindo apenas uma possibilidade de visão/interpretação da realidade considerada sempre complexa e inesgotável.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A definição da corrente de pensamento que embasa o trabalho científico constitui uma etapa essencial na busca do explorar, descrever, compreender e analisar a realidade a ser estudada.

A tarefa de selecionar ou desenvolve rmétodos para reunir dados está entre as mais desafiadoras no processo de pesquisa, e a adequação do método ao objeto de estudo e a fidedignidade na sua utilização contribuem para o rigor da pesquisa científica. Diante da complexidade da realidade, a diversidade de técnicas para a coleta de dados tem aumentado. Portanto, é fundamental o conhecimento aprofundado das particularidades de cada uma e habilidade para utilizá-la, lembrando que a escolha inapropriada pode comprometer a validade dos achados da pesquisa.

A entrada no campo do estudo constitui um momento carregado de tensões e cuidados, ressaltando-se que a inserção do pesquisador não se dá de forma natural ou mesmo neutra. Tanto a entrada quanto a saída do campo devem ser graduais e planejadas, dados os vínculos estabelecidos e a possibilidade da necessidade da volta, o que envolve, também, o compromisso com os sujeitos.

O rigor ético extrapola a submissão do projeto de pesquisa a um Comitê de Ética, mas deve permear todo o percurso da investigação científica. Uma dentre várias questões que podem ser facilmente negligenciadas pelo pesquisador é o compromisso com o campo e os sujeitos da pesquisa, o qual pode ser demonstrado pela devolução dos resultados, não apenas apresentando as críticas encontradas, mas, principalmente apontando as potencialidades e contribuindo com sugestões para a mudança da realidade.

Cabe destacar, ainda, que não se trata apenas de atitudes individuais, mas há necessidade de discussões mais efetivas sobre a relação universidade-serviços como parceiros na construção do conhecimento, tratando-se, pois, de questão complexa e político-institucional.

Por fim, ressalte-se a importância de apresentar a descrição detalhada do método e dos cuidados tomados pelo pesquisador na redação do manuscrito para a publicação da pesquisa, o que pode atestar acredibilida de merecida ao trabalho realizado, contribuindo para o reconhecimento da importância da pesquisa qualitativa para a construção do conhecimento.

 

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† (in memoriam)

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